Arquivo da categoria: Cultura Surda – agentes religiosos e a construção de uma identidade

Cultura Surda – Revista de Antropologia da UFSCar, jan/jun de 2014

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ASSIS SILVA, C. A. Cultura Surda: agentes religiosos e a construção de uma identidade. São Paulo: Terceiro Nome, 2012.

Everton de Oliveira

Doutorando em Ciências Sociais – Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Julian Simões

Doutorando em Ciências Sociais – Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Faz algum tempo que a questão da identidade, especialmente para a antropologia e para a sociologia, deixou de ser um atributo pessoal e passou a ser uma questão de debate público, de relações de poder e de processos de subjetivação responsáveis por atribuir uma unidade a processos diferenciados, sejam eles vistos como plurais ou singulares. Politicamente, especialmente para o caso brasileiro, a questão da identidade como modo de discurso e reivindicação política ganha concretude no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando uma série de novos movimentos sociais passa a demandar direitos específicos para seus membros, como o movimento feminista, o movimento negro, o movimento de defesa dos favelados, o movimento gay, o movimento indígena, entre tantos outros. Certamente, muitos desses movimentos não são fruto específico desse período: o que dá singularidade para os novos movimentos, entretanto, é a construção política de uma identidade, de um sujeito político capaz de encarnar e, ao mesmo tempo, ser o exemplo concreto legitimador de todas as reivindicações, lutas e causas defendidas. Assim, analiticamente e politicamente, a questão da identidade deixou de ser um atributo inegociável: muito pelo contrário, sua expressão parece ser cada vez mais performativa, atual e visível apenas de acordo com aquilo a que ela responde. É dessa observação que César Augusto de Assis Silva parte para analisar a construção plural de uma identidade étnico-linguística relativa aos surdos em Cultura Surda: agentes religiosos e a construção de uma identidade (2012).

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Cultura Surda – Cadernos de Saúde Pública, vol. 31, no.1 (2015)

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Recusando a deficiência: a surdez como identidade étnico-linguística

Edlaine de Campos Gomes

Este livro apresenta uma instigante análise sobre o complexo processo de constituição da surdez como particularidade étnico-linguística, com base no pressuposto de que “a surdez é um efeito de configurações discursivas de saber-poder” (p. 38). Participam desse processo agentes ativistas, intelectuais e religiosos. O papel dos últimos é particularmente abordado. O autor destaca um caso exemplar no início de sua análise: a presença de uma personagem surda em uma novela gerou uma controvérsia pública entre representantes da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial e membros do Grupo de Trabalho Linguagem e Surdez da Associação Nacional e Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística, assim como outros especialistas em línguas de sinais. Os primeiros alegavam que o uso da língua de sinais seria um retrocesso diante do procedimento cirúrgico. Defendiam a intervenção no corpo, por meio de tratamento e colocação de implante coclear, realizado por especialistas do campo médico e previsto nas políticas públicas. Aqui a noção de “deficiência” se apresentava como conceito e motor para a mudança de estado, de surdo a ouvinte. O outro lado do embate advogava o reconhecimento da comunidade surda como possuidora de uma cultura e língua próprias, sendo a libras, como capital simbólico, o marco de sua identidade. Língua essa legalmente reconhecida, pela Lei de Libras (Lei nº 10.436/2002).

Em ambos os lados se encontram agentes que atuam nos processos de legitimação das distintas vertentes, que se manifestam, também, curiosamente, em políticas de Estado. Os agentes integram diferentes redes, que fazem circular categorias, conceitos e valores, que são incorporados nos discursos. Logo, duas concepções contrastivas de surdez emergem em um contexto controverso, com referências aos registros universalista hierárquico e particularista igualitário, respectivamente. O último constitui o principal interesse da análise empreendia. Para Silva, a controvérsia entre implante coclear e libras se relaciona à disputa entre “processos de disciplinamento de corpos de crianças surdas”. Nem sempre são apartados, e podem significar “modos de abertura de corpos surdos para o mundo, o que se daria pela provisão de oralidade ou sinalização” (p. 38). É nesse aspecto que a religião entra com sua potência. A referência a um milagre bíblico, no qual Cristo cura um surdo-mudo, ao dizer effata (abra-te) fundamenta a maneira de lidar com a surdez, com distintas disciplinas corporais, que não se restringem às instituições religiosas nem às práticas médico-terapêuticas. Na abordagem proposta, no entanto, a ênfase é na rede de agentes religiosos, em particular o campo cristão (católico e protestante), considerando especificidades e estratégias institucionais para alcançar o “povo surdo”, além dos ouvintes.

As instituições escolhidas pela importância que evidenciam na questão abordada no livro – Igreja Católica, Igreja Batista e Testemunhas de Jeová – possuem ações voltadas à “comunidade surda”, com especificidades históricas e doutrinárias particulares.

A Igreja Católica se caracteriza pela heterogeneidade de ações em relação à surdez, evidenciada em “missas para surdos e missas com surdos”, assim como pela atuação de duas Pastorais: dos Deficientes Auditivos e dos Surdos, cada uma, identificada a um modelo de normatividade em relação à surdez (deficiência e particularidade linguística, respectivamente).

Nesse mesmo movimento, sobressai o reconhecimento jurídico da libras, promovendo a inclusão desse saber nas diferentes instituições sociais. Há necessidade de formação, e emerge a centralidade de um grupo de especialistas, detentor da expertise: os intérpretes. O chamado “mercado da libras” coloca em movimento, então, as trajetórias das instituições e dos agentes envolvidos na constituição da surdez como particularidade linguística. Há uma série de transformações que possibilita esse processo: a institucionalização do intérprete como profissão, pela realização de cursos, em muitos casos ministrados em contexto protestante, a circulação de materiais (vídeos, livros, dicionários) e a visibilidade deles na mídia religiosa.

A trajetória dos agentes protestantes no processo de constituição da “comunidade surda” como cultura particular é amplamente evidenciada na obra. Aqui também se apresenta como relevante a combinação entre agente religioso e acadêmico, especialmente no que se refere ao papel singular da Igreja Luterana, que assim como a Igreja Católica, está ligada à educação de surdos. A produção conjunta, elaborada no início dos anos 1980, lança crítica ao oralismo, tendo como base uma literatura norte-americana, defendendo que a surdez deveria ser entendida como diferença, e não como deficiência. Contudo, a disseminação dessa diretriz parece estar associada à Igreja Batista. A produção O Clamor do Silêncio, de 1990, é apontada como relevante. Os documentos produzidos desde então foram revistos com base em referências científicas, marcadamente da linguística e pedagogia. No processo de revisão, algumas categorias foram extintas e o bilinguismo foi consolidado, com a identificação da libras como língua dos surdos. Dessa maneira, está em consonância também com a norma jurídica. Vale referir que a circulação de intérpretes protestantes e de Testemunhas de Jeová vem influenciando as práticas da Igreja Católica, conforme indica a pesquisa.

Em relação aos Testemunhas de Jeová e sua importância para o processo de legitimação da surdez como particularidade linguística, algumas características que lhes são peculiares foram destacadas, como a fundação de congregações específicas para o associado surdo, diluindo a centralidade do intérprete. Destaca-se também o “metódico cuidado de si”, que conjuga pureza mental, espiritual, moral e física, combinação que regula a vida do membro como um todo. A caracterização dos Testemunhas de Jeová está bem realizada, em suas similaridades e distinções em relação às demais.

Nota-se que em paralelo ganha espaço o processo político que imprime distinção entre deficiência e surdez. Há participação de agentes relacionados às instituições acadêmicas e ao movimento social. Tal dinâmica está inserida no fluxo das transformações sociais mais amplas, com a emergência de novos movimentos sociais reivindicativos, em especial no cenário político brasileiro dos anos 1980. Como o autor conclui, o protestantismo se caracteriza como um celeiro de intelectuais vinculados à surdez sob a ótica da particularidade linguística, mas incorpora, na mesma medida, trabalhos acadêmicos sobre o tema. Ressalta que não foram somente as instituições religiosas que compuseram o quadro de agentes que conformaram o processo de consolidação da surdez como particularidade étnico-linguística, inclusive em termos jurídicos. Caso exemplar é a Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos), instituição laica que marca também a inflexão semântica e identitária: de deficiente auditivo para surdo. É mediadora atuante na dinâmica das reivindicações da comunidade surda direcionadas ao Estado e no estabelecimento de uma norma jurídica específica.

A análise empreendida por Silva é bem sucedida, contribuindo para a compreensão das controvérsias em torno da surdez e ao seu estabelecimento como particularidade étnico-linguística. A passagem do estigma produzido pela noção de deficiência, para a conquista de reconhecimento e legitimação de uma identidade própria à denominada comunidade surda pode interessar não apenas aos leitores vinculados ao campo da saúde, como para aqueles de distintas áreas de conhecimento.

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Cultura Surda – Revista de Antropologia, v. 57, n. 1 (2014)

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Assis Silva, César Augusto de. Cultura surda: agentes religiosos e a construção de uma identidade. São Paulo: Terceiro Nome, 2012, 248 pp.

Andrea de Moraes Cavalheiro

Universidade de São Paulo

O livro de César Augusto de Assis Silva é fruto de seu doutorado direto, defendido no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo, sob a orientação do professor José Guilherme Magnani.

O autor desenvolveu um objeto original à Antropologia brasileira e construiu um problema teórico complexo, que exigiu uma análise multidimensional. Em específico, operou com destreza a combinação entre: etnografia e história; abordagem macro e microscópica; e fontes variadas, nas quais emergiram uma profusão de saberes, disciplinas, categorias e conexões entre os agentes.

O objeto de análise do autor foram as relações sociais, necessariamente discursivas e históricas, produtoras de uma normatividade da surdez que mobiliza categorias como cultura, povo e língua em sua afirmação e performance. Seu principal problema foi analisar a invenção desta nova normatividade instituída numa contraposição ambígua com a chamada deficiência e os discursos biomédicos.

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Cultura Surda – Ponto Urbe, 12 | 2013

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Cultura Surda: engendramento de particularidades

Kenya J. Marcon

Como desdobramento de uma meticulosa pesquisa documental, etnográfica e historiográfica, o antropólogo César Augusto de Assis Silva conduz o leitor a recompor um conjunto de fatos, acontecimentos, contextos e personagens que conformaram e vem conformando o engendramento da surdez como particularidade étnico-linguística. Lançada no final de 2012 pela Editora Terceiro Nome, a obra reproduz a tese de doutoramento do autor e está inserida na coleção Antropologia Hoje, resultado de uma parceria entre essa editora e o Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo, onde está vinculado o Grupo de Estudos Surdos e da Deficiência – GESD, cuja coordenação está sob responsabilidade de Assis Silva desde 2008. O autor dá início à sua pesquisa sobre os surdos na graduação, cursada na Universidade de São Paulo em 2001, mantendo o tema no doutorado e no pós-doutorado que desenvolve no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP desde 2011.

Diante de uma composição textual bastante clara e objetiva é ofertada ao leitor a possibilidade de atualizar e compreender as minuciosas narrativas construídas sobre o presente etnográfico, através de dados e análises que apontam para a operacionalização de uma descontinuidade entre surdos e ouvintes que produz a diferença em termos étnico-linguísticos.

A maneira como a obra está disposta sugere assertivamente uma apreciação argumentativa progressiva, contínua, concomitante e complementar. CULTURA SURDA: agentes religiosos e a construção de uma identidade inicia-se com a apresentação de uma controvérsia contemporânea criada a partir do choque de duas concepções normativas da surdez. O intuito da controvérsia é apontar quais instâncias discursivas devem ser consideradas no processo de construção de sujeitos por meio de disciplinas e normatividades históricas, produzidas em relações definidas de saber-poder que assinalam a condição audiológica como forma de reconhecimento de identidades.

É, portanto, na Introdução, através da controvérsia apresentada e do diálogo com a teoria foucaultiana, que Assis Silva localiza alguns dos contextos discursivos em que a audição é tomada como referência para a percepção de si e, concomitantemente, para a produção da diferença. Em cada relação de saber-poder, afirma o autor, a diferença pela audição é produzida contextualmente, seja focalizando desde a intervenção biomédica no corpo surdo até a afirmação e performatização de uma particularidade étnico-linguística.

Assis Silva é bastante cuidadoso na abordagem de categorias classificatórias e identitárias, pois postula que a cada relação produtora de pessoas diferenciadas pela audição corresponde um léxico específico de termos de designam não só posições de sujeitos, mas também “formas disciplinares de regulação da surdez” (ASSIS SILVA, 2012, p. 23).

Assim, o autor demonstra haver entre os termos ouvinte e surdo uma série de registros terminológicos históricos e contemporâneos que geram tensão em diferentes instâncias de poder, configurando uma hierarquização de termos mais ou menos legítimos de acordo com quem fala, onde fala, sobre o que fala e para quem se fala. Nesse registro, Assis Silva afirma maior estabilidade de alguns termos, especialmente aqueles inseridos no processo por ele designado como “afirmação e performatização da surdez enquanto particularidade étnico-linguística”, uma nova normatividade sobre a qual o autor investe, de fato, sua análise.

Para Assis Silva, essa normatividade vinculada à surdez surge no Brasil a partir dos anos 1980/1990 e adquire maiores proporções com o reconhecimento jurídico da língua brasileira de sinais – a libras – em 2002. A afirmação da condição sócio antropológica da surdez como particularidade depende fundamentalmente da institucionalização e do reconhecimento da libras como especificidade que marca culturalmente a diferença e caracteriza, com base nela, um tipo particular de comunidade, a comunidade surda.

No escopo da análise, Assis Silva ainda demonstra a importância que tem a narrativa mítica que agrega surdos do Brasil e do mundo frente à consolidação da particularidade étnico-linguística, mesmo que essa narrativa apresente especificidades doutrinárias em cada religião. Há ainda que se considerar, segundo o autor, a importância dos rituais para atualizar e reafirmar uma disciplina espacial e corporal que marque as fronteiras que separam, em termos de língua e cultura, os surdos dos ouvintes.

Tanto o período de tramitação da lei que reconhece a libras quanto o movimento que lhe foi oriundo e posterior compõem, na análise do autor, o cenário de atuação articulada de religiosos, representantes do movimento social, acadêmicos e profissionais no mercado que representam posições sociais plenamente intercambiáveis. A atuação de agentes com trajetória religiosa no movimento social e/ou na academia e/ou no mercado possibilita a assunção de uma ou outra posição social, conforme o contexto da interação e as exigências institucionais previamente colocadas. Grande parte da produção acadêmica sobre os surdos que compõe objeto de análise do autor é produzida por agentes com trajetória religiosa, bem como a posse em cargos públicos e institucionais relativos à surdez em muitos casos também fica sob responsabilidade desses agentes, que ora se valem da insígnia religiosa, ora não.

Para examinar como se dá esse trânsito entre posições sociais e contextos institucionais que permite aos agentes valer-se de discursos e categorias que são, de certa forma, também intercambiáveis, Assis Silva concentra sua análise nas religiões católica, protestante – especialmente a Luterana e a Batista – e nas congregações dos Testemunhas de Jeová, respectivamente no primeiro, segundo e terceiro capítulos da obra. No quarto capítulo ele resgata parte da discussão envolvida nos três primeiros e localiza como se dá o trânsito desses agentes religiosos na academia, no movimento social e no mercado, considerando as particularidades de doutrina e atuação frente à surdez no Brasil.

Não cabe aqui apresentar sumariamente todos os argumentos utilizados por Assis Silva, pois o especial atrativo de sua obra é a riqueza de detalhes que, inevitavelmente, se perderia na concisão característica de uma resenha. Vale, no entanto, a apreciação de alguns pontos centrais que distanciam a atuação dos agentes religiosos e, ao mesmo tempo, sustentam, em suas complementaridades, uma base discursiva e de ação política que atinge diferentes instâncias de poder e que engendram a particularidade étnico-linguística na surdez.

A Igreja Católica, embora tenha uma relação de longa duração com a surdez no Brasil, especialmente ao se considerar as instituições educacionais especiais para os surdos, apresenta bastante heterogeneidade nas formas de inserção de surdos nos rituais católicos, haja vista o caráter fixo e estável exigido da oralidade, marca do catolicismo e que não pode ser transposta completamente para a sintaxe espacial, e não linear, da libras, como tecnicamente demonstra o autor. Além disso, essa heterogeneidade relativa à inserção de surdos repercute na utilização de categorias classificatórias que nem sempre contribuem para a afirmação e performatização pública da reivindicação de particularidade. A partir dos relatos etnográficos apresentados pode-se perceber a utilização indistinta de terminologias que escapam ao registro da língua e da cultura conformando os surdos como diferentes dos ouvintes. Ainda sobre a Igreja Católica, cumpre ressaltar sua estreita relação com associações e, em decorrência disso, o papel integrador que festas e eventos desportivos desempenham na formação de redes de sociabilidade entre os surdos.

Quanto às igrejas protestantes, Assis Silva diferencia apenas duas vertentes de análise. Na primeira o autor dá enfoque à Igreja Evangélica Luterana do Brasil e sua função preconizadora na crítica à compreensão da surdez como deficiência, reivindicando o estatuto de diferença no registro da educação e da comunicação total. Enquanto os católicos voltados à educação para surdos eram majoritariamente de formação teológica, os agentes de trajetória luterana voltados à educação se diferenciaram pela inserção em universidades brasileiras e norte-americanas, valendo-se dos discursos acadêmicos para apoiar suas práticas educacionais e modificar a compreensão social da surdez. Ancorados na linguística, na pedagogia e na psicologia, os luteranos lançam as bases argumentativas de uma economia linguística que atesta a particularidade étnico-linguística dos surdos, mas o alcance dessas ideias fica bastante restrito haja vista a quantidade limitada de adeptos dessa igreja no Brasil.

Na outra vertente do protestantismo, o autor destaca as congregações batistas filiadas à Convenção Batista Brasileira que compreendem os surdos inseridos num projeto missionário, uma vez que a diferença em termos de audição os teria caracterizado historicamente como “povo não alcançado”, “povo que desconhece a palavra de Deus”. Nessa chave de compreensão, os intérpretes são figuras de destaque, uma vez que são eles os missionários responsáveis por evangelizar os surdos, além disso, há uma série de minúcias que compõem uma disciplina espacial e corporal que organiza e produz as diferenças entre surdos, intérpretes-missionários e ouvintes. Por vincular os surdos à prática de base missionária, as igrejas batistas planejam ações em espaços de reconhecida sociabilidade de surdos, a fim de alcançá-los. O destaque conferido aos intérpretes nas igrejas batistas estende-se amplamente para as igrejas pentecostais e neopentecostais devido ao grande fluxo de práticas e de fieis entre essas denominações religiosas. Estende-se ainda à igreja católica, que busca suprir suas falhas e heterogeneidades recorrendo a profissionais intérpretes de trajetória batista, justamente à procura de formação baseada nessa disciplina espacial e corporal.

Há algumas diferenciações em relação à postura assumida por Testemunhas de Jeová frente à comunidade surda. A primeira delas refere-se à progressiva não utilização de intérpretes em suas reuniões, pois eles buscam a formação de congregações com maioria de surdos que assumem a libras como meio fundamental de comunicação, sem marcar distinções entre ouvintes e surdos. Outra diferença consiste naquilo que a doutrina define como rastreamento, um processo de identificação casa a casa dos surdos pertencentes a cada região, através da atividade já característica de evangelização nas residências. Há ainda que se considerar a centralidade das publicações para a evangelização como forma de incentivo à intensa produção de material destinado aos surdos.

Por meio do destaque de algumas distinções na compreensão da surdez e na atuação frente aos surdos das religiões consideradas no livro, percebe-se certa complementariedade entre as diferentes instituições consideradas na análise de Assis Silva. Há evidente conexão entre atuação religiosa frente à surdez, poder e representação política em associações e federações relativas à surdez, inserção na rede de sociabilidade dos surdos e expressividade no mercado de intérpretes.

Quanto mais impactante for a performatividade associada aos surdos e à comunidade surda, maior o alcance das políticas e maior a participação dos intérpretes nos contextos públicos da sociedade, conformando propriamente um mercado. Como mediadora entre as diferentes instâncias religiosas, educacionais, políticas, profissionais, midiáticas e mercadológicas define-se a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – Feneis como instituição laica de maior representatividade dos surdos. À frente do movimento de reconhecimento jurídico da libras como língua, a Feneis, surgida em 1987, conquista um espaço de autoridade e interlocutora legítima que reúne os surdos brasileiros sob a rubrica de sujeitos de direito.

Nesse contexto, a Feneis ocupa posições e cargos políticos em diferentes setores do governo e da sociedade civil organizada, tornando-se a principal fonte de diálogo com a academia e meio de divulgação dessas produções acadêmicas, num diálogo em que os interlocutores se reforçam mutuamente e, em contrapartida, reforçam a compreensão da surdez como particularidade étnico-linguística.

É especialmente no contexto da Feneis que as insígnias religiosas são subsumidas em favor de uma atuação política e profissional. O que acontece, de certa forma, também na perspectiva do mercado, mas nessa instância há prerrogativas que dependem da distinção de trajetória dentro da instituição religiosa, pois em algumas interações o preço a se pagar pela atuação do intérprete está vinculado diretamente a essa trajetória, ficando, pois, mais flexível o uso ou não da insígnia.

Depreende-se dos sucintos pontos aqui ressaltados o quão profícua é a leitura da obra de Assis Silva, que problematiza e, problematizando, sintetiza algumas relações nem sempre observáveis entre agentes religiosos, políticos e profissionais no mercado que vem engendrando a surdez como particularidade étnico-linguística no cenário dos surdos do Brasil.

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Cultura Surda – Revista Campos, julho/2013

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Cultura Surda – Revista Sentidos

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“Os surdos brasileiros constituem um grupo com cultura particular? O reconhecimento científico e jurídico da língua brasileira de sinais (libras) é argumento suficiente para a construção da cultura surda? As igrejas cristãs teriam algum papel na história da constituição da libras no Brasil?”

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Cultura Surda – Governo de S. Paulo (site), outubro/2012

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“No dia 07 de novembro acontece o lançamento do livro “Cultura Surda – Agentes religiosos e a construção de uma identidade”, do autor César Augusto de Assis Silva, que é coordenador do Grupo de Estudos Surdos e da Deficiência do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU) da USP.”

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