Desaudio – Vida Simples, 1º de janeiro de 2014

Desaudio - COLEÇÃO FOTOLIVROS EM PARCERIA COM O ESTÚDIO MADALENA

Silêncio, por favor

Em um mundo que não para de falar, o silêncio realmente vale ouro – e tem sido mais difícil de explorar do que o diamante. Mas é possível, sim, achar a quietude na nossa vida. Descubra como.

Não é curioso (e até paradoxal) que tenhamos usado mais de 2 mil palavras justamente para escrever uma reportagem sobre silêncio? Pois é, por mais estranho que pareça, o silêncio se tornou um assunto caro e nada simples nesses dias atuais. Tem sido cada vez mais difícil buscar momentos de quietude justamente em um mundo que não para de falar e que tem falado cada vez mais. Opa, não sou eu que estou dizendo: segundo um estudo feito no Centro da Indústria de Informação Global, na Universidade da Califórnia, foram trocadas 4,5 trilhões de palavras nos Estados Unidos no ano de 1980. Em 2008, esse número cresceu 140% – os computadores do Centro estimaram que os americanos usaram 10,8 trilhões de palavras no ano do último levantamento. “Nós certamente recebemos mais informações do que podemos absorver ou realmente ouvir”, afirma o diretor Roger Bohn. “É curioso pensar que as novas gerações que já estão sendo criadas com seus smartphones nas mãos nunca tenham, de fato, vivenciado o silêncio pleno”, diz.

Aliás, é difícil lembrar a última vez que nós mesmos vivenciamos essa plena quietude. Se você teve um final de ano tão corrido quanto o meu, sabe do que estou falando. “O silêncio está em extinção”. Vinda de qualquer pessoa, a frase poderia soar simplesmente como uma queixa rabugenta. Vinda de Gordon Hempton, no entanto, ela tem muito a nos dizer. Quando ainda era universitário, aos 27 anos, ele fazia uma viagem de Seattle a Washington, nos Estados Unidos, quando resolveu parar na estrada para descansar um pouco. Desceu do carro, caminhou até uma área verde e deitou na grama. Foi então que ouviu o ruído do que deveria ser um grilo. “Essa foi a primeira vez que eu realmente o escutei”, diz ele. A partir de então, Hempton se tornou um ecologista acústico e, nos últimos 30 anos, deu a volta ao mundo três vezes para buscar os mais variados sons da natureza – aqueles que só surgem no mais intocado e profundo silêncio. Muito mais do que centenas de gravações raríssimas (muitas delas disponíveis no iTunes), a experiência o ajudou a encontrar o lugar mais silencioso dos Estados Unidos, uma área de “uma polegada quadrada” (ou cerca de seis cm2) localizada em uma zona de floresta no Parque Nacional Olímpico, no Estado de Washington. Segundo ele, um dos pouquíssimos lugares do país (e do mundo) isolado de ruídos causados pelo homem.

Uma polegada quadrada de silêncio não é apenas simbólica. Nós deliberadamente fomos eliminando qualquer medida de silêncio das nossas vidas. “A modernidade é necessariamente barulhenta”, ele diz. Trocamos os motores dos carros pelas turbinas do avião, a toalha pelo secador de cabelo, a vassoura pelo aspirador. Nada está se tornando mais silencioso. Até em lugares sagrados ou introspectivos, o silêncio se tornou opressivo em vez de valioso. Algo está mudando nos níveis físicos e sociais no que se refere aos ruídos do mundo. “E também em níveis culturais”, afirma Sara Maitland, autora do Livro do Silêncio. “As pessoas estão mais instadas a `falar sobre isso¿”, diz Sara, que passou anos pesquisando a nossa relação com o silêncio. Expor-se sobre tudo se tornou uma virtude, acredita. “Precisamos dar voz aos oprimidos, os homens precisam falar sobre suas emoções, as mulheres, articular sobre seus descontentamentos”, pondera Sara. Em uma era em que toda opinião é válida, todo mundo quer dar sua opinião: seja nas reuniões das empresas, nas mesas de restaurantes ou, mais recentemente e sem censuras, nas redes sociais.

Grito de liberdade

É o momento histórico em que vivemos, enlouquecido com a tecnologia – e, principalmente, com a possibilidade verborrágica dela. Empregamos a maior parte de nossas horas de vigília mandando mensagens de texto, enviando e-mails, tuitando e digitando em todos os tipos de telas que nossos dedos encontrarem pela frente. Nesse mar de informações, não queremos estar à deriva. É preciso ficar atento a qualquer ruído que nosso celular faça, em uma necessidade de nos sentirmos conectados às pessoas e ao mundo. Isso gerou uma dependência que simplesmente não conseguimos silenciar. “Hoje, é difícil terminar uma refeição com amigos sem que alguém recorra ao respectivo iPhone para se lembrar de algum fato cuja rememoração costumava ser de responsabilidade direta do cérebro”, afirma o escritor e ensaísta americano Jonathan Frazen. Se a tecnologia pode ter um benefício claro de terceirizar muitas das tarefas relegadas ao cérebro, como armazenar números de telefones, informações e compromissos, como em um hd externo da mente, ela de fato não liberou esse “espaço vago” para nos permitir mais quietude. “Só ajudou a aumentar a nossa ansiedade, o pior efeito colateral desse mundo barulhento”, escreve ele.

“Dizem-nos até que, para continuarmos economicamente competitivos, precisamos deixar de lado o ensino das humanidades e incutir em nossos filhos a `paixão¿ pela tecnologia digital, preparando-os para passar o resto da vida numa reeducação permanente, que lhes permita acompanhar as novidades”, pondera o escritor. Muitos pais têm levado isso a sério, criando agendas abarrotadas para seus filhos desde muito novos, que perpassam aulas de mandarim e até de informática, tudo em nome de um futuro profissional brilhante. As crianças têm tantos compromissos que lhes falta tempo para, simplesmente, brincar. E essa falta de tempo para o ócio é algo que vai sendo ensinado aos filhos, que, como bem disse o professor Roger Bohn no começo desse texto, desconhecem o valor do silêncio. Preocupado com esse novo ritmo da infância, que imprimia também à vida de seus próprios filhos, o jornalista britânico Carl Honoré escreveu um livro (intitulado Sob Pressão) contra a ideia dos superpais, que ajudou a dar força para um movimento que ficou conhecido como slow parenting, ou como educar sem pressa. O intuito é pregar a desaceleração da rotina das crianças, com menos compromissos e mais tempo para fazer nada, simplesmente para que possam ficar quietas e até mesmo entediadas. “Os pais que seguem esse movimento buscam oferecer tempo e espaço para que seus filhos explorem o mundo do seu próprio jeito, em seus próprios ritmos”, afirma o autor.

Da infância à vida adulta, a reeducação do tempo e da quietude tem se tornado algo cada vez mais urgente, inclusive (e curiosamente) nos meios corporativos. Grandes empresas, como Nike e General Mills, têm incentivado seus funcionários a ficarem sentados sem fazer nada e até lhes oferecem cursos para ensiná-los como fazer isso. Consultores têm sido contratados para ensinar técnicas de como fazer pausas antes de encarar tarefas mais complexas (como enfrentar reuniões ou até responder a alguns e-mails) até mentalizar votos de felicidade a colegas de trabalho com os quais a relação não é tão boa. “As pessoas têm muita dificuldade em parar, em ficar em silêncio. A nossa sociedade criou uma imagem de que o silêncio é improdutivo, enquanto temos percebido justamente o contrário”, afirma o empreendedor francês Loïc Le Meur, que criou um programa para quem quer aprender a se desligar. Trata-se de um aplicativo que, baixado pelo celular, reúne dez passos para você aprender a encontrar a pausa no seu cotidiano. Batizado de Get Some Headspace, ele se propõe a ajudá-lo a silenciar e a ter mais momentos de pausas no dia.

Testei o aplicativo para essa matéria e, apesar dele ter dicas interessantes, confesso que não passei do segundo passo. O celular apita, vibra, toca, o que me fez perder todo o foco e me gerar mais ansiedade pela coisa toda não funcionar como deveria – por mais que fosse por culpa minha. Outro aplicativo que promete ajudar na pausa diária é o gps4Soul, que também baixei e parece funcionar melhor. Ele apenas mede, pelo flash da câmera, seus batimentos cardíacos e diz como está seu ritmo. Se não por outro motivo, ele me fez parar entre um texto e outro, me deixando em silêncio por pouco mais de um minuto. O que, por si só, já é um ganho. Curioso é meu celular, motivo maior da minha ansiedade, se tornar justamente meu grito de liberdade. Ou sussurro, melhor dizer.

Ruído interno

O filósofo suíço Max Picard afirma que nada mudou tanto a natureza do homem quanto a perda do silêncio. O barulho – do trânsito, do aparelho de som do vizinho, das obras nas ruas, das buzinas, dos alertas dos nossos aparelhos eletrônicos – se tornou um dos nossos piores males. “O silêncio é o início de tudo. De onde surge a criação, a saúde física e mental, o bem-estar”, escreveu em seu livro The World of Silence (“O Mundo do Silêncio”, em tradução livre, sem edição no Brasil). Ele defende o silêncio como condição do pensamento e da expressão artística e criativa, e como condição irrevogável também para a nossa reflexão. “A nossa prática mental reflete muito nosso ambiente externo. Muitas pessoas vivem em cidades barulhentas, caóticas. E, em um mundo tão barulhento, estamos perdendo a capacidade de refletir, de pensar”, argumenta. “O ritmo acelerado e ruidoso causa muitas vibrações mentais, em que é difícil manter a coerência de pensamentos. Isso aumenta o nosso ruído interno”, diz. O desafio de se viver em um mundo tão barulhento é conseguir eliminar as distrações, se desplugar de meios de estímulo que nos chegam a todo momento. Algo como sintonizar o botão do rádio em busca de uma só frequência – e conseguir ouvi-la clara e nítida. Como em um pensamento.

O fotógrafo paulista Lucas Lenci decidiu traduzir em imagens essa sensação de quietude que nos escapa. Em 2007, passou a captar cenas e paisagens em que sentia uma ausência quase completa de sons e resolveu batizar a série de fotos de Desáudio, que acaba de ganhar um livro homônimo. Em imagens feitas no Japão, França, Inglaterra, Ilhas Maldivas e até São Paulo, Lenci fez uma ode ao silêncio. Em todas as fotos, ele esteve sozinho, quase sempre em momentos em que a presença humana era quase inexistente. “Para mim, o silêncio está ligado à questão da solidão. Sozinho é que eu encontrava a calma e a introspecção necessárias para captar o que eu me propus. Era quase um transe”, conta. Há pessoas em algumas fotos, e há também uma imagem em que um navio transatlântico (provavelmente repleto de tripulantes) é visto de longe, por trás de uma névoa. “O elemento humano sempre aparecia quando ajudava a compor a ideia de silêncio, nunca como protagonista. Há uma foto em que uma mulher está parada em um parque no Japão, enquanto outras pessoas estão sentadas juntas, conversando. Não se trata de um silêncio completo, mas aquela mulher representa o silêncio em meio aos demais. Ela está introspectiva em sua própria quietude”, diz Lenci.

Nesse sentido, o silêncio é uma abertura para a escuta do outro e, principalmente, de si mesmo. “Ele pode indicar um estado de atenção plena ao presente”, afirma o professor de Comunicação e Semiótica Cassiano Quilici, da Unicamp. “Refletir com clareza e profundidade exige um ‘espaço mental’ que você pode chamar de silêncio interno. Uma pessoa que está muito ansiosa, preocupada, raivosa etc., geralmente não pensa bem”, diz Cassiano. Quando nossa mente está falando demais, fica quase impossível ouvi-la. Exatamente como naqueles almoços de família em que todo mundo fala, mas você não escuta ou entende coisa nenhuma.

Força estranha

A grande questão é que ainda vemos o silêncio como uma ausência, um vazio, em vez de uma força autônoma e poderosa tão indispensável para a nossa vida. “Acreditamos, sim, que ele é fonte crucial para a criatividade e para a concentração, mas não o encorajamos na nossa sociedade, o tememos”, afirma Sara Maitland. O silêncio é quase um desconforto. No elevador, puxamos qualquer assunto idiota para não termos que sentir o peso de não falar nada em frente aos nossos vizinhos, as pessoas introspectivas e que não gostam de conversar são vistas como sociopatas nos grupos sociais, e até quando ficamos nervosos começamos a tagarelar sem parar. “O silêncio nos dá medo porque o vemos como uma não existência, um não pertencimento. Temos medo do silêncio como temos medo da morte, quase pelas mesmas razões”, ela acredita. E também porque o silêncio, por outro lado, nos obriga a nos ouvir – algo que muitas pessoas preferem evitar. “O barulho ajuda a abafar coisas que nem sempre queremos escutar”.

Mas muitas das forças que permeiam a nossa existência são silenciosas. A imensidão do espaço, a eletricidade, a gravidade, os raios de luz, a divisão das células do nosso corpo. Tudo é feito no mais completo sigilo. Conectar-se com o silêncio, portanto, é conectar-se com muitas das forças que determinam nossa vida. O ecologista acústico Gordon Hempton, nessas mais de três décadas tentando gravar os sons da quietude, aprendeu bem a conviver com o silêncio e entender sua importância. “Quando as pessoas me perguntam qual a sensação da tranquilidade absoluta que eu encontro nos lugares remotos que visito, pergunto se elas já viram a Via Láctea”, conta. “Há uma diferença enorme entre falar sobre o Universo e olhar para cima, e testemunhando a galáxia da qual fazemos parte – um oceano de estrelas tão grande que os itens de afazeres urgentes da minha agenda se encolhem todos de vergonha. Experimentar o silêncio é a mesma coisa. Falar sobre ele é algo muito menos significativo”. Algo que você levou mais de 2 mil palavras para concluir.

Lucas Lenci é fotógrafo, faz parte do projeto Fotospot e é neto de Peter Scheier, importante fotógrafo alemão que retratou o Brasil entre 1940 e 1970.

Rafael Tonon é colaborador da vida simples desde 2005, e assina não apenas matérias de capa, mas também textos sobre gastronomia.

Confira aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

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