A Guerra Guaranítica – Pampurbana, 8 de fevereiro de 2015

guaranitica

Missioneiro Rio Grande do Sul – índios relegados, costumes incorporados

*texto publicado no jornal Zero Hora (caderno PrOA) em 08/02/2015.
Para constituir uma identidade buscamos características específicas que nos diferenciem dos demais. No Rio Grande do Sul, servimo-nos em prato cheio (temos assado de carne espetada e chimarrão). Podemos orgulhar-nos e sermos bairristas ao constatar que nossa história guarda uma experiência única na colonização da América. Aqui, na parte meridional, durante um período de um século e meio, houve uma sociedade baseada na propriedade coletiva da terra e no respeito às tradições dos povos nativos. Refiro-me exclusivamente das Missões Jesuíticas.

No final do ano passado um lançamento literário veio reacender a chama do imaginário missioneiro, e nos ajudar a lembrar que, mesmo com a dizimação dos índios rebeldes pelos exércitos luso-castelhanos, ficou um legado determinante para nossos costumes em comum. Tau Golin lançou o livro “A Guerra Guaranítica – O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha” (Ed. Terceiro Nome).

O tema não é novidade para o autor, que se debruça há décadas sobre ele, tendo publicado em 1998 obra extensa e rica em documentação. Diferente, o novo volume resume a tese do historiador sobre a destruição dos Sete Povos. Constitui-se, assim, como fonte de fácil acesso para o público interessado em compreender um período fundamental na formação do estado do Rio Grande do Sul.

Também é um livro de guerra, centrado nas três partidas dos exércitos ibéricos e nas batalhas decorrentes dessas investidas. Para os fãs do gênero, revela táticas missioneiras, como queimar os campos na vanguarda do inimigo ou presenteá-lo para retardar seu avanço.

O autor não tem medo de arriscar. Com intuição e erudição, por vezes, reconstitui estórias de forma humanizada. Noutras, em tom anedótico. Escrevendo sobre as conferências de demarcadores de fronteira, chama atenção para a pompa com que tenentes-de-dragões, comissários e marqueses dos reinos europeus chegavam à região inóspita mais ao sul. De acordo com Golin, montaram dois acampamentos, reproduzindo cenários palacianos e autos barrocos. É divertido e vale a pena citar aqui o episódio de encontro ao acaso, antes das cerimônias previstas, em que os líderes avistaram-se nas margens de um riacho. Quando um entrou à cavalo n’água, o outro atirou-se igualmente em busca de cumprimento. “Consequentemente, a primeira conversa entre eles se deu na margem sul do arroio, sem poltrona aveludada, onde permaneceram em pé durante três horas, com Gomes Freire secando os fundilhos na aragem sulina”, escreveu na página 65.

Estimula o imaginário lembrar que antes da guerra fatídica, os índios reduzidos enfrentaram diversas batalhas nas defesas da fronteira espanhola e do seu modo de vida. Fundaram sete cidades na banda oriental do Rio Uruguai. Entre perdas e ganhos, um século antes, derrotaram bandeirantes na Batalha de M’Bororé em 1641, feito épico.

Reside aí um dos valores deste livro: reavivar em nossas mentes contemporâneas o que representou a empreitada jesuítica-indígena. Basta ler que na metade do século XVIII estavam organizados em 30 povos, na região onde hoje se situam o noroeste gaúcho, o nordeste argentino, o sul paraguaio e ainda o norte uruguaio. Eram praticamente autossuficientes. Exportavam produtos beneficiados e participavam de 60% do mercado do Rio da Prata. O sucesso inclusive causava receio na Península Ibérica de que houvesse uma insurreição de um novo estado teocrático por estas plagas. Tau Golin ressalta que este medo vinha mesmo com o desconhecimento do protagonismo indígena nas Missões.

Essa civilização parece ter ido muito bem, até que os dois reinos europeus assinaram o Tratado de Madri, em 1750. No acordo, a Colônia de Sacramento, fundada pelos portugueses onde hoje é o Uruguai, deveria ser devolvida à Espanha. Em contrapartida, os espanhóis entregariam os Sete Povos das Missões. Sobre a troca, o autor observa que “Madri e Lisboa, no entanto, não levaram em consideração o que pensavam os habitantes daquela parte da América do Sul”. Nesta passagem podemos ter uma prévia de como Golin guia o texto. Longe das versões dos vencedores, nesta, o nativo tem voz e intenção.

Didático, o volume contém explicações sobre a constituição dos povoados em áreas urbanas e rurais, com complexa organização administrativa que incluía padres e caciques. Traz pequenas biografias dos principais personagens do conflito. Entre militares europeus e jesuítas, estão os comandantes indígenas, incluindo Sepé Tiaraju, alferes de São Miguel que inicialmente não era rebelde. Seu posicionamento teria mudado após um sonho com o padroeiro São Miguel, ordenando que os índios permanecessem em suas terras.

No campo do pertencimento, essência da identidade, há discursos formidáveis dos missioneiros frente à ameaça de despejo. Na carta do povo de São Luis, por exemplo, afirmam não querer a guerra, mas reiteram que: “esta é a terra em que nascemos, nos criamos e fizemos batizar, e é assim que aqui gostaríamos de morrer”.

Este tipo de discurso localista vem sendo apropriado desde o século XX e colecionado como se fosse parte de uma cultura baseada no tipo gauchesco. No entanto, intriga saber que o exército espanhol era formado por poucas tropas regulares e uma maioria de paisanos. Esses paisanos, nas palavras de Golin, era uma “gauchada sanguinária, habituada a roubar os rebanhos missioneiros, cuja barbárie ficaria conhecida na Batalha de Caiboaté”. E tem mais. Consultando documentação da época, o historiador afirma que o comando luso-espanhol perdeu o controle sobre a gauchada, responsabilizada, em parte, pela “mortandade”. Os chamados também de “blandengues” teriam prosseguido com as execuções após os índios terem sido completamente derrotados e pedirem clemência.

Após provocar esse choque entre  nossa identificação regional e nossa sensibilidade, no último capítulo, o autor avalia o legado da revolta. Acredita que a posterior miscigenação provocou ao mesmo  tempo a formação de uma nova sociedade e a destruição de um modo de vida tradicional. Um processo de guaranização do cotidiano contemporâneo sul-rio-grandense também teria atingindo áreas mais distantes das missões. “Expressões identitárias icônicas, como o assado/churrasco (a espetada de carne tribal), o mate/chimarrão e dezenas de alimentos constitutivos da ‘comida caseira’ vêm do universo nativo”, escreve.

No entanto, qualifica como assustador o fato de que descendentes de imigrantes europeus se identifiquem como missioneiros hoje, baseando-se na territorialidade e no patrimônio cultural, enquanto os índios são marginalizados e vistos como um problema para o Estado-nação. “Essa guaranização subalterna talvez tenha sido o fenômeno mais determinante da formação de um ethos rio-grandense, daquilo que podemos chamar genericamente de elementos fundantes de um povo e de seus costumes em comum”, conclui.

Sem querer idealizar aquele período, este pequeno livro nos estimula a reinterpretar a história pensando os dias atuais. Estimula-nos até a arriscar hipóteses. Se hoje há conflitos agrários no Rio Grande do Sul, entre descendentes de europeus e nativos, é porque o modelo de propriedade coletiva da terra perdeu a guerra?

Outra questão se impõe. Tratando-se de batalhas perdidas, escolhemos a Revolução Farroupilha para basear nossa identidade contemporânea. Mas à medida que superarmos nossa herança racista e machista, advinda além-mar junto a nossos antepassados imigrantes, começaremos a achar menos interessante o ícone gaúcho (individualizado, imponente, viril e montado a cavalo)? Passaremos a simpatizar e a nos apropriarmos de uma simbologia mais fraternal e civilizatória, oferecida pela experiência missioneira? Inventaremos uma nova tradição?

Leia aqui o texto na íntegra
E veja aqui mais informações sobre o livro
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