O Capa-Branca – Coisas de Jornalista, 4 de agosto de 2015

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O CAPA-BRANCA E OS LIMITES DA LOUCURA

Loucura (sf): 1. Distúrbio, alteração mental caracterizada pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir; 2. Sentimento ou sensação que foge ao controle da razão.

De acordo com o todo poderoso Google, essa é a definição da palavra loucura. Grandes nomes da psicologia já procuraram entender como uma pessoa considerada sã pode, de uma hora para outra, se transformar completamente, assumindo características e comportamentos “estranhos”, que não condizem com quem ela é. Como uma pessoa se torna louca? Será que ela sempre foi, mas só agora demonstrou?

De fato, muitos estudiosos já se comprometeram a estudar esse campo, e outros tantos livros e artigos já foram publicados sobre a loucura. Mas o livro O Capa-branca: de funcionário a paciente de um dos maiores hospitais psiquiátricos do Brasil vai além de todas essas definições e tentativas da ciência de rotular o comportamento humano. A obra é um relato íntimo de quem ficou tão próximo da loucura, que acabou sendo arrastado para esse mundo.

As memórias são de Walter Farias, ex-funcionário do Complexo Psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha (SP). Ele foi aprovado em um dos primeiros concursos públicos para trabalhar no local como atendente de enfermagem – seu uniforme, uma capa branca, não só dá título ao livro: era assim que os funcionários do Hospital eram chamados pelos pacientes.

O livro é escrito todo em primeiro pessoa, graças ao trabalho de Walter e do jornalista Daniel Navarro Sonim, que soube da história em 2007, assistindo Casos de Família. Naquela tarde de quinta-feira, o tema era, no mínimo, curioso: “Sou esquisito, e daí?”. A mulher de Walter disse que ele viva trancado no quarto, escrevendo horas sem parar.

O ex-funcionário público justificou sua atitude dizendo que acabou tendo que ser internado no Hospital depois de passar anos trabalhando no local – escrever músicas, criar inventos e colocar no papel suas memórias ajudavam o tempo a passar. Para transformar toda aquela bagagem em livro, Walter precisava de ajuda. Daniel entrou em contato com a produção do programa e conseguiu falar com Walter: começou, então, a parceria que acabou levando para as prateleiras o livro Capa Branca.

O livro é dividido em três partes, bem como a passagem de Walter pelo Hospital. Os leitores são apresentados ao mundo dentro daqueles muros, onde as regras habituais não valiam nada. Nos corredores e pátios, homens carecas e com roupas sujas perambulavam sem rumo, cada um perdido na sua própria realidade.

Alguns eram bem marcantes, como o “patriota”, que cantava sem parar o hino nacional, e o homem que dizia ser padre, andando de um lado para o outro com a Bíblia e catequizando as pessoas – tudo mudava quando ia pregar na ala feminina, onde seus supostos votos de castidade eram esquecidos. O comportamento dos pacientes refletia no dos médicos: quando mais rebelde um interno era, mais socos, chutes e pontapés ele recebia na hora de tomar os remédios. A medicação não tinha como objetivo melhorar as condições de ninguém, só de deixar os pacientes dopados para não causarem confusão.

Depois de cinco anos, já acostumado com os seus “louquinhos”, Walter recebe a notícia que será transferido para o Manicômio Judiciário, local para onde eram levados os criminosos que não podiam responder pelos seus atos. Mais uma vez, as regras mudaram – só que, agora, não eram só os funcionários que as ditavam. Os presos tinham grande poder lá dentro e Walter logo percebeu a diferença entre o Hospital para o Manicômio.

No primeiro, os internos não tinham noção do mundo ao redor; já a maioria dos presos internos sabia bem o que estava acontecendo, e usavam as informações coletadas em benefício próprio. Os médicos também usavam a força para conter os pacientes, mas dessa vez não era uma luta covarde: os presos revidavam e não jogavam limpo. Ali estavam internados todo o tipo de gente, inclusive o tipo que não se importa com as consequências para seus atos.

Um dia depois de voltar do trabalho, Walter resolveu descansar vendo televisão, e a sua vida não foi mais a mesma depois. O programa mostrava uma rebelião de presos, que torturavam e matavam os funcionários. Walter ficou com aquilo na cabeça, mal conseguindo dormir e trabalhar direito, com medo que a vida pudesse imitar a arte.

O atendente de enfermagem passou a recusar os trabalhos que lhe eram designados, alegando ter passado no concurso para trabalhar no Hospital e não no Manicômio. Passou por diversas áreas, até que chegou a um ponto onde ninguém queria ter ele como funcionário por causa da sua má-fama. Um conselho deliberou que, para ele não perder o emprego, deveria ser internado.

O jogo virou. Se Walter antes distribuía pancadas, agora ele as recebia. Nenhum funcionário acreditava que ele já havia trabalhado ali, todos os seus dentes haviam sido arrancados e a humilhação era diária. Ele estava vivendo uma outra realidade, tão diferente da sua, e mesmo assim, tão próxima.

Para lidar com isso, Walter bebia o dia inteiro, não importava o que. Com o retorno do seu psiquiatra, o agora interno largou a bebida e passou a ter compotamente exemplar, mas nada da sua liberação sair. Walter resolveu sair por conta própria. Se alguém sentiu sua falta na hora da contagem, nada fez além de marcar “evadido” nos papéis.

Aposentado por invalidez, Walter agora escreve música: já compôs mais de 400, dos mais diferentes gêneros. Mesmo longe daqueles muros que hoje estão abandonados, leva consigo todos os dias as lembranças e gemidos daqueles que um dia foram seus pacientes e colegas de internação. Ao compartilhar tudo o que viveu, Walter revela que todos nós andamos de mãos dadas com a loucura – querendo ou não.

Leia aqui a resenha na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

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