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O livro da sorte – Blog Conta uma História, 26 de fevereiro de 2015

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“A grande sorte na vida são os melhores amigos”

Entrevista

Heloisa Prieto – Escritora e tradutora

Rosa Maria: Conte-nos como foi que surgiu a ideia de escrever “O livro da sorte”, da Terceiro Nome Editora.

Heloisa Prieto: Durante os anos 60, quando eu era adolescente, minha melhor amiga era uma prima chamada Rosana. Muitas mudanças aconteceram em nossas famílias naquele período e nos apoiávamos muito. Nossa amizade era um espaço de aventuras, descobertas e muito humor. Como éramos e ainda somos muito diferentes, com caminhos de vida totalmente diversos, havia sempre um estranhamento que imprimia muita leveza às coisas. Problemas perdiam o manto do perigo ou da seriedade quando compartilhados. A grande sorte na vida são os melhores amigos, eu creio. Então desloquei o histórico da amizade para o tempo presente e criei circunstâncias problemáticas próprias dos tempos de hoje: a mãe que se recusa a assumir a idade e compete com a filha, a reviravolta da fortuna devido aos maus negócios na bolsa de valores, por exemplo.

RM: As duas personagens, Rosana e Dadá, foram inspiradas em algum jovem da realidade?

HP: Gosto de escrever para jovens e percebo que minha geração, nossos ídolos na música, na política, são muito apreciados pelo pessoal de hoje. A escrita flui muito facilmente. Mas há um diferencial no meu trabalho: mesmo quando insiro um foco narrativo de alguém de 17 ou 18 anos, recorro a recursos literários muito sofisticados. No caso de “O livro da sorte”, trabalhei com dois pontos de vista sempre, não apenas das amigas, como também o eixo oriente e ocidente.

Há um conto de Joseph Conrad, chamado Juventude, que traduzi para uma antologia para a Cia das Letras intitulada De Primeira viagem. Nele, o marinheiro naufraga, quase morre, sofre loucamente e sai de sua primeira viagem felicíssimo, pois viveu a maior aventura que se pode imaginar. Essa percepção dos acontecimentos da vida como possibilidade de vivência de experiências máximas é muito clara na juventude, justamente, mas jamais deveria ser esquecida. Portanto, meus textos contemplam a grande aventura da juventude em sua densidade e complexidade, mas com direito a muito suspense, perigo e diversão, pois isso também é próprio do espírito jovem, o que é muito diferente do “juvenil”, um termo que não gosto porque rima com “pueril”, leia-se tolo e superficial.

RM: Durante a narração de “O livro da sorte”, encontramos sempre alguns pontos que você deixa para o leitor refletir. Aliás, logo que abrimos o livro encontramos uma destas dicas através de uma frase linda: “Todo amor é amizade. Amizade é sempre amor”.

HP: Esta frase foi escrita por Tatiana Belinky e a considero como um lema para a vida. Sim, seu comentário é perfeito, deixo muito espaço para o leitor co-autor. Outro dia fiquei trocando e-mails com uma leitura que questionava essa premissa, justamente. Ela gostava mais de histórias nas quais tudo é totalmente explicado. Comentei que isso era um estilo norteamericano de escrita marcado pela influência dos roteiros de cinema ou TV. Quando se pega um manual de roteiro é preciso justificar tudo, inclusive os objetos que surgem em cena.

Mas minha escola é outra, adoro cineastas que não explicam absolutamente nada, pelo contrário, lançam desafios belíssimos, como o russo Andrei Tarkovisky. A prosa quando é generosa com o leitor e não está presa à camisa de força de um narrador que sabe tudo de seus personagens, se transforma num jogo lúdico celebrando a tríade: autor;livro;leitor, a união de dois imaginários. Finalmente, na vida real, os fatos vão se desvendando ao longo dos anos. A vida é uma obra em aberto.

RM: Poderia destacar outros livros de sua autoria destinados a este público jovem?

HP: Publiquei a série Mano, em parceira como jornalista Gilberto Dimenstein, nove livros, pela editora Ática, que foram adaptados para o cinema pela cineasta Laís Bodanski e inspiraram o filme As Melhores Coisas do Mundo.

A Cidade dos Deitados, Uma Noite no Cemitério, publicado pela Cosac Naify, foi minha primeira homenagem ao rock and roll. Nesse caso, o grupo homenageado foram os Ramones, que adoro.

Lenora, publicado pela editora Rocco, se passa em dois tempos, os anos 60 e o mundo contemporâneo. Nesse caso, celebrei a música, os mistérios e a magia. O livro gira em torno de um pacto sobrenatural que acontece no réveillon de 1970 e cujas consequências transformam por completo a vida dos três personagens principais: Lenora, Ian e Duda. O segundo volume, intitulado Ian, no qual os segredos do polêmico mestre do rock e da magia serão revelados, está no prelo da editora. Aprovei a capa recentemente. A ideia é montar uma trilogia. Gabi Mancini, roteirista, pretende transformá-lo em longa metragem.

Escrita Secreta, editado pela Escrita Fina, apresenta um exercício raro nos livros, mas que a gente encontra em tumblrs e blogs. A combinação de fotos e fragmentos de contos e poemas. Entreguei a duas jovens fotógrafas e uma artista gráfica, textos que eu tinha na gaveta, sem término. O resultado da leitura delas gerou um livro cuja beleza me espantou. Esse trabalho foi muito elogiado pela crítica e me deixou feliz.

No ano passado lancei O Jogo dos Tesouros, pela editora Edelbra, em forma de graphic novel. Os desenhos ficaram maravilhosos, criados por Jan Limpens, um artista austríaco, radicado no Brasil. Em breve, O Caso Dominó, o segundo volume do diário de Marinês será ilustrado também por Jan.

Em “O livro da Sorte”, a protagonista encontra um namorado incrível, criativo, original e solidário. Nos momentos mais terríveis, ele é o refúgio da personagem. Mas no Caso Dominó, inverti a situação e criei um jovem incrivelmente talentoso, lindo, mas com tormentos íntimos.

RM: Muitas pesquisas apontam que os jovens têm lido mais.  O que tem motivado? O que pode ser feito para este interesse crescer?

HP: Creio que os novos suportes abrem possibilidades para outras formas de narrar. Tudo se soma e a leitura cresce a cada descoberta. Mas nada supera esse portal incrível que é um livro de papel. Há algo de mágico em abrir essas páginas e arrancar de dentro uma história, dizia também Tatiana Belinky. Um livro que atravessa décadas, marcado por dedos que o manusearam, contendo dedicatórias, é algo muito inspirador. Não por acaso, em plena era digital, os sebos voltaram à moda. Além disso, o livro de cabeceira é como um amigo que acompanha a vida de alguém. O livro da mochila, o livro que se gosta de reler, dobrar as páginas, rabiscar. A relação táctil com o papel é bem diferente do suporte digital e ocupa outro lugar na vida de um leitor.

RM: O que pensa dos e-Books e da migração da literatura para as plataformas digitais?

HP: Recentemente usei um pseudônimo e abri uma página no tumblr. Adorei a comunicação por imagens, música, verbetes. O espaço coletivo de criação é uma delícia, algo que inspira retirando a escrita e o autor do lugar divino e solitário que caracterizou a figura do escritor no século dezenove. Todos têm inspirações, a criação é democrática por excelência. Entre algumas culturas indígenas as crianças desenham coletivamente. O mundo digital não apenas ajuda a descoberta da literatura como também abre espaço para a escrita pessoal, mesmo que anônima.

RM: Comente sobre sua experiência com literatura infantil. O que destaca para você na hora de escrever um livro para crianças?

HP: Hoje, justamente, sai da gráfica da Companhia das Letrinhas, um lançamento para crianças: “O estranho caso da massinha fedorenta”. Meus livros para crianças contém humor, magia e brincadeiras. Este, em especial, foi inspirado por crianças que conheci. Quando eu era professora de pré-escola me divertia muito ouvindo conversa de criança.

RM: Atualmente, diante de uma vasta produção literária, o que surpreende uma criança? E o adolescente?

HP: A arte de narrar, já desde as mil e uma noites, consiste em aprisionar o leitor num jogo de descoberta e criação. Uma boa história exige sinceridade, um mergulho nos segredos mais íntimos e coragem por parte de quem a escreve. Mas também um piscar de olhos de quem sabe que a literatura é a arte de mentir para dizer as grandes verdades. Um jogo eterno e sempre surpreendente.

Confira aqui a entrevista na íntegra

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O livro da sorte – Blog Conta uma História, 26 de fevereiro de 2015

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Um diálogo com jovens

A consagrada escritora brasileira Heloisa Prieto, em “O livro da sorte”, Editora Terceiro Nome, conta a história de uma adolescente que vê sua vida virar de cabeça para baixo após a morte do pai. Em meio à tristeza e ao sofrimento, ela passa a escrever suas experiências e compartilhá-las com sua melhor amiga. O diário das adolescentes ajuda ambas a lidar com os sentimentos e a pensar sobre o significado da amizade.

Sorte ou azar?  Como entender certos acontecimentos das nossas vidas? Na sorte, tudo bem; é certeza que estaremos sempre bem acompanhados. Mas e no azar, quem estará do nosso lado? Neste caso, só quem ama de verdade. Certa disso, Heloisa Prieto destaca em “O livro da sorte” uma linda frase de Tatiana Belinsky: “Todo amor é amizade. Amizade é sempre amor”.

Se é sorte ou azar certas experiências de vida, a história de duas adolescentes, Rosana e Dadá, faz o leitor pensar sobre a questão. Mas o que certamente vai motivar este leitor para a leitura, página por página, é a amizade sincera das duas personagens e a forma que encontraram de uma ajudar a outra vencer as adversidades repentinas.

Dadá é uma adolescente de 17 anos. A protagonista da história resolve registrar suas impressões numa espécie de diário e trocá-las com Rosana, sua melhor amiga. Além de aproximá-las ainda mais, a escrita ajuda Dadá a lidar com os sentimentos que afloram com a perda e a faz pensar sobre o significado da amizade.

Ao construir sua narrativa a partir da troca dos escritos entre Dadá e Rosana, a autora Heloisa Prieto levanta questões que permeiam a vida dos adolescentes, ajudando-os certamente a entender a convivência com os amigos e com a família, suas angústias e descobertas. E aí: realmente existe diferença entre a sorte e o azar?

“O livro da sorte” traz ilustrações do cartunista Francisco França.

A autora é apaixonada por livros desde a infância. Quando morava em Marília, interior de São Paulo, ouvia histórias da tradição local e se encantava com as lendas portuguesas, baianas e espanholas que lhe contavam. Iniciou sua carreira de escritora alguns anos depois, quando, já morando em São Paulo, contava histórias para crianças na Escola da Vila. Doutora em literatura francesa (USP) e mestre em semiótica (PUC-SP) tem mais de 50 obras de literatura infantojuvenil publicadas e coleciona prêmios, entre eles dois Jabutis. A série de livros “Mano descobre”, escrita em parceria com Gilberto Dimenstein, inspirou o filme As melhores coisas do mundo, dirigido por Laís Bodanzky. Seu livro Mil e um fantasmas, adaptado pela Cia. do Grito, recebeu o prêmio Alpha.

Heloisa Prieto concedeu entrevista ao Blog Conta uma História. Clique à direita, na categoriaEntrevistas, para conhecer mais sobre “O livro da sorte” e o trabalho desta cativante escritora.

Confira aqui a resenha na íntegra

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