Nas tramas do crack – Portal Setor3 / Senac, 8 de abril de 2015

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Publicação reflete cadeia de produção e diferentes atores envolvidos no consumo de crack

“Creio que as ações estatais, ou não estatais, voltadas à assistência social são extremamente importantes para a afirmação de direitos desses usuários. Assistência social é direito. Saúde é direito. Moradia é direito. Trabalho é direito. E os usuários de crack têm direito a ter direitos”, defende Taniele Rui, antropóloga e autora do livro Nas tramas do crack – etnografia da abjeção, pela Editora Terceiro Nome.

A autora desenvolveu uma pesquisa nos últimos anos, especialmente entre 2008 e 2011, para entender o atendimento nos programas de redução de danos em três cenários: a linha de trem do Parapanema e o prédio da Vila Industrial, de Campinas (SP), e a cracolândia paulistana, no entorno do bairro da Luz.

Para inspirar sua produção, a autora seguiu o conceito de Michel Foucault sobre livro: “Ele diz que um livro é um pequeno objeto manejável, que só se faz em relação as coisas sobre ele ditas e aos eventos dos quais ele é sempre prisioneiro”.

A pesquisadora explica que o livro retrata dois aspectos: o fechamento de um ciclo de oito anos de estudo e reflexão que captou o início da fala pública sobre crack no Brasil e o que ele é a partir do que falam dele. Áté agora, a antropóloga está recebendo uma repercussão positiva com essa produção.

A jovem pesquisadora entrou em contato com as histórias dos usuários da droga, especialmente no bairro de São Mateus, na zona leste de São Paulo, em meados dos anos 1990. Com o aumento dos casos de violência, houve uma migração dos usuários da periferia para o centro de São Paulo, se transformando em um espaço de refúgio.

Para isso, a jovem passou por mais de três anos observando as relações nos locais de consumo e as interações entre os traficantes, a polícia, os comerciantes, os transeuntes, os profissionais da saúde e os agentes das políticas de redução de danos nesses espaços já citados.

De forma detalhada de cada passo de sua pesquisa, a obra também traz as dinâmicas dos consumidores de todas as classes sociais e faixas etárias, os meios de obtenção da substância e suas técnicas de utilização. Em relação aos dependentes do crack, classificados como noias, a antropóloga mostra ainda a falha social de todas as políticas sociais e a legislação sobre drogas relacionadas com esse público.

Para Taniele, sua publicação visa observar o consumo de crack de uma maneira que não evoca sua negatividade, mas sua produção. “O que de novo surgiu com o aumento da fala pública sobre a droga no Brasil. Nesse sentido, tento captar tanto as políticas públicas daí advindas (e principalmente, o confronto entre elas), quanto as territorialidades urbanas produzidas, pejorativamente chamadas de cracolândias, mas que revelam uma complexa injunção entre consumo de drogas e cidade”, afirma.  Dessa forma, ela pretende contribuir com as discussões de antropologia urbana, com os operadores e os atores de políticas, com o público interessado pelo tema e aos próprios usuários de drogas.

Sua publicação foi reconhecida com o prêmio Capes de Melhor Tese de 2013. Taniele é doutora pela Universidade Estadual de Campinas. Entre 2013 e 2014, realizou pós-doutorado financiado pelo Social Science Research Council (Estados Unidos), pelo programa de bolsas Drugs, Security and Democracy. Hoje faz pós-doutorado junto ao Núcleo de Etnografias Urbanas do Cebrap e estudo o consumo de crack no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Para observar o movimento do comércio do crack e as pessoas que usam essa droga em situação de consumo extremo, a pesquisadora acompanhou o programa de redução de danos na cidade de Campinas e na capital de São Paulo. Lá acompanhou histórias de vidas, diferentes trajetórias de uso de drogas e ficou interessada pelos cachimbos que são utilizados nesse consumo. “Mais do que simples utensílios, os cachimbos são mediadores de relações e assuntos recorrente entre eles”, narra a autora no prefácio A Trama Social do Crack.

Com diferentes nomes, como “Boris”, “Perninha”, o cachimbo também foi um objeto bem estudado por Taniele, que ganhava significados diferentes a partir de transações, atribuições e motivações humanas.  “Os cachimbos elucidam o contexto social onde circulam e ganham proeminência em relação às outras coisas que fazem parte da experiência cotidiana dos usuários de crack”.

Além das histórias de vida dos usuários, a pesquisadora também conseguiu levantar matérias e notícias sobre o assunto na imprensa. Na introdução, ela traz ainda algumas histórias de notícias sobre a realidade de alguns que consomem.

Quando questionado sobre o que constatou e não imaginava, Taniele compartilhou que foi perceber o quanto a existência dessas pessoas é naturalizada como desprezível. “O modo como os jornais tratavam do assunto ao longo dos anos 2008 e 2009 era algo extremamente aviltante. Eu me perguntava a todo tempo: ‘como é que se pode falar assim de seres humanos?. Felizmente hoje percebo que há mudanças discursivas importantes”.

A publicação é dividida em três partes, com seis subdivisões em seis capítulos, além da introdução e das considerações finais. A primeira parte é formada por dois capítulos, Os Contornos da Etnografia e Questão de Saúde Pública, em que contextualiza a entrada da autora nesse tema e nas políticas de redução de danos.

O primeiro capítulo abrange a trajetória de pesquisa de Taniele até chegar aos programas de redução de danos das cidades de Campinas e São Paulo, além de mostrar as possibilidades e os impasses da entrada institucional e as consequentes implicações no modo como foi percebida pelos usuários de crack. A antropóloga também traz um histórico das ações de redução dos danos (sua ligação com a política de enfrentamento à Aids no começo dos anos 1990) e suas transformações. Também mostrou que com aumento do consumo e do discurso público sobre o crack influenciou nas recentes políticas de saúde pública específicas sobre drogas no país.

Já na segunda parte também é formada por dois capítulos: A famosa boca de Paranapanema e “Cimento não cura crack’: enfrentando urbanos. Aqui narra espaços de uso visitados e algumas das fronteiras físicas e simbólicas que eles denotam. Para isso, ela traz três cenários específicos: a linha de Paranapanema, o prédio da Vila Industrial e o espaço público da “cracolândia”. Apesar de fluxos semelhantes, esses espaços possuem interações e dinâmicas próprias. A linha de Paranapanema permite observar a relação entre usuários de crack e traficantes. Já o prédio da Vila Industrial mostra a relação entre esses usuários, os moradores do bairro, o projeto-modelo da gestão municipal e uma operação policial que desocupou. Esses espaços também trazem tensões nas relações entre os usuários, traficantes, jornalistas, pesquisadores, policiais, instituições religiosas e assistenciais e serviços médicos. Também nota-se interesses políticos e imobiliários.

A terceira parte é constituída pelos seguintes capítulos: Alteridades corporais e Não é (só) um cachimbo. Com observações etnográficas, os usuários refletem sobre o próprio corpo e indicam vários empregos do termo noia. Há diferentes combinações das inscrições corporais, que afastam ou aproximam os sujeitos da (auto)rotulação de noia. Mostra ainda a dificuldade de sustentar a corporalidade fora dos espaços de uso, bem como as ambiguidades e as confusões dessa aparição. A pesquisadora acompanhou o uso do cachimbo, que é objeto mediador do consumo de crack. Para ela, as pessoas se tornam parecidas com o objeto, com o passar do tempo de consumo, demarcando distintos usos e passam a ser objetos de políticas de saúde pública e da repressão policial.

O leitor vai perceber no detalhamento das ações e das práticas pesquisadas um alto envolvimento da antropóloga. Antes desse trabalho, a autora comentou que já tinha feito uma pesquisa anteriormente com crianças e adolescentes em situação de rua e no interior de comunidades terapêuticas. Ela acredita que essa experiência foi fundamental para ganhar uma certa habilidade pessoal de transitar por esses espaços e uma experiência profissional de acúmulo bibliográfico aliado à percepção das práticas das transformações pelas quais a questão da rua e do consumo de drogas no país passou.

A pesquisadora observou que há muitos profissionais de ponta trabalhando no dia a dia para o bem-estar dos usuários de crack e os tratam com muito respeito e dignidade. Ela pontuou ainda que esses profissionais são às vezes desconsiderados pelos gestores públicos, mas, em sua opinião, são os que de fato conseguem algum vínculo com essa população. “Seria bom, na verdade, que a polícia militar, a polícia civil, a guarda civil metropolitana e IOPE estivessem mais ausentes do cotidiano dessa população. Certamente atrapalhariam menos o trabalho desses profissionais da ponta”.

Confira aqui a matéria no Portal Setor3

E veja aqui mais informações sobre o livro

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