Arquivo do mês: fevereiro 2015

O livro da sorte – Blog Conta uma História, 26 de fevereiro de 2015

livsorte

“A grande sorte na vida são os melhores amigos”

Entrevista

Heloisa Prieto – Escritora e tradutora

Rosa Maria: Conte-nos como foi que surgiu a ideia de escrever “O livro da sorte”, da Terceiro Nome Editora.

Heloisa Prieto: Durante os anos 60, quando eu era adolescente, minha melhor amiga era uma prima chamada Rosana. Muitas mudanças aconteceram em nossas famílias naquele período e nos apoiávamos muito. Nossa amizade era um espaço de aventuras, descobertas e muito humor. Como éramos e ainda somos muito diferentes, com caminhos de vida totalmente diversos, havia sempre um estranhamento que imprimia muita leveza às coisas. Problemas perdiam o manto do perigo ou da seriedade quando compartilhados. A grande sorte na vida são os melhores amigos, eu creio. Então desloquei o histórico da amizade para o tempo presente e criei circunstâncias problemáticas próprias dos tempos de hoje: a mãe que se recusa a assumir a idade e compete com a filha, a reviravolta da fortuna devido aos maus negócios na bolsa de valores, por exemplo.

RM: As duas personagens, Rosana e Dadá, foram inspiradas em algum jovem da realidade?

HP: Gosto de escrever para jovens e percebo que minha geração, nossos ídolos na música, na política, são muito apreciados pelo pessoal de hoje. A escrita flui muito facilmente. Mas há um diferencial no meu trabalho: mesmo quando insiro um foco narrativo de alguém de 17 ou 18 anos, recorro a recursos literários muito sofisticados. No caso de “O livro da sorte”, trabalhei com dois pontos de vista sempre, não apenas das amigas, como também o eixo oriente e ocidente.

Há um conto de Joseph Conrad, chamado Juventude, que traduzi para uma antologia para a Cia das Letras intitulada De Primeira viagem. Nele, o marinheiro naufraga, quase morre, sofre loucamente e sai de sua primeira viagem felicíssimo, pois viveu a maior aventura que se pode imaginar. Essa percepção dos acontecimentos da vida como possibilidade de vivência de experiências máximas é muito clara na juventude, justamente, mas jamais deveria ser esquecida. Portanto, meus textos contemplam a grande aventura da juventude em sua densidade e complexidade, mas com direito a muito suspense, perigo e diversão, pois isso também é próprio do espírito jovem, o que é muito diferente do “juvenil”, um termo que não gosto porque rima com “pueril”, leia-se tolo e superficial.

RM: Durante a narração de “O livro da sorte”, encontramos sempre alguns pontos que você deixa para o leitor refletir. Aliás, logo que abrimos o livro encontramos uma destas dicas através de uma frase linda: “Todo amor é amizade. Amizade é sempre amor”.

HP: Esta frase foi escrita por Tatiana Belinky e a considero como um lema para a vida. Sim, seu comentário é perfeito, deixo muito espaço para o leitor co-autor. Outro dia fiquei trocando e-mails com uma leitura que questionava essa premissa, justamente. Ela gostava mais de histórias nas quais tudo é totalmente explicado. Comentei que isso era um estilo norteamericano de escrita marcado pela influência dos roteiros de cinema ou TV. Quando se pega um manual de roteiro é preciso justificar tudo, inclusive os objetos que surgem em cena.

Mas minha escola é outra, adoro cineastas que não explicam absolutamente nada, pelo contrário, lançam desafios belíssimos, como o russo Andrei Tarkovisky. A prosa quando é generosa com o leitor e não está presa à camisa de força de um narrador que sabe tudo de seus personagens, se transforma num jogo lúdico celebrando a tríade: autor;livro;leitor, a união de dois imaginários. Finalmente, na vida real, os fatos vão se desvendando ao longo dos anos. A vida é uma obra em aberto.

RM: Poderia destacar outros livros de sua autoria destinados a este público jovem?

HP: Publiquei a série Mano, em parceira como jornalista Gilberto Dimenstein, nove livros, pela editora Ática, que foram adaptados para o cinema pela cineasta Laís Bodanski e inspiraram o filme As Melhores Coisas do Mundo.

A Cidade dos Deitados, Uma Noite no Cemitério, publicado pela Cosac Naify, foi minha primeira homenagem ao rock and roll. Nesse caso, o grupo homenageado foram os Ramones, que adoro.

Lenora, publicado pela editora Rocco, se passa em dois tempos, os anos 60 e o mundo contemporâneo. Nesse caso, celebrei a música, os mistérios e a magia. O livro gira em torno de um pacto sobrenatural que acontece no réveillon de 1970 e cujas consequências transformam por completo a vida dos três personagens principais: Lenora, Ian e Duda. O segundo volume, intitulado Ian, no qual os segredos do polêmico mestre do rock e da magia serão revelados, está no prelo da editora. Aprovei a capa recentemente. A ideia é montar uma trilogia. Gabi Mancini, roteirista, pretende transformá-lo em longa metragem.

Escrita Secreta, editado pela Escrita Fina, apresenta um exercício raro nos livros, mas que a gente encontra em tumblrs e blogs. A combinação de fotos e fragmentos de contos e poemas. Entreguei a duas jovens fotógrafas e uma artista gráfica, textos que eu tinha na gaveta, sem término. O resultado da leitura delas gerou um livro cuja beleza me espantou. Esse trabalho foi muito elogiado pela crítica e me deixou feliz.

No ano passado lancei O Jogo dos Tesouros, pela editora Edelbra, em forma de graphic novel. Os desenhos ficaram maravilhosos, criados por Jan Limpens, um artista austríaco, radicado no Brasil. Em breve, O Caso Dominó, o segundo volume do diário de Marinês será ilustrado também por Jan.

Em “O livro da Sorte”, a protagonista encontra um namorado incrível, criativo, original e solidário. Nos momentos mais terríveis, ele é o refúgio da personagem. Mas no Caso Dominó, inverti a situação e criei um jovem incrivelmente talentoso, lindo, mas com tormentos íntimos.

RM: Muitas pesquisas apontam que os jovens têm lido mais.  O que tem motivado? O que pode ser feito para este interesse crescer?

HP: Creio que os novos suportes abrem possibilidades para outras formas de narrar. Tudo se soma e a leitura cresce a cada descoberta. Mas nada supera esse portal incrível que é um livro de papel. Há algo de mágico em abrir essas páginas e arrancar de dentro uma história, dizia também Tatiana Belinky. Um livro que atravessa décadas, marcado por dedos que o manusearam, contendo dedicatórias, é algo muito inspirador. Não por acaso, em plena era digital, os sebos voltaram à moda. Além disso, o livro de cabeceira é como um amigo que acompanha a vida de alguém. O livro da mochila, o livro que se gosta de reler, dobrar as páginas, rabiscar. A relação táctil com o papel é bem diferente do suporte digital e ocupa outro lugar na vida de um leitor.

RM: O que pensa dos e-Books e da migração da literatura para as plataformas digitais?

HP: Recentemente usei um pseudônimo e abri uma página no tumblr. Adorei a comunicação por imagens, música, verbetes. O espaço coletivo de criação é uma delícia, algo que inspira retirando a escrita e o autor do lugar divino e solitário que caracterizou a figura do escritor no século dezenove. Todos têm inspirações, a criação é democrática por excelência. Entre algumas culturas indígenas as crianças desenham coletivamente. O mundo digital não apenas ajuda a descoberta da literatura como também abre espaço para a escrita pessoal, mesmo que anônima.

RM: Comente sobre sua experiência com literatura infantil. O que destaca para você na hora de escrever um livro para crianças?

HP: Hoje, justamente, sai da gráfica da Companhia das Letrinhas, um lançamento para crianças: “O estranho caso da massinha fedorenta”. Meus livros para crianças contém humor, magia e brincadeiras. Este, em especial, foi inspirado por crianças que conheci. Quando eu era professora de pré-escola me divertia muito ouvindo conversa de criança.

RM: Atualmente, diante de uma vasta produção literária, o que surpreende uma criança? E o adolescente?

HP: A arte de narrar, já desde as mil e uma noites, consiste em aprisionar o leitor num jogo de descoberta e criação. Uma boa história exige sinceridade, um mergulho nos segredos mais íntimos e coragem por parte de quem a escreve. Mas também um piscar de olhos de quem sabe que a literatura é a arte de mentir para dizer as grandes verdades. Um jogo eterno e sempre surpreendente.

Confira aqui a entrevista na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em O livro da sorte

O livro da sorte – Blog Conta uma História, 26 de fevereiro de 2015

livsorte

Um diálogo com jovens

A consagrada escritora brasileira Heloisa Prieto, em “O livro da sorte”, Editora Terceiro Nome, conta a história de uma adolescente que vê sua vida virar de cabeça para baixo após a morte do pai. Em meio à tristeza e ao sofrimento, ela passa a escrever suas experiências e compartilhá-las com sua melhor amiga. O diário das adolescentes ajuda ambas a lidar com os sentimentos e a pensar sobre o significado da amizade.

Sorte ou azar?  Como entender certos acontecimentos das nossas vidas? Na sorte, tudo bem; é certeza que estaremos sempre bem acompanhados. Mas e no azar, quem estará do nosso lado? Neste caso, só quem ama de verdade. Certa disso, Heloisa Prieto destaca em “O livro da sorte” uma linda frase de Tatiana Belinsky: “Todo amor é amizade. Amizade é sempre amor”.

Se é sorte ou azar certas experiências de vida, a história de duas adolescentes, Rosana e Dadá, faz o leitor pensar sobre a questão. Mas o que certamente vai motivar este leitor para a leitura, página por página, é a amizade sincera das duas personagens e a forma que encontraram de uma ajudar a outra vencer as adversidades repentinas.

Dadá é uma adolescente de 17 anos. A protagonista da história resolve registrar suas impressões numa espécie de diário e trocá-las com Rosana, sua melhor amiga. Além de aproximá-las ainda mais, a escrita ajuda Dadá a lidar com os sentimentos que afloram com a perda e a faz pensar sobre o significado da amizade.

Ao construir sua narrativa a partir da troca dos escritos entre Dadá e Rosana, a autora Heloisa Prieto levanta questões que permeiam a vida dos adolescentes, ajudando-os certamente a entender a convivência com os amigos e com a família, suas angústias e descobertas. E aí: realmente existe diferença entre a sorte e o azar?

“O livro da sorte” traz ilustrações do cartunista Francisco França.

A autora é apaixonada por livros desde a infância. Quando morava em Marília, interior de São Paulo, ouvia histórias da tradição local e se encantava com as lendas portuguesas, baianas e espanholas que lhe contavam. Iniciou sua carreira de escritora alguns anos depois, quando, já morando em São Paulo, contava histórias para crianças na Escola da Vila. Doutora em literatura francesa (USP) e mestre em semiótica (PUC-SP) tem mais de 50 obras de literatura infantojuvenil publicadas e coleciona prêmios, entre eles dois Jabutis. A série de livros “Mano descobre”, escrita em parceria com Gilberto Dimenstein, inspirou o filme As melhores coisas do mundo, dirigido por Laís Bodanzky. Seu livro Mil e um fantasmas, adaptado pela Cia. do Grito, recebeu o prêmio Alpha.

Heloisa Prieto concedeu entrevista ao Blog Conta uma História. Clique à direita, na categoriaEntrevistas, para conhecer mais sobre “O livro da sorte” e o trabalho desta cativante escritora.

Confira aqui a resenha na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em O livro da sorte

O estádio dos desejos – Literatura na Arquibancada, 11 de fevereiro de 2015

villoro

O estádio dos desejos

Assim como no Brasil, o México tem um povo apaixonado pelo futebol. E um de seus grandes escritores, consagrado no país e pelo mundo, Juan Villoro, construiu uma história, classificada como literatura infanto-juvenil, mas que encanta a todos os tipos de leitores.

“O estádio dos desejos” (Editora Terceiro Nome) conta as peripécias do garoto Arturo, fanático por futebol, mas que nunca viu a seleção de seu país vencer um jogo. Para tentar reverter essa situação, Arturo recorre ao pai, um cientista, para tentar descobrir uma “fórmula mágica” para a vitória.

O livro teve a tradução de Eric Nepomuceno e ilustrações de Francisco França.

Apresentação

Juan Villoro é um dos maiores, senão o maior escritor mexicano da atualidade. Aliás, essa afirmação é fácil de confirmar: ele mede quase dois metros de altura.

Acontece que ele é também um dos maiores em todos os sentidos, e confirmar isso é igualmente fácil: basta ler o que ele escreve.

São romances, contos, ensaios, histórias infanto-juvenis e peças de teatro – e tudo que Villoro faz tem recebido a admiração e o carinho dos leitores, bem como elogios da crítica.

Alguns de seus livros, como o romance Arrecife e o infanto-juvenil O livro selvagem, já foram publicados no Brasil. Assim como eles, os romances Llamada de Amsterdam e El testigo, os contos de La noche navegable e Los culpables e o infanto-juvenil Cazadores de croquete, estão entre os mais bem-sucedidos da sua geração de autores latino-americanos.

Prestigiado e premiado, respeitado e reconhecido, agradece todas essas honras, educado que é.

Mas Villoro faz questão de ressaltar que, no fundo, no fundo, seu verdadeiro ofício é torcer apaixonadamente pelo Necaxa, um time da segunda divisão do futebol mexicano.

Muito mais que seu diploma de sociólogo, seu amplo e vasto trabalho jornalístico, sua trajetória consistente e variada, os dois grandes orgulhos de sua vida são torcer pelo Barcelona (seu pai, o grande filósofo Luis Villoro, nasceu na Catalunha e se exilou no México logo depois da Guerra Civil Espanhola), time ganhador, e pelo Necaxa, time perdedor.

Porque ele sabe que a vida é exatamente assim, feita de vitórias e derrotas. E que o importante é torcer, ou melhor, viver.

Enquanto vive e torce, Villoro escreve – para alegria de todos nós. Boa prova disso é esta pequena joia chamada O estádio dos desejos.

Um estádio formidável

Por Juan Villoro

No quarto de Arturo havia um globo terrestre. Antes de ir dormir, ele acariciava o globo e o fazia girar. Gostava do globo porque parecia uma bola de futebol.

Quando comia, quando tomava banho e quando dormia, Arturo imaginava gols possíveis e impossíveis. Seu pijama tinha o número 9 e as cores do Atlântida, seu time favorito.

Ficava fascinado quando ia com o pai ao estádio Atlântida, o maior e mais moderno da cidade, onde também jogava a seleção.

A arquibancada se enchia de gente enlouquecida e contente que pintava a cara e tocava tambores, cornetas e apitos num tremendo alvoroço. Cem mil gargantas gritavam quando alguém fazia um gol e cem mil narizes deixavam de respirar quando o juiz marcava um pênalti.

O estádio do Atlântida tinha uma cobertura prateada onde quatro falcões faziam ninho. Os ferozes falcões eram chamados de Pelé, Maradona, Di Stéfano e Pancho. Os três primeiros falcões tinham nomes de jogadores históricos; o quarto tinha o nome de um centroavante de que todo mundo gostava muito, mas que nunca tinha ganhado um campeonato.

Pancho era o camisa 9 do Atlântida e da seleção. No pátio do colégio, Arturo tentava imitar sua célebre jogada do cavalinho adormecido, ou seja, ficar quieto feito um cavalo que dorme de pé e arrematar a jogada com um chute de calcanhar, com a força de um corcel que dá um coice.

Pancho tinha dribles incríveis. Tinha passado a bola no meio das pernas do alemão Peter Kaspa, conhecido como Mel de Arsênico, tinha feito Ivo Tundaz, zagueiro húngaro conhecido como Gulash, o Terrível, dançar uma valsa, e tinha metido um gol de peixinho em Tito Granola, o goleiro argentino de formosa cabeleira que todo mundo chamava de Cabelinho de Anjo.

Infelizmente, a seleção precisava de mais do que isso para ganhar.

O querido Pancho era quem dava mais autógrafos e em todos fazia o desenho de um cavalinho com os olhos fechados. Era desconhecido no mundo, mas adorado no estádio Atlântida. E isso explicava o fato de um dos falcões levar seu nome.

O trabalho dos falcões, aves de rapina, consistia em afastar os intrusos. O estádio do Atlântida tinha grama de qualidade e sementes saborosas. Por isso, os pássaros gostavam de bicar o gramado, e volta e meia cruzavam o campo justo quando a bola zunia rumo ao gol. Para evitar esses choques, nos dias de jogo os falcões ficavam à espreita, lá em cima, assustando os pássaros gulosos e famintos.

Era fácil identificar os falcões: Pelé era negro; Maradona, gordo; Di Stéfano, careca; e Pancho, brincalhão (era o único que sabia voar de ponta-cabeça).

Arturo sonhava ser um grande centroavante. Era bom cabeceando, chutava bem com a perna direita e estava aprimorando seu toque com a canhota. Essas habilidades tinham feito dele o artilheiro da escola. Mesmo assim, seu pai dizia:

– Futebol, a gente joga com a mente.

O pai de Arturo era o doutor Jerónimo Gómez, um cientista especializado em magnetismo. Tinha fabricado uns ímãs famosos e, além disso, era conselheiro da seleção.

Antes das partidas, ele descia para o vestiário e dizia aos jogadores:

– Rapaziada gloriosa, o futebol é um esporte magnético: a bola chega para quem mais a deseja!

Os jogadores ficavam observando com olhos arregalados. Depois coçavam a cabeleira e esfregavam as tatuagens, sem entender direito o que aquele sábio dizia.

Nem sempre era fácil captar as ideias do doutor Gómez.  O filho Arturo tinha conseguido entender o seguinte: a Terra tem uns ímãs que atraem os metais, mas o magnetismo mais forte está no interior das pessoas.

– Se você se concentrar de verdade, as coisas vão chegar até você – dizia o pai de Arturo. – Como é que você acha que eu conquistei sua mãe?

Arturo gostava de uma menina chamada Sofia. Quando ela atravessava o pátio do colégio, podia sentir sua presença, mesmo se estivesse de costas ou concentrado numa jogada para garantir o domínio da bola.

– Existem pessoas cuja presença a gente percebe sem precisar olhar para elas – comentava o doutor Gómez.

Emocionado com suas próprias teorias, passava as mãos pela cabeleira e se despenteava ao afirmar:

– No Japão, os melhores arqueiros disparam suas flechas com os olhos fechados. O alvo é uma coisa que a gente sente. A pontaria está dentro da gente. Se você quiser alguma coisa, querendo com força você consegue. O magnetismo é a ciência da atração.

Será que era verdade o que o doutor Jerónimo Gómez dizia?

De noite, Arturo sonhava que estava em campo. Lá no fundo, via a bola. “Eu quero muito você”, pensava, e a bola rolava até seus pés, como um cachorro que volta para o seu dono.

Juan Villoro nasceu em 1956 na Cidade do México e é um dos intelectuais latino-americanos mais ativos da atualidade. Sociólogo, jornalista, tradutor e professor universitário, já recebeu diversos prêmios por seu trabalho. Tem mais de trinta livros publicados em diversos gêneros, como romance, ensaio e teatro e escreve para revistas como Letras Libres e Etiqueta Negra, além dos jornais El País e Reforma. Assim como Arturo, o protagonista de O estádio dos desejos, Villoro é apaixonado por futebol. Torce pelo Barcelona (seu pai, o filósofo Luis Villoro, nasceu na Catalunha e se exilou no México depois da Guerra Civil Espanhola) e pelo Necaxa, time da segunda divisão do campeonato mexicano.

Leia aqui a resenha na íntegra

E confira aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em O estádio dos desejos

O Súdito – O Estado de S. Paulo (Caderno 2), 14 de fevereiro de 2014

O Estado de S Paulo - Caderno 2 - 14fev2015

Confira aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em O Súdito

A Guerra Guaranítica – Zero Hora (Caderno PrOA), 9 de fevereiro de 2014

guaranitica

Livro narra massacre e apropriação da identidade indígena no RS

Historiador Tau Golin enfoca a luta de resistência dos povos nativos missioneiros em “A Guerra Guaranítica”

Para constituir uma identidade, buscamos características específicas que nos diferenciem dos demais. No Rio Grande do Sul, nossa história guarda uma experiência única na colonização da América. Aqui, na parte meridional, durante um período de um século e meio, houve uma sociedade baseada na propriedade coletiva da terra e no respeito às tradições dos povos nativos. Refiro-me exclusivamente às Missões Jesuíticas. No final do ano passado, um lançamento literário veio reacender a chama do imaginário missioneiro, e nos ajudar a lembrar que, mesmo com a dizimação dos índios rebeldes pelos exércitos luso-castelhanos, ficou um legado determinante para nossos costumes em comum. Trata-se do livro A Guerra Guaranítica: O Levante Indígena que Desafiou Portugal e Espanha, de Tau Golin (Editora Terceiro Nome, 200 páginas, R$ 38).

O tema não é novidade para o autor, que se debruça há décadas sobre ele, tendo publicado em 1998 obra extensa e rica em documentação. Diferentemente, o novo volume resume a tese do historiador sobre a destruição dos Sete Povos. Constitui-se, assim, como fonte de fácil acesso para o público interessado em compreender um período fundamental na formação do Estado. Também é um livro de guerra, centrado nas três partidas dos exércitos ibéricos e nas batalhas decorrentes dessas investidas. Para os fãs do gênero, revela táticas missioneiras, como queimar os campos na vanguarda do inimigo ou presenteá-lo para retardar seu avanço.

O autor não tem medo de arriscar. Com intuição e erudição, por vezes, reconstitui histórias de forma humanizada. Noutras, em tom anedótico. Escrevendo sobre as conferências de demarcadores de fronteira, chama atenção para a pompa com que tenentes-de-dragões, comissários e marqueses dos reinos europeus chegavam à região inóspita mais ao sul. De acordo com Golin, montaram dois acampamentos, reproduzindo cenários palacianos e autos barrocos. É divertido e vale a pena citar aqui o episódio de encontro ao acaso, antes das cerimônias previstas, em que os líderes avistaram-se nas margens de um riacho. Quando um entrou à cavalo n’água, o outro atirou-se igualmente em busca de cumprimento. “Consequentemente, a primeira conversa entre eles se deu na margem sul do arroio, sem poltrona aveludada, onde permaneceram em pé durante três horas, com Gomes Freire secando os fundilhos na aragem sulina”, escreve, na página 65.

Estimula o imaginário lembrar que, antes da guerra fatídica, os índios reduzidos enfrentaram diversas batalhas nas defesas da fronteira espanhola e do seu modo de vida. Fundaram sete cidades na banda oriental do Rio Uruguai. Entre perdas e ganhos, um século antes, derrotaram bandeirantes na Batalha de M’Bororé em 1641, feito épico.

Reside aí um dos valores deste livro: reavivar em nossas mentes contemporâneas o que representou a empreitada jesuítica-indígena. Basta ler que na metade do século 18 estavam organizados em 30 povos, na região onde hoje se situam o noroeste gaúcho, o nordeste argentino, o sul paraguaio e o norte uruguaio. Eram praticamente autossuficientes. Exportavam produtos beneficiados e participavam de 60% do mercado do Rio da Prata. O sucesso inclusive causava receio na Península Ibérica de que houvesse uma insurreição de um novo estado teocrático por estas plagas. Tau Golin ressalta que este medo vinha mesmo do desconhecimento do protagonismo indígena nas Missões.

Essa civilização parece ter ido muito bem, até que os dois reinos europeus assinaram o Tratado de Madri, em 1750. No acordo, a Colônia de Sacramento, fundada pelos portugueses onde hoje é o Uruguai, deveria ser entregue à Espanha. Em contrapartida, os espanhóis cederiam os Sete Povos das Missões. Sobre a troca, o autor observa que “Madri e Lisboa, no entanto, não levaram em consideração o que pensavam os habitantes daquela parte da América do Sul”. Nesta passagem podemos ter uma prévia de como Golin guia o texto. Longe das versões dos vencedores, nesta, o nativo tem voz e intenção.

Didático, o volume contém explicações sobre a constituição dos povoados em áreas urbanas e rurais, com complexa organização administrativa que incluía padres e caciques. Traz pequenas biografias dos principais personagens do conflito. Entre militares europeus e jesuítas, estão os comandantes indígenas, incluindo Sepé Tiaraju, alferes de São Miguel que inicialmente não era rebelde. Seu posicionamento teria mudado após um sonho com o padroeiro São Miguel, ordenando que os índios permanecessem em suas terras.

No campo do pertencimento, essência da identidade, há discursos formidáveis dos missioneiros frente à ameaça de despejo. Na carta do povo de São Luis, por exemplo, afirmam não querer a guerra, mas reiteram que: “esta é a terra em que nascemos, nos criamos e fizemos batizar, e é assim que aqui gostaríamos de morrer”.

Este tipo de discurso localista vem sendo apropriado desde o século 20 e colecionado como se fosse parte de uma cultura baseada no tipo gauchesco. No entanto, intriga saber que o exército espanhol era formado por poucas tropas regulares e uma maioria de paisanos. Esses paisanos, nas palavras de Golin, eram uma “gauchada sanguinária, habituada a roubar os rebanhos missioneiros, cuja barbárie ficaria conhecida na Batalha de Caiboaté”. E tem mais. Consultando documentação da época, o historiador afirma que o comando luso-espanhol perdeu o controle sobre a gauchada, responsabilizada, em parte, pela “mortandade”. Os chamados também de “blandengues” teriam prosseguido com as execuções após os índios terem sido completamente derrotados e pedirem clemência.

Após provocar esse choque entre nossa identificação regional e nossa sensibilidade, no último capítulo, o autor avalia o legado da revolta. Acredita que a posterior miscigenação provocou ao mesmo tempo a formação de uma nova sociedade e a destruição de um modo de vida tradicional. Um processo de guaranização do cotidiano contemporâneo sul-rio-grandense também teria atingido áreas mais distantes das missões. “Expressões identitárias icônicas, como o assado/churrasco (a espetada de carne tribal), o mate/chimarrão e dezenas de alimentos constitutivos da ‘comida caseira’ vêm do universo nativo”, escreve.

No entanto, qualifica como assustador o fato de que descendentes de imigrantes europeus se identifiquem como missioneiros hoje, baseando-se na territorialidade e no patrimônio cultural, enquanto os índios são marginalizados e vistos como um problema para o Estado-nação. “Essa guaranização subalterna talvez tenha sido o fenômeno mais determinante da formação de um ethos rio-grandense, daquilo que podemos chamar genericamente de elementos fundantes de um povo e de seus costumes em comum”, conclui.

Sem querer idealizar aquele período, este pequeno livro nos estimula a reinterpretar a história pensando os dias atuais. Estimula-nos até a arriscar hipóteses. Se hoje há conflitos agrários no Rio Grande do Sul, entre descendentes de europeus e nativos, é porque o modelo de propriedade coletiva da terra perdeu a guerra?

Outra questão se impõe. Tratando-se de batalhas perdidas, escolhemos a Revolução Farroupilha para basear nossa identidade contemporânea. Mas à medida que superarmos nossa herança racista e machista, advinda além-mar junto a nossos antepassados imigrantes, começaremos a achar menos interessante o ícone gaúcho (individualizado, imponente, viril e montado a cavalo)? Passaremos a simpatizar e a nos apropriarmos de uma simbologia mais fraternal e civilizatória, oferecida pela experiência missioneira? Inventaremos uma nova tradição?

Leia aqui a matéria na íntegra

E confira aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em A Guerra Guaranítica, Coleção Brasil Rebelde

A Guerra Guaranítica – Pampurbana, 8 de fevereiro de 2015

guaranitica

Missioneiro Rio Grande do Sul – índios relegados, costumes incorporados

*texto publicado no jornal Zero Hora (caderno PrOA) em 08/02/2015.
Para constituir uma identidade buscamos características específicas que nos diferenciem dos demais. No Rio Grande do Sul, servimo-nos em prato cheio (temos assado de carne espetada e chimarrão). Podemos orgulhar-nos e sermos bairristas ao constatar que nossa história guarda uma experiência única na colonização da América. Aqui, na parte meridional, durante um período de um século e meio, houve uma sociedade baseada na propriedade coletiva da terra e no respeito às tradições dos povos nativos. Refiro-me exclusivamente das Missões Jesuíticas.

No final do ano passado um lançamento literário veio reacender a chama do imaginário missioneiro, e nos ajudar a lembrar que, mesmo com a dizimação dos índios rebeldes pelos exércitos luso-castelhanos, ficou um legado determinante para nossos costumes em comum. Tau Golin lançou o livro “A Guerra Guaranítica – O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha” (Ed. Terceiro Nome).

O tema não é novidade para o autor, que se debruça há décadas sobre ele, tendo publicado em 1998 obra extensa e rica em documentação. Diferente, o novo volume resume a tese do historiador sobre a destruição dos Sete Povos. Constitui-se, assim, como fonte de fácil acesso para o público interessado em compreender um período fundamental na formação do estado do Rio Grande do Sul.

Também é um livro de guerra, centrado nas três partidas dos exércitos ibéricos e nas batalhas decorrentes dessas investidas. Para os fãs do gênero, revela táticas missioneiras, como queimar os campos na vanguarda do inimigo ou presenteá-lo para retardar seu avanço.

O autor não tem medo de arriscar. Com intuição e erudição, por vezes, reconstitui estórias de forma humanizada. Noutras, em tom anedótico. Escrevendo sobre as conferências de demarcadores de fronteira, chama atenção para a pompa com que tenentes-de-dragões, comissários e marqueses dos reinos europeus chegavam à região inóspita mais ao sul. De acordo com Golin, montaram dois acampamentos, reproduzindo cenários palacianos e autos barrocos. É divertido e vale a pena citar aqui o episódio de encontro ao acaso, antes das cerimônias previstas, em que os líderes avistaram-se nas margens de um riacho. Quando um entrou à cavalo n’água, o outro atirou-se igualmente em busca de cumprimento. “Consequentemente, a primeira conversa entre eles se deu na margem sul do arroio, sem poltrona aveludada, onde permaneceram em pé durante três horas, com Gomes Freire secando os fundilhos na aragem sulina”, escreveu na página 65.

Estimula o imaginário lembrar que antes da guerra fatídica, os índios reduzidos enfrentaram diversas batalhas nas defesas da fronteira espanhola e do seu modo de vida. Fundaram sete cidades na banda oriental do Rio Uruguai. Entre perdas e ganhos, um século antes, derrotaram bandeirantes na Batalha de M’Bororé em 1641, feito épico.

Reside aí um dos valores deste livro: reavivar em nossas mentes contemporâneas o que representou a empreitada jesuítica-indígena. Basta ler que na metade do século XVIII estavam organizados em 30 povos, na região onde hoje se situam o noroeste gaúcho, o nordeste argentino, o sul paraguaio e ainda o norte uruguaio. Eram praticamente autossuficientes. Exportavam produtos beneficiados e participavam de 60% do mercado do Rio da Prata. O sucesso inclusive causava receio na Península Ibérica de que houvesse uma insurreição de um novo estado teocrático por estas plagas. Tau Golin ressalta que este medo vinha mesmo com o desconhecimento do protagonismo indígena nas Missões.

Essa civilização parece ter ido muito bem, até que os dois reinos europeus assinaram o Tratado de Madri, em 1750. No acordo, a Colônia de Sacramento, fundada pelos portugueses onde hoje é o Uruguai, deveria ser devolvida à Espanha. Em contrapartida, os espanhóis entregariam os Sete Povos das Missões. Sobre a troca, o autor observa que “Madri e Lisboa, no entanto, não levaram em consideração o que pensavam os habitantes daquela parte da América do Sul”. Nesta passagem podemos ter uma prévia de como Golin guia o texto. Longe das versões dos vencedores, nesta, o nativo tem voz e intenção.

Didático, o volume contém explicações sobre a constituição dos povoados em áreas urbanas e rurais, com complexa organização administrativa que incluía padres e caciques. Traz pequenas biografias dos principais personagens do conflito. Entre militares europeus e jesuítas, estão os comandantes indígenas, incluindo Sepé Tiaraju, alferes de São Miguel que inicialmente não era rebelde. Seu posicionamento teria mudado após um sonho com o padroeiro São Miguel, ordenando que os índios permanecessem em suas terras.

No campo do pertencimento, essência da identidade, há discursos formidáveis dos missioneiros frente à ameaça de despejo. Na carta do povo de São Luis, por exemplo, afirmam não querer a guerra, mas reiteram que: “esta é a terra em que nascemos, nos criamos e fizemos batizar, e é assim que aqui gostaríamos de morrer”.

Este tipo de discurso localista vem sendo apropriado desde o século XX e colecionado como se fosse parte de uma cultura baseada no tipo gauchesco. No entanto, intriga saber que o exército espanhol era formado por poucas tropas regulares e uma maioria de paisanos. Esses paisanos, nas palavras de Golin, era uma “gauchada sanguinária, habituada a roubar os rebanhos missioneiros, cuja barbárie ficaria conhecida na Batalha de Caiboaté”. E tem mais. Consultando documentação da época, o historiador afirma que o comando luso-espanhol perdeu o controle sobre a gauchada, responsabilizada, em parte, pela “mortandade”. Os chamados também de “blandengues” teriam prosseguido com as execuções após os índios terem sido completamente derrotados e pedirem clemência.

Após provocar esse choque entre  nossa identificação regional e nossa sensibilidade, no último capítulo, o autor avalia o legado da revolta. Acredita que a posterior miscigenação provocou ao mesmo  tempo a formação de uma nova sociedade e a destruição de um modo de vida tradicional. Um processo de guaranização do cotidiano contemporâneo sul-rio-grandense também teria atingindo áreas mais distantes das missões. “Expressões identitárias icônicas, como o assado/churrasco (a espetada de carne tribal), o mate/chimarrão e dezenas de alimentos constitutivos da ‘comida caseira’ vêm do universo nativo”, escreve.

No entanto, qualifica como assustador o fato de que descendentes de imigrantes europeus se identifiquem como missioneiros hoje, baseando-se na territorialidade e no patrimônio cultural, enquanto os índios são marginalizados e vistos como um problema para o Estado-nação. “Essa guaranização subalterna talvez tenha sido o fenômeno mais determinante da formação de um ethos rio-grandense, daquilo que podemos chamar genericamente de elementos fundantes de um povo e de seus costumes em comum”, conclui.

Sem querer idealizar aquele período, este pequeno livro nos estimula a reinterpretar a história pensando os dias atuais. Estimula-nos até a arriscar hipóteses. Se hoje há conflitos agrários no Rio Grande do Sul, entre descendentes de europeus e nativos, é porque o modelo de propriedade coletiva da terra perdeu a guerra?

Outra questão se impõe. Tratando-se de batalhas perdidas, escolhemos a Revolução Farroupilha para basear nossa identidade contemporânea. Mas à medida que superarmos nossa herança racista e machista, advinda além-mar junto a nossos antepassados imigrantes, começaremos a achar menos interessante o ícone gaúcho (individualizado, imponente, viril e montado a cavalo)? Passaremos a simpatizar e a nos apropriarmos de uma simbologia mais fraternal e civilizatória, oferecida pela experiência missioneira? Inventaremos uma nova tradição?

Leia aqui o texto na íntegra
E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em A Guerra Guaranítica

Nas tramas do crack – Jornal da Cultura (TV Cultura), 4 de fevereiro de 2015

‘Nas tramas do crack’ é destaque na TV Cultura

O advogado Eduardo Muylaert falou (do minuto 5 ao 6:20) sobre este livro da antropóloga da Unicamp, Taniele Rui, que analisa o crack, droga considerada expressão máxima dos nossos problemas sociais.

Eduardo Muylaert contou que o estudo lhe parece exemplar porque vê o problema sob três aspectos: o da compaixão, o da reflexão acadêmica e o de uma proposta de ação. Ainda segundo o advogado, ‘Nas tramas do crack’ junta a reflexão da universidade à ação social e à tentativa de compreender o problema, fazendo com que a sociedade avance. “O olhar só pelo prisma da segurança pública não tem levado a nada e também o mero estudo acadêmico não resolve, mas sim essa conjunção, em que a autora também estuda o viciado como gente e procura ver como interagir com ele para ajudá-lo a sair da situação em que está”, completou. O advogado lembrou que este livro já está sendo muito comentado e em breve acontecerá um grande lançamento.

Assista aqui ao telejornal na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em Nas tramas do crack