O Capa-Branca – Vice, 29 de janeiro de 2015

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Memórias do Capa-Branca: O Homem que Trabalhou e Foi Internado no Maior Hospital Psiquiátrico do Brasil

“Porque sou louco, né?”, Walter Farias dá uma gargalhada enquanto fala da sua rotina militar de remédios tarja preta com a mesma naturalidade em que conta sobre a vida pacata em Franco da Rocha. Toda vez que o aposentado começa um assunto sobre si mesmo, avisa calmamente a quem estiver ouvindo sobre sua sanidade mental duvidosa. Mesmo quando o assunto chega à rotina dura e triste do Juquery, o maior complexo psiquiátrico do Brasil, os olhos azuis permanecem calmos. É um tom similar ao encontrado em O Capa-Branca. Escrito a quatro mãos em parceria com o jornalista Daniel Navarro Sonim, o livro retrata suas memórias no hospital — primeiro como trabalhador e depois como paciente internado.

Todas as fotos são do Felipe Larozza.

A história de Walter por lá começa em 1972, quando ele foi aprovado no concurso público de atendente de enfermagem. Esses funcionários eram chamados internamente de “capa-branca” — uma alusão ao jaleco que lhes servia de uniforme. Enquanto funcionário, lidou com diversos tipos de pacientes, desde deficientes físicos a ilustres criminosos, como o Bandido da Luz Vermelha.

O Hospital Psiquiátrico Juquery, um dos mais antigos e maiores do país, nasceu na segunda metade do século XIX. Composto de 150 hectares, o terreno comportou milhares de indivíduos atingidos pelo processo de limpeza da sociedade (em sua maioria, prostitutas, desempregados, doentes mentais, viciados, ex-escravos, entre outros) que começa a se destacar com o desenvolvimento industrial e a chegada de imigrantes. Na década de 1970, atingiu 16 mil pacientes, o auge de sua lotação.

A fachadas e os prédios bonitos projetados pelo arquiteto Ramos de Azevedo escondiam o mau cheiro e a total falta de higiene que dominava o local. Os corpos esquálidos dos internos, que urinavam e defecavam nos colchões forrados de capim, eram devorados por insetos, deixando feridas em carne viva, as quais Walter tratou inúmeras vezes em incontáveis pacientes. “É engraçado. Lá tinha prédio para tudo, menos para controle de pragas. Isso era uma coisa que já fazia parte de lá,” lembra.

O plano inicial era encontrá-lo junto com o Daniel na frente da Prefeitura de Franco da Rocha para passear pelo munícipio e conversar sobre o livro. “Ele é um ótimo guia turístico,” avisou Daniel. Infelizmente, o papo acabou ficando em um boteco de pastéis perto da estação de trem, já que a fechadura do carro de Walter, que, segundo ele, “abre com qualquer chave”, emperrou.

Aquele lugar parecia uma maçã podre. Por fora, a casca era bonita e reluzente, com prédios e construções que eu nunca tinha imaginado que veria na minha vida. Do lado de dentro, a polpa estava podre e carcomida por vermes famintos. Um amontoado de homens pelados ou maltrapilhos com a cabeça raspada passava o dia perambulando pelas galerias e corredores, e povoava cada um dos pátios. -Trecho do Livro O Capa-Branca.

Para ele, porém, mais assustador do que as feridas, o cheiro e a imagem de dezenas de pessoas sendo seguradas no chão pelos funcionários para tomar eletrochoque (uma prática comum na época), era a loucura, que se mostrava mais contagiosa do que qualquer praga que se alastrava pelas colônias e pelos pavilhões do Juquery.”Você vê aquilo todo dia e isso acaba te dominando,” explica Walter.

Após sete anos como capa-branca e presenciando cenas que fariam até os mais fervorosos apoiadores da pena de morte tremerem, Walter foi gradativamente sendo dominado por um medo de trabalhar. A única opção era ser internado no mesmo local em que exercia sua função. E lá ficou como paciente durante um ano. “Lá eles te anulavam, tiravam suas roupas, seus dentes e seu cabelo. Você se tornava um zero,” conta.

“O boticão do dentista servia como método de prevenção contra mordidas que podiam ferir outros pacientes, funcionários ou eles mesmos. De uma só vez, todos os dentes eram arrancados sem qualquer tipo de anestesia.”

Após a própria temporada no inferno, Walter conseguiu ser aposentado por invalidez e hoje vive de sua pensão. Daí o ex-funcionário teve de lidar com a vida fora dos portões do manicômio junto com as sequelas trazidas de dentro. “Você sai de lá e você se torna o louco, o cara que foi internado.”

Hoje, foca-se em compor músicas (que já passam de 400) e elaborar invenções. Segundo ele, sua sanidade está sob controle. “Só quando eu começo a parar de dormir e de fazer a barba, que já é sinal [de] que eu estou desandando,” revela.

O livro começou a tomar forma quando Daniel Navarro assistia ao programa Casos de Família no SBT em 2007 e conheceu a história do ex-funcionário e ex-paciente. O tema do programa era “Sou esquisito, e daí?”. Walter contava sua trajetória no Complexo e falava sobre sua vontade de ficar em casa, quieto, compondo suas músicas. Daniel entrou em contato com a produção do SBT e, depois de um tempo, recebeu a notícia de que Walter queria conversar com ele.

Farias conta que mais duas pessoas, além de Daniel, foram atrás dele. “Uma era [uma] mulher milionária que me pediu para tirar o sapato antes de entrar na cobertura dela, na zona sul de São Paulo. Aí já não gostei.” Após ele enviar páginas de suas memórias escritas muito antes de conhecer Daniel, os dois começaram a trocar correspondências e produzir o livro, lançado em 2014 pela Editora Terceiro Nome.

“Nas primeiras vezes [em] que conheci o Walter, estávamos andando de carro por Franco da Rocha até que ele parou, puxou o freio de mão e me perguntou: ‘Você não tem medo de andar com um louco que toma mil remédios todos os dias?’. Respondi que não, e ele destravou o freio de mão e continuou a dirigir”,lembra Daniel. O início do trabalho de produção do livro (o primeiro de ambos) coincidiu com o jornalista ter passado uma temporada fora da capital e também se livrado de trabalhos estressantes. “Prefiro mil vezes ficar dias trancado no quarto do Walter ouvindo-o falar do que voltar para um trabalho cheio de gente neurótica,” sorri.

“Ainda não li o livro,” confessa Walter antes de contar sobre o Juquery. “Muita gente veio me falar que o livro é chocante, triste, mas não era o objetivo. Era para ser um livro light”, frisa, dando uma risadinha. Walter diz que não era sua vontade escrever um livro de denúncias, pois não quer expor a família dos pacientes que passaram por lá.

“Bastava os pacientes ouvirem as letras E, C, e T para morrerem de medo. ECT é a sigla de eletroconvulsoterapia — ou simplesmente eletrochoque. Antes de entrar no Hospital, não podia imaginar que aqueles louquinhos de cabeças raspadas recebessem choque elétrico. Só quando participei da primeira sessão me dei conta da crueldade daquela prática.”

“Você foi a única que não fez uma pergunta sobre os presos políticos que iam para o Juquery,” destaca o ex-capa-branca. “Me encheram o saco com essa pergunta, mas te digo que, quando aparecia gente assim, eles logo iam para os porões do Juquery e voltavam bobos. Lobotomia”, explicou.

Mesmo não sendo o objetivo dos autores, o livro não deixa de passar tristeza e uma solidão sem fim, especialmente porque grande parte dos pacientes que passava pelo Complexo na época só saía de lá dentro de um saco rumo ao cemitério de indigentes local.

“Na época, não existia uma diferenciação da loucura que nem hoje. Todo interno recebia o mesmo tratamento”, explica ele. “Não acho que era a maneira correta: foram pouquíssimas pessoas que vi saindo de lá com vida. Eu saí.”

Confira aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

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