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O estádio dos desejos – Literatura na Arquibancada, 11 de fevereiro de 2015

villoro

O estádio dos desejos

Assim como no Brasil, o México tem um povo apaixonado pelo futebol. E um de seus grandes escritores, consagrado no país e pelo mundo, Juan Villoro, construiu uma história, classificada como literatura infanto-juvenil, mas que encanta a todos os tipos de leitores.

“O estádio dos desejos” (Editora Terceiro Nome) conta as peripécias do garoto Arturo, fanático por futebol, mas que nunca viu a seleção de seu país vencer um jogo. Para tentar reverter essa situação, Arturo recorre ao pai, um cientista, para tentar descobrir uma “fórmula mágica” para a vitória.

O livro teve a tradução de Eric Nepomuceno e ilustrações de Francisco França.

Apresentação

Juan Villoro é um dos maiores, senão o maior escritor mexicano da atualidade. Aliás, essa afirmação é fácil de confirmar: ele mede quase dois metros de altura.

Acontece que ele é também um dos maiores em todos os sentidos, e confirmar isso é igualmente fácil: basta ler o que ele escreve.

São romances, contos, ensaios, histórias infanto-juvenis e peças de teatro – e tudo que Villoro faz tem recebido a admiração e o carinho dos leitores, bem como elogios da crítica.

Alguns de seus livros, como o romance Arrecife e o infanto-juvenil O livro selvagem, já foram publicados no Brasil. Assim como eles, os romances Llamada de Amsterdam e El testigo, os contos de La noche navegable e Los culpables e o infanto-juvenil Cazadores de croquete, estão entre os mais bem-sucedidos da sua geração de autores latino-americanos.

Prestigiado e premiado, respeitado e reconhecido, agradece todas essas honras, educado que é.

Mas Villoro faz questão de ressaltar que, no fundo, no fundo, seu verdadeiro ofício é torcer apaixonadamente pelo Necaxa, um time da segunda divisão do futebol mexicano.

Muito mais que seu diploma de sociólogo, seu amplo e vasto trabalho jornalístico, sua trajetória consistente e variada, os dois grandes orgulhos de sua vida são torcer pelo Barcelona (seu pai, o grande filósofo Luis Villoro, nasceu na Catalunha e se exilou no México logo depois da Guerra Civil Espanhola), time ganhador, e pelo Necaxa, time perdedor.

Porque ele sabe que a vida é exatamente assim, feita de vitórias e derrotas. E que o importante é torcer, ou melhor, viver.

Enquanto vive e torce, Villoro escreve – para alegria de todos nós. Boa prova disso é esta pequena joia chamada O estádio dos desejos.

Um estádio formidável

Por Juan Villoro

No quarto de Arturo havia um globo terrestre. Antes de ir dormir, ele acariciava o globo e o fazia girar. Gostava do globo porque parecia uma bola de futebol.

Quando comia, quando tomava banho e quando dormia, Arturo imaginava gols possíveis e impossíveis. Seu pijama tinha o número 9 e as cores do Atlântida, seu time favorito.

Ficava fascinado quando ia com o pai ao estádio Atlântida, o maior e mais moderno da cidade, onde também jogava a seleção.

A arquibancada se enchia de gente enlouquecida e contente que pintava a cara e tocava tambores, cornetas e apitos num tremendo alvoroço. Cem mil gargantas gritavam quando alguém fazia um gol e cem mil narizes deixavam de respirar quando o juiz marcava um pênalti.

O estádio do Atlântida tinha uma cobertura prateada onde quatro falcões faziam ninho. Os ferozes falcões eram chamados de Pelé, Maradona, Di Stéfano e Pancho. Os três primeiros falcões tinham nomes de jogadores históricos; o quarto tinha o nome de um centroavante de que todo mundo gostava muito, mas que nunca tinha ganhado um campeonato.

Pancho era o camisa 9 do Atlântida e da seleção. No pátio do colégio, Arturo tentava imitar sua célebre jogada do cavalinho adormecido, ou seja, ficar quieto feito um cavalo que dorme de pé e arrematar a jogada com um chute de calcanhar, com a força de um corcel que dá um coice.

Pancho tinha dribles incríveis. Tinha passado a bola no meio das pernas do alemão Peter Kaspa, conhecido como Mel de Arsênico, tinha feito Ivo Tundaz, zagueiro húngaro conhecido como Gulash, o Terrível, dançar uma valsa, e tinha metido um gol de peixinho em Tito Granola, o goleiro argentino de formosa cabeleira que todo mundo chamava de Cabelinho de Anjo.

Infelizmente, a seleção precisava de mais do que isso para ganhar.

O querido Pancho era quem dava mais autógrafos e em todos fazia o desenho de um cavalinho com os olhos fechados. Era desconhecido no mundo, mas adorado no estádio Atlântida. E isso explicava o fato de um dos falcões levar seu nome.

O trabalho dos falcões, aves de rapina, consistia em afastar os intrusos. O estádio do Atlântida tinha grama de qualidade e sementes saborosas. Por isso, os pássaros gostavam de bicar o gramado, e volta e meia cruzavam o campo justo quando a bola zunia rumo ao gol. Para evitar esses choques, nos dias de jogo os falcões ficavam à espreita, lá em cima, assustando os pássaros gulosos e famintos.

Era fácil identificar os falcões: Pelé era negro; Maradona, gordo; Di Stéfano, careca; e Pancho, brincalhão (era o único que sabia voar de ponta-cabeça).

Arturo sonhava ser um grande centroavante. Era bom cabeceando, chutava bem com a perna direita e estava aprimorando seu toque com a canhota. Essas habilidades tinham feito dele o artilheiro da escola. Mesmo assim, seu pai dizia:

– Futebol, a gente joga com a mente.

O pai de Arturo era o doutor Jerónimo Gómez, um cientista especializado em magnetismo. Tinha fabricado uns ímãs famosos e, além disso, era conselheiro da seleção.

Antes das partidas, ele descia para o vestiário e dizia aos jogadores:

– Rapaziada gloriosa, o futebol é um esporte magnético: a bola chega para quem mais a deseja!

Os jogadores ficavam observando com olhos arregalados. Depois coçavam a cabeleira e esfregavam as tatuagens, sem entender direito o que aquele sábio dizia.

Nem sempre era fácil captar as ideias do doutor Gómez.  O filho Arturo tinha conseguido entender o seguinte: a Terra tem uns ímãs que atraem os metais, mas o magnetismo mais forte está no interior das pessoas.

– Se você se concentrar de verdade, as coisas vão chegar até você – dizia o pai de Arturo. – Como é que você acha que eu conquistei sua mãe?

Arturo gostava de uma menina chamada Sofia. Quando ela atravessava o pátio do colégio, podia sentir sua presença, mesmo se estivesse de costas ou concentrado numa jogada para garantir o domínio da bola.

– Existem pessoas cuja presença a gente percebe sem precisar olhar para elas – comentava o doutor Gómez.

Emocionado com suas próprias teorias, passava as mãos pela cabeleira e se despenteava ao afirmar:

– No Japão, os melhores arqueiros disparam suas flechas com os olhos fechados. O alvo é uma coisa que a gente sente. A pontaria está dentro da gente. Se você quiser alguma coisa, querendo com força você consegue. O magnetismo é a ciência da atração.

Será que era verdade o que o doutor Jerónimo Gómez dizia?

De noite, Arturo sonhava que estava em campo. Lá no fundo, via a bola. “Eu quero muito você”, pensava, e a bola rolava até seus pés, como um cachorro que volta para o seu dono.

Juan Villoro nasceu em 1956 na Cidade do México e é um dos intelectuais latino-americanos mais ativos da atualidade. Sociólogo, jornalista, tradutor e professor universitário, já recebeu diversos prêmios por seu trabalho. Tem mais de trinta livros publicados em diversos gêneros, como romance, ensaio e teatro e escreve para revistas como Letras Libres e Etiqueta Negra, além dos jornais El País e Reforma. Assim como Arturo, o protagonista de O estádio dos desejos, Villoro é apaixonado por futebol. Torce pelo Barcelona (seu pai, o filósofo Luis Villoro, nasceu na Catalunha e se exilou no México depois da Guerra Civil Espanhola) e pelo Necaxa, time da segunda divisão do campeonato mexicano.

Leia aqui a resenha na íntegra

E confira aqui mais informações sobre o livro

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O estádio dos desejos – Revista da Cultura, outubro de 2014

Juan Villoro - divulgação

JUAN VILLORO E A SUA MANEIRA DE ENCARAR O COTIDIANO

Escritor mexicano enxerga a literatura como algo extraterritorial

O futebol sempre foi, desde quando era criança e morava em uma rua da Cidade do México onde todos pareciam gostar da pelota, uma paixão para Juan Carlos Villoro, que no seu recém-lançado livro infanto-juvenil, com tradução do jornalista Eric Nepomuceno, O estádio dos desejos conta a história de Arturo, que torce para o Atlântida, time de futebol que não ganha nunca. Fato que não diminui a paixão do garoto pelo esporte.

Torcedor do Barcelona (o pai nascera na Catalunha), o escritor acostumou-se desde cedo às vitórias da camisa azul-grená ao mesmo tempo em que derrotas eram rotina, uma vez que torce para o Necaxa, time da segunda divisão do futebol mexicano,  o que o fez encarar vitórias e derrotas de forma muito natural.

Tendo escrito romances, contos, ensaios, peças de teatro, entre eles destacando-se as obras Arrecife, O livro selvagem,Llamada de Amsterdam e El testigo (este último lhe rendeu o Premio Herralde em 2004), ao longo da carreira, Villoro, que costuma escrever sobre os mais variados temas, como música, cinema e literatura, enxerga no futebol algo que vai além de torcer, uma paixão que o acompanha desde a infância, mas que não se resume ao fato de um time simplesmente vencer ou perder.

Essa visão sociológica é interessante. Sua escrita desempenha um papel que vai além da representatividade de culturas locais e territórios. Para ele, a literatura é algo extraterritorial, onde o compromisso com a crítica cotidiana se mantêm vivo através das palavras. Estudou em um colégio europeu na Cidade do México, por conta de um intercâmbio que a instituição mantinha com os habitantes da cidade, fato que acabava aproximando culturas. O escritor aprendeu alemão e teve contato com uma visão de mundo diferente da sua. Isso contribuiu para a existência de um equilíbrio em sua obra, onde não existem hibridismos, nacionalismos e multiculturalismos exagerados.

As experiências de vida parecem se aproximar do universo da escrita literária, sem a obrigação de tornar-se um relato fiel daquilo que foi vivenciado. O estádio dos desejos é um exemplo. O ensaio Iguanias e dinosaurios, América latina como utopia del atraso, onde Villoro descreve seus primeiros anos escolares, acaba explicando como, a partir da língua e da cultura estrangeira, esse latino passou a enxergar o seu papel como escritor que viria a ser anos mais tarde. O mexicano fala neste mesmo ensaio, sobre os resultados dessa sua educação infantil: aprendeu a admirar a língua espanhola e a não aceitar ideias que reduzem a noção da identidade nacional.

Em Arrecife, também recém-lançado no Brasil, mais uma vez aparece a diferença das culturas latina e europeia: Mario Müller, personagem que trabalha num resort caribenho e oferece aos clientes diversas situações de perigo controlado, desde sequestros-relâmpago até contato com guerrilheiros, é uma maneira de colocar culturas em contato. O próprio nome da personagem é de origem alemã.

O professor de literatura na Universidade Autônoma do México e convidado das universidades de Yale, de Pompeu Fabra em Barcelona e da Universidade de Princeton, nascido em 24 de setembro de 1956, demonstra uma maneira de encarar a literatura que aproxima o leitor ao mesmo tempo do cotidiano contemporâneo e de uma pausa para a reflexão que parte de situações inusitadas.

A obra El testigo também se junta a esse time de referências e traz Julio Valdivieso, intelectual e professor mexicano que há muitos anos mora na Europa e decide retornar. Começa uma fase de redescobertas sobre o país e reencontros. Note que a publicação de 2004, de certa maneira também toca no tema das identidades culturais, dialogando entre as certezas e incertezas de um personagem que passa a redescobrir sua terra natal, o cotidiano e as mudanças que aconteceram desde que partiu.

Confira aqui a matéria na íntegra

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O estádio dos desejos – revista Brasileiros, setembro de 2014

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O estádio dos desejos – blog Conta uma história, 25 de agosto de 2014

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Para quem gosta ou não de futebol

Para um Brasil pós-Copa do Mundo e a sua Seleção de Futebol pós-Alemanha, a ficção de “O estádio dos desejos”, do mexicano Juan Villoro, lançado pela Editora Terceiro Nome, na Festa  Literária de Paraty (de 30/7 a 3/8),  com certeza, é uma mera coincidência, entretanto, vai provocar lembranças na cabeça do torcedor ou leitor brasileiro.

Como o livro é criativo e divertido, o texto agradável e engenhoso na missão de conduzir a história, as lembranças servirão para fazer o leitor interagir mais ainda com a proposta do autor: falar de futebol para quem gosta e para quem não gosta. São 120 páginas que provam que a paixão pelo esporte faz gente de qualquer parte do mundo se virar para ver vitorioso o seu time ou sua seleção de craques.

No caso de “O estádio dos desejos”, uma família se empenha para encontrar uma solução para seu país conseguir se classificar para a Copa do Mundo, já que os jogadores jogam mal, nunca ganham uma competição nem sequer se constrangem com a situação. Mesmo assim são amados por uma fiel, numerosa e alegre torcida.

Por causa desta torcida, a solução vem de uma forma surpreendente: primeiro, um cientista estabelece o princípio de que “o futebol tem tudo a ver com a infância” e os torcedores quando vão a um estádio voltam a ser meninos, que acreditam em heróis, e nada importa mais que o jogo. Em seguida, outro cientista decide se valer estrategicamente desta paixão da torcida pela seleção desastrosa para tornar os jogadores craques na hora da bola rolar.

Juntamente com seu filho Arturo, personagem da história, ele se lança no desafio de utilizar sua experiência profissional com Magnetismo para conseguir gols e vitórias. Espalha ímãs no teto do estádio para canalizar a energia da torcida para dentro do campo. Assim, o autor deixa mais do que uma lição de futebol. O menino Arturo, por exemplo, aprende a utilizar este magnetismo para atrair coisas mais perenes para a sua vida. Enquanto isso, a seleção do futebol ora perde, ora ganha, mas… se classifica.

Publicado originalmente como La cancha de los deseos, esse infantojuvenil tem a tradução para o português de Eric Nepomuceno, que já trabalhou em obras de Gabriel Garcia Márquez, Julio Cortázar, Eduardo Galeano, entre outros grandes nomes da literatura latino-americana. As ilustrações são do cartunista Francisco França.

O autor Juan Villoro nasceu em 1956 na Cidade do México e é um dos intelectuais latino-americanos mais ativos da atualidade. Sociólogo, jornalista, tradutor e professor universitário, já recebeu diversos prêmios por seu trabalho. Tem mais de trinta livros publicados em diversos gêneros, como romance, ensaio e teatro e escreve para revistas como Letras Libres e Etiqueta Negra, além dos jornais El País e Reforma. Assim como Arturo, o protagonista de O estádio dos desejos, Villoro é apaixonado por futebol. Torce pelo Barcelona (seu pai, o filósofo Luis Villoro, nasceu na Catalunha e se exilou no México depois da Guerra Civil Espanhola) e pelo Necaxa, time da segunda divisão do campeonato mexicano.

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O estádio dos desejos – Diário do Nordeste (Caderno 3), 12 de agosto de 2014

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O México visto pelo caleidoscópio

Um dos grandes nomes da literatura mexicana, Juan Villoro tem romance, ensaio e livro infantil publicados

O Villoro de “O estádio dos desejos” não traz o peso crítico do romancista e do ensaísta, mas tampouco deixa-se levar por imagens prontas – e o tema, o futebol, costuma evocá-las com frequência. Há um procedimento de desmontagem do estereótipo, ainda que fique evidente a paixão do autor pelo tema.

A história se passa em um país fictício, com um povo fanático por futebol. A seleção é amada e respeitada pelos torcedores, mas incapaz de se sair bem em campo. Assim também é o Atlântida, time do coração do pequeno Arturo, que sonha dormindo e acordado com os dribles de seus ídolos. Filho de um cientista, ele convence o pai a criar uma máquina capaz de colocar o time e a seleção nacional no caminho certo. Torcida fanática, time malfadado… Não seria esse um bom retrato para o futebol brasileiro da era Luiz Felipe Scolari?

“Claro que não! Vocês reclamam, mas o Brasil já tem cinco campeonatos mundiais. O México costuma ter bons times, mas nunca ganhou uma Copa. Se tivéssemos uma seleção tão boa quanto a nossa torcida, a história seria diferente”, brinca, evocando o mote de sua trama.

A leitura deixa evidente a familiaridade do autor com o tema. No conjunto de sua obra, ele é quase onipresente. Villoro é um torcedor fanático do Club Necaxa, time que disputa a segunda divisão do campeonato mexicano. Como jornalista, tem no futebol um de seus temas mais recorrentes, tratado por meio de ensaios e reportagens que já renderam livros de compilação. No currículo, ele coleciona coberturas de algumas copas do mundo. “Infelizmente, não cobri a Copa do Brasil, porque os jornais impressos trabalham hoje com equipes menores do que no passado. Mas acompanhei tudo pela TV”, conta.

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O estádio dos desejos – Cult, agosto de 2014

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O estádio dos desejos – Cartão Verde (TV Cultura), 29 de julho de 2014

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Sorteio do livro O estádio dos desejos, de Juan Villoro.

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