O Capa-Branca – Obvious, 1º de agosto de 2015

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A história da mentalidade: Juquery – Hospital Psiquiátrico

O sistema capitalista vigente, potencializou os espaços urbanos e as desigualdades sociais. A cidade industrializada, transforma o espaço físico, as multidões aglomeradas, trazem doenças, perigos eminentes, caos, desordem. A medicina sanitária, trabalha nos polos urbanos, contendo as epidemias, contaminações, causadas pelo meio geográfico, moradia. No Brasil, temos ‘A Revolta da Vacina’, movimento fruto da medicina higienista e sanitário-urbanística.
Os meios de controle social emergem na cidade a partir de então, a ‘ameaça’ está a solta, por conta demanda e oferta de trabalho ser desigual, formas alternativas de trabalho começam a surgir nos centros urbanos, a criminalidade. Evidentemente, o alienismo associa loucura e crime, tais práticas como vagabundagem, o jogo, vícios e a prostituição são condenadas e consideradas anti-sociais.
A prole pobre e urbanizada precisa ser disciplinada, a instituição asilar, visa regenerar, curar, disciplinar e moralizar os degenerados.

Mas afinal qual é o lugar do louco em nossa sociedade? Quem é considerado louco? Existe uma construção social em torno do manicômio, pois o louco não poderia ficar perambulando pelos espaços da cidade. É ameaçador. O imaginário da loucura no Juquery pelos internos é um lugar de prisão, infernal, habitação do diabo, lugar de malucos. O que chama atenção numa instituição que teoricamente deveria ‘cuidar’ e ‘zelar’ pelos pacientes. A denúncia está posta, a trajetória da luta antimanicomial a fim de transformar o imaginário social sobre a loucura. Ao ser internado no hospício, o interno só era diagnosticado posteriormente, nesse sentido, os considerados ‘loucos’ eram um público variado: imigrantes, homossexuais, presos políticos, alcoólatras, prostitutas, negros, drogados e vagabundos.

A loucura é produto de associações de devaneios, o que se distancia da realidade, mero produto da imaginação, ausência da razão. Diversas modificações acerca do conceito da loucura, foram feitas, desde então. Ao final do século XIX, a loucura estava vinculada com o incumprimento das normas sócias, ou seja, o indivíduo que não se adequasse aos moldes, era considerado insano e perigoso. Relacionada a um desequilíbrio mental, numa percepção distorcida da realidade, a demência. Em uma sociedade burguesa vitoriana, no final do século XVIII, o lugar do louco era longe das pessoas ‘sadias’. Nesse sentido, aprisionar, anular e criar espaços para sua reclusão, os hospícios, o lugar social do louco a partir de então.

O Hospital Psiquiátrico do Juquery, foi inaugurado e, 1898, sob a administração do médico psiquiatra Francisco Franco da Rocha, instituição ligada ao governo do Estado de São Paulo. Na época, o mais novo e famoso hospital psiquiátrico do Brasil. Enfrentou sucessivas crises e na década de 1930, as denúncias relativas aos direitos humanos: condições de higiene dos internos, violência, práticas abusivas, alimentação, condições de moradia, falta de funcionários e precariedade das instalações. O Hospício dos Alienados, a psiquiatria recorrente ortodoxa, com práticas severamente criticadas no Ocidente. A violência asilar, o uso da psiquiatria para reprimir e torturar em prol do governo totalitário, durante a ditadura militar no Brasil.

A ‘banhoterapia’, consistia em manter o paciente amarrado a uma cadeira embaixo da ducha gelada, funcionando melhor no frio e as vezes era utilizado pedras de gelo. O ‘boticão’ era o método em que o dentista arrancada de uma vez, os dentes dos internos, para evitar mordidas. O ECT – eletroconvulsoterapia, o tratamento de choque, feito no porões do Juquery ,quando o paciente recebia a carga de eletricidade, estrebuchavam e se contorciam perdendo a capacidade de controlar suas funções fisiológicas, babavam e após o término dormiam e acordavam enfraquecidos.

“ Aquele lugar parecia uma maçã podre. Por fora, a casca era bonita e reluzente, com prédios e construções que eu nunca tinha imaginado que veria na minha vida. Do lado de dentro, a polpa estava pobre e carcomida por vermes famintos. Um amontoado de homens pelados ou maltrapilhos com a cabeça raspada passava o dia perambulando pelas galerias e corredores e povoava cada um dos pátios.” ( O Capa Branca – Farias, Walter e Sonim Daniel Navarro– pag 35)

O lugar de fala dos ‘loucos’, apesar das inúmeras tentativas de apagar, aniquilar sua presença, os relatos e registros incorporam e denunciam as práticas cruéis e desumanas, a resistência. Os oprimidos tem nome, um rosto, uma história. Pois bem, o modelo de sociedade disciplinada tem relação com o alienismo, produto de uma instituição higienista, o hospício. Lugar que foi criado e pensado para ‘curar’ a loucura. Em meados do século XIX, a sociedade burguesa, ambientou lugares de isolamento e exclusão social para indivíduos pobre e doentes. O alienismo está a desserviço da instituição, para ‘curar’ os indivíduos degenerados e desempenhar um papel social, de disciplina e controle mental.

O sistema capitalista vigente, potencializou os espaços urbanos e as desigualdades sociais. A cidade industrializada, transforma o espaço físico, as multidões aglomeradas, trazem doenças, perigos eminentes, caos, desordem. A medicina sanitária, trabalha nos polos urbanos, contendo as epidemias, contaminações, causadas pelo meio geográfico, moradia. No Brasil, temos ‘A Revolta da Vacina’, movimento fruto da medicina higienista e sanitário urbanística. Os meios de controle social emergem na cidade a partir de então, a ‘ameaça’ está a solta, por conta demanda e oferta de trabalho ser desigual, formas alternativas de trabalho começam a surgir nos centros urbanos, a criminalidade. Evidentemente, o alienismo associa loucura e crime, tais práticas como vagabundagem, o jogo, vícios e a prostituição são condenadas e consideradas anti-socias. A prole pobre e urbanizada precisa ser disciplinada, a instituição asilar, visa regenerar, curar, disciplinar e moralizar os degenerados.

A questão dos crescimento urbano enfatiza as práticas alienistas, na Europa e consequentemente no Brasil. Em São Paulo os hospícios surgem, numa arquitetura moderna contrastando com edifício e fábricas em meio a cidade, o ‘progresso’. O hospício a partir de então, surgem respectivamente nas cidades brasileiras: Rio de Janeiro e São Paulo (1852), Recife (1861), Salvador (1874) e Porto Alegre (1884). Os ‘deslocados sociais’ dentro da cidade urbana e industrializada são marginalizados, os negros, foram postos de lado nos setores industriais, residentes de uma trabalho compulsório manual, do antigo sistema, vivem na pobreza extrema, em subempregos. Os velhos, menores, mulheres, doentes mentais e deficientes serão considerados improdutivos e inferiores para sociedade.

O Hospital Psiquiátrico Juquery em 1901- comportava 590 internos,1904 esse número cresce para 823 internos e 48 pencionistas, de 1907 – 1928 feitas devidas ampliações o número de internos é absurdamente grande – 1.900, fora os pensionistas. A área distribuída em quatro pavilhões masculinos, cinco femininos e a um para as crianças. Apesar as superlotação, milhares de pessoas aguardavam para serem internados vindas de todo o Estado. O trabalho é visto como meio de moralização e como instrumento terapêutico, segundos princípios do alienismo, de Pinel à Freud. Longe de constituir um meio de cura, o trabalho era recomendado para os doentes sem possibilidade de reintegração social, os internos do Juquery, apenas do sexo masculino praticavam atividades manuais agrícolas e pecuárias, como procedimento terapêutico, a laborterapia. Todos os alojamentos demonstram a característica falta da individualidade e privacidade, lugar de recolhimento, isolamento social, como remédio para a loucura. A resistência dos internos dá-se por tentativas de recuperar a identidade perdida.

Quando chegam ao hospício central, os internos seguem uma ‘carreira asilar’, após o diagnóstico, são submetidos as ‘terapias modernas’: banho gelados ou quentes alternadamente, banheiras em ‘duchas circulares’, causador frequente de afogamentos, terapia de choque, drogas e outros formas. E lá permaneciam até o resultado sair, sendo negativo ou positivo. Os internos ditos ‘incuráveis’ eram encaminhados para as ‘colônias’, grandes pavilhões com espaços externos, cercados por muralhas e guardas.

Evidentemente o hospício assume seu papel disciplinador, um sistema que convence o interno da sua prisão, e vende a imagem de uma ‘falsa liberdade’, onde o interno poderia sair quando quisesse, porém ‘os loucos’, não poderiam achar que estavam presos, era conveniente que o asilo demostrasse a aparência de liberdade perante a sociedade. Contudo, inegavelmente o hospício se assemelha à prisão: grades, muros, guardas no corredores, severidade. Foram poucos os internos que usufruíram das colônias agrícolas, dispunham essa aparência de ‘liberdade’, habitações coletivas sem grades, muros ou segurança, jornadas de trabalho, posse de animais, a laborterapia, destinada apenas aos homens.

Um cenário nada animador, o lugar cheirava a excrementos, urina e vômito, os internos deitavam nos colchões finos e esburacados apodrecendo, as marcas de escaras infeccionavam e as moscas pousavam sobre os ferimentos expostos. Os capas brancas limpavam e higienizavam o local, cuidavam dos internos, dando banho, medicamentos e comida. O padrão de tratamento do alienismo supera o senso comum, o próprio tabu da internação, das práticas terapêuticas. O sistema disciplinador atuando em internos: fujões, suicidas, libidinosos, recusadores de alimentos e criminosos, o uso da camisa de força. A diferença sexista é inerente, os homens são considerados perigosos, devem usar a força no trabalho, na produtividade para ‘curar’ a loucura. Os considerados furiosos, eram amarrados à cama, isolados, confinados nas celas, se debatiam e acabam sedados ou recebiam ECT.

“(…) As mulheres permaneciam toda a noite com os pés e mãos amarrados – os pés unidos e as mãos atadas ao leito -, havendo registros de óbito por asfixia. (…)” ( O Espelho do Mundo – Cunha, Maria Pereira Clementina)

Enquanto as mulheres, a terapia destina outros trabalhos, domésticos, manuais, condizentes com ‘a normalidade feminina’. As mulheres sobretudo, as solteiras, que viajam sozinha, independentes, que optaram por não serem mães, com vida sexual ativa, indícios de ‘problema’, são reprimidas, vigiadas constantemente, em relação a sexualidade, à má conduta, a masturbação, era considerada ‘indecente’ e vergonhosa. Dessa forma, eram internadas no Juquery, por distúrbios relativos a questão da sexualidade, lasciva, pré-determinados por papéis sociais: boa filha, mãe e mulher, a loucura histérica. A postura corporal dos internos: olhares apáticos cabisbaixos, ombros caídos, passividade e melancolia. Jovens ou velhos, esqueléticos ou gordos, alguns tinha dificuldade de andar, se arrastavam no chão. No pátio os ruídos e grunhidos dos internos, entre conversas paralelas, berros, canções, gritos e palavrões.

Apesar de serem cercados por todos os lados, constrangidos constantemente, houveram entre os internos o movimento de resistência: “(…) Cago nas suas artes de curar(…) eu fico com a minha loucura.’ Muitos internos organizavam a jogatina, apesar de proibido, o ‘dinheiro, que só tinha valor dentro do hospício, circulava na forma de escambo, onde eram trocadas mercadorias: cigarros, comida, roupas, bebida e mesmo o empréstimo de dinheiro com juros.

Comumente eram encontrados relatos nas anotações dos internos, que desejavam sair do asilo, voltar para casa, para a sociedade. Uma forma de manter o contato com o mundo exterior, sem tv, rádio, era por intermédio das cartas, que sofriam censura e pouquíssimas eram entregues ao destinatário. Há, dessa forma, elementos do discurso alienista, que padronizam os instrumentos usados em pacientes de classe social popular, o proletariado é produto de procedimentos discriminatórios e excludentes. Nesse sentido, como fenômeno social, a loucura coletiva, se torna uma ameaça a ser combatida pela ciência.

Confira aqui o artigo na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

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