Junto e misturado – Conversa Afiada, 6 de janeiro de 2017

Professora Biondi: O PCC sobrevive mesmo sem cabeças

Que agente do Estado botou aquelas armas lá dentro, em Manaus?

PHA: Eu vou entrevistar Karina Biondi, doutora em Antropologia pela Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo. Em 2010, ela publicou o livro “Junto e Misturado – Uma etnografia do PCC”.

Professora Karina, o PCC vai à forra do que aconteceu em Manaus?

Karina Biondi: Olha, difícil saber. A cada dia que eu vejo as notícias, parece que surgem novos dados para pensar sobre isso, sobre um eventual revide ou não. Hoje eu vi que já estava circulando uma mensagem no WhatsApp sobre algum revide. Eu acho que é bem possível que isso aconteça. Agora, é difícil saber mesmo o que se passa.

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PHA: É uma possibilidade fora de propósito?

Karina Biondi: Não, de jeito nenhum. O PCC surgiu num contexto onde ele era mais um entre os vários bandos que disputavam território nas prisões. Na força, ele não tinha diferencial nenhum. Quero dizer, existiam várias quadrilhas ou bandos ou gangues, dependendo de como você queira chamar, e as disputas eram sangrentas, mesmo. Com facas, armas, cabos de vassoura, o que fosse necessário para que eles conseguissem dominar alguma parte das cadeias.

O que os presos dizem que fez o PCC crescer foi, justamente, a sua proposta. E a proposta central deles é a seguinte: os presos precisam se unir para enfrentar o inimigo em comum. Que é o quê? O sistema.

Aí não tem a ver com o sistema capitalista nem nada, é o sistema prisional. O encarceramento, a polícia, o sistema prisional, tudo isso. Então, para se enfrentar esse sistema, é necessário ter uma união.

E o que aconteceu é ladrão matando ladrão. E isso vai contra uma proposta original do PCC. Então, é muito mal visto entre eles. Principalmente porque tem alguns elementos no que aconteceu em Manaus que podem indicar que houve alguma participação de forças estatais. Como, por exemplo, a entrada daquelas armas. Aquelas armas não entram por Sedex ou com as visitas! Quero dizer, eram armas enormes! Uma carabina… Alguém colocou lá!

Isso pode ser visto como um elemento de que esses caras da Família do Norte estão em uma certa aliança com o Estado, ou com o sistema.

PHA: Contra o PCC.

Karina Biondi: Contra o PCC, contra a expansão do PCC ali.

PHA: O seu livro defende a tese de que o PCC nasceu no dia 31 de agosto de 1993, num jogo de futebol em uma cadeia em Taubaté, como um desdobramento do massacre do Carandiru de 1992.

Se o massacre do Carandiru de 1992 é um dos responsáveis pela criação, pela instalação do PCC, um evento como esse de Manaus pode ter, sobre os membros do PCC encarcerados, o mesmo papel de uni-los, de agregá-los, aproximá-los?

Karina Biondi: Bom, tem uma diferença. Em São Paulo, o que aconteceu foi o sistema matando presos. Uma das mais antigas e fortes teses das ciências sociais é que, na ausência do Estado, as organizações criminosas como o PCC entram em cena e crescem. Meu argumento é um pouco o inverso: quando o Estado se excede, é no excesso de Estado que essas organizações criminosas aparecem. Justamente o excesso de Estado que aconteceu no Carandiru que fez surgir a semente da necessidade de uma união para que aquilo não voltasse a acontecer.

E isso é muito recorrente, tem até documentos, ou “salves”, como eles chamam, escritos a respeito disso. Sempre que há uma “pesada de mão” do Estado, acontece uma reação de um fortalecimento.

Não me parece ser só uma outra gangue – senão, seria só uma luta mão-à-mão, com facas… Não com aquelas armas que eles tinham.

PHA: Portanto, haveria aí, de novo, de uma outra forma, uma intervenção estatal, aliada a uma das facções, e isso resultou na degola e morte de alguns membros do PCC.

Karina Biondi: Eu não posso afirmar que houve essa intervenção. Mas eu acho que a principal linha de investigação para entender o que aconteceu lá deveria partir de como entraram aquelas armas. Porque, com certeza, quem colocou aquelas armas colocou com algum fim. Algum propósito tinha.

PHA: A senhora faz um levantamento bastante completo, na minha leiga maneira de avaliar, da linguagem, do vocabulário da cadeia. E eu lhe pergunto: na linguagem, na simbologia da cadeia, o que significa decapitar, degolar?

Karina Biondi: Durante o tempo de expansão do PCC, isso virou uma marca registrada dele. Claro, ele não cresceu só com a força das ideias dele. Digo, esse era um diferencial, mas aliado à força que já tinham… Aconteceram muitas mortes, degolas. E quando acontecia alguma degola, isso meio que se tornou uma marca registrada, em São Paulo, durante seu período de expansão.

Algum significado, eles nunca me deram, além dessa marca. Só que, agora, foi utilizada por outro grupo.

PHA: Ou seja, aqueles que quiseram destruir o PCC em Manaus usaram a arma original do PCC?

Karina Biondi: De certa forma, sim.

PHA: O seu livro foi escrito, professora, em 2010. Estamos em 2017. O PCC está no Amazonas. Do que a senhora viu na sua pesquisa que resultou no livro “Junto e Misturado”, como explicar essa nacionalização do PCC?

Karina Biondi: O livro, na verdade, foi escrito entre 2008 e 2009 e foi publicado em 2010. Esse foi o resultado do meu mestrado e no doutorado eu fui estudar o PCC nas ruas em São Paulo.

Eu não tive acesso à atuação deles fora de São Paulo. Mas sempre apareciam referências de alianças com grupos locais, de outras regiões. Parece que a grande questão para eles era, justamente, agregar as pessoas fora de São Paulo a esse objetivo em comum.

Claro que têm propósitos financeiros, mas eles não dependem do PCC para existir. Com PCC ou não, o traficante vai querer traficar.

PHA: O seu livro descreve, de uma forma muito clara e muito interessante, o fato de que o poder político dentro do PCC independe das pessoas. O que determina o poder é o cargo, a função, independente de esse cargo ou função estar sendo ocupado pelo personagem X, Y ou Z. Isso se reforça, inclusive, por um depoimento que a senhora reproduz, no livro, do Marcola, numa CPI na Câmara dos Deputados.

O fato de as lideranças do PCC em Manaus terem sido decapitadas, segundo essa estrutura de organização, eu posso deduzir que o comando do PCC, ainda que debilitado, não está destruído em Manaus?

Karina Biondi: A morte dessas pessoas, que não sei até que ponto exerciam algum papel de liderança, funciona mais ou menos como o remédio que o Estado paulista tomou para acabar com o PCC: “vamos transferir os líderes”. Como se isso acabasse com o PCC…

Eu presenciei cadeias e, depois, na outra pesquisa que vi nas ruas, bairros inteiros de São Paulo que não tinham nenhum membro do PCC, mas agiam conforme o que eles chamam a “ética” do comando.

Isso é reposto. Se não tiver nenhum membro “batizado” mesmo, alguma outra pessoa que seja considerada mais esclarecida, mais articulada, assume esse posto, que é pra manter essa ética.

O que eu tentei desenvolver depois, nessa pesquisa que fiz nas ruas, é que mais do que uma estrutura montada, que seja restrita a pessoas, o que é central no PCC é a circulação de ideias. E eles têm uma definição muito interessante de ideias, que é muito diferente da nossa: as ideias, pra eles, não estão na cabeça. Elas estão no mundo, para serem mexidas, articuladas, mudadas. E essas ideias sobrevivem. Não é matando alguém ou transferindo uma pessoa de uma cadeia para outra que a ideia morre.

PHA: E essa sua pesquisa sobre as ruas de São Paulo resultará em um livro, também?

Karina Biondi: Eu tô tentando, mas na crise tá difícil publicar alguma coisa… Mas tive uma aprovação recente para publicar e faltam agora só os recursos necessários. É pela Editora UNESP, vamos ver se a gente consegue.

PHA: A senhora subscreve a interpretação de que a omissão dos governos de São Paulo é, em parte, responsável pela propagação da ideologia e da prática do PCC?

Karina Biondi: Não sei se é bem a omissão. O PCC nasce do Estado, não necessariamente da falta dele, da omissão dele. É justamente num regime mais endurecido, como o que era de Avaré, ou na existência dos RDDs (Regime Disciplinar Diferenciado), que são a grande propaganda do Estado paulista, não? “Nossas cadeias são primorosas, nós temos segurança, temos um regime de RDD”. É aí que os presos veem a necessidade de se unir para enfrentar o que eles veem como o abuso do Estado.

Em tempo: a entrevista foi gravada antes da forra do PCC em Roraima.

Veja aqui a entrevista publicada originalmente no site Conversa Afiada

E confira aqui mais informações sobre o livro

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