Arquivo do mês: janeiro 2015

O Capa-Branca – Vice, 29 de janeiro de 2015

capa_-_o_capa-branca_-_baixa_resolu_o

Memórias do Capa-Branca: O Homem que Trabalhou e Foi Internado no Maior Hospital Psiquiátrico do Brasil

“Porque sou louco, né?”, Walter Farias dá uma gargalhada enquanto fala da sua rotina militar de remédios tarja preta com a mesma naturalidade em que conta sobre a vida pacata em Franco da Rocha. Toda vez que o aposentado começa um assunto sobre si mesmo, avisa calmamente a quem estiver ouvindo sobre sua sanidade mental duvidosa. Mesmo quando o assunto chega à rotina dura e triste do Juquery, o maior complexo psiquiátrico do Brasil, os olhos azuis permanecem calmos. É um tom similar ao encontrado em O Capa-Branca. Escrito a quatro mãos em parceria com o jornalista Daniel Navarro Sonim, o livro retrata suas memórias no hospital — primeiro como trabalhador e depois como paciente internado.

Todas as fotos são do Felipe Larozza.

A história de Walter por lá começa em 1972, quando ele foi aprovado no concurso público de atendente de enfermagem. Esses funcionários eram chamados internamente de “capa-branca” — uma alusão ao jaleco que lhes servia de uniforme. Enquanto funcionário, lidou com diversos tipos de pacientes, desde deficientes físicos a ilustres criminosos, como o Bandido da Luz Vermelha.

O Hospital Psiquiátrico Juquery, um dos mais antigos e maiores do país, nasceu na segunda metade do século XIX. Composto de 150 hectares, o terreno comportou milhares de indivíduos atingidos pelo processo de limpeza da sociedade (em sua maioria, prostitutas, desempregados, doentes mentais, viciados, ex-escravos, entre outros) que começa a se destacar com o desenvolvimento industrial e a chegada de imigrantes. Na década de 1970, atingiu 16 mil pacientes, o auge de sua lotação.

A fachadas e os prédios bonitos projetados pelo arquiteto Ramos de Azevedo escondiam o mau cheiro e a total falta de higiene que dominava o local. Os corpos esquálidos dos internos, que urinavam e defecavam nos colchões forrados de capim, eram devorados por insetos, deixando feridas em carne viva, as quais Walter tratou inúmeras vezes em incontáveis pacientes. “É engraçado. Lá tinha prédio para tudo, menos para controle de pragas. Isso era uma coisa que já fazia parte de lá,” lembra.

O plano inicial era encontrá-lo junto com o Daniel na frente da Prefeitura de Franco da Rocha para passear pelo munícipio e conversar sobre o livro. “Ele é um ótimo guia turístico,” avisou Daniel. Infelizmente, o papo acabou ficando em um boteco de pastéis perto da estação de trem, já que a fechadura do carro de Walter, que, segundo ele, “abre com qualquer chave”, emperrou.

Aquele lugar parecia uma maçã podre. Por fora, a casca era bonita e reluzente, com prédios e construções que eu nunca tinha imaginado que veria na minha vida. Do lado de dentro, a polpa estava podre e carcomida por vermes famintos. Um amontoado de homens pelados ou maltrapilhos com a cabeça raspada passava o dia perambulando pelas galerias e corredores, e povoava cada um dos pátios. -Trecho do Livro O Capa-Branca.

Para ele, porém, mais assustador do que as feridas, o cheiro e a imagem de dezenas de pessoas sendo seguradas no chão pelos funcionários para tomar eletrochoque (uma prática comum na época), era a loucura, que se mostrava mais contagiosa do que qualquer praga que se alastrava pelas colônias e pelos pavilhões do Juquery.”Você vê aquilo todo dia e isso acaba te dominando,” explica Walter.

Após sete anos como capa-branca e presenciando cenas que fariam até os mais fervorosos apoiadores da pena de morte tremerem, Walter foi gradativamente sendo dominado por um medo de trabalhar. A única opção era ser internado no mesmo local em que exercia sua função. E lá ficou como paciente durante um ano. “Lá eles te anulavam, tiravam suas roupas, seus dentes e seu cabelo. Você se tornava um zero,” conta.

“O boticão do dentista servia como método de prevenção contra mordidas que podiam ferir outros pacientes, funcionários ou eles mesmos. De uma só vez, todos os dentes eram arrancados sem qualquer tipo de anestesia.”

Após a própria temporada no inferno, Walter conseguiu ser aposentado por invalidez e hoje vive de sua pensão. Daí o ex-funcionário teve de lidar com a vida fora dos portões do manicômio junto com as sequelas trazidas de dentro. “Você sai de lá e você se torna o louco, o cara que foi internado.”

Hoje, foca-se em compor músicas (que já passam de 400) e elaborar invenções. Segundo ele, sua sanidade está sob controle. “Só quando eu começo a parar de dormir e de fazer a barba, que já é sinal [de] que eu estou desandando,” revela.

O livro começou a tomar forma quando Daniel Navarro assistia ao programa Casos de Família no SBT em 2007 e conheceu a história do ex-funcionário e ex-paciente. O tema do programa era “Sou esquisito, e daí?”. Walter contava sua trajetória no Complexo e falava sobre sua vontade de ficar em casa, quieto, compondo suas músicas. Daniel entrou em contato com a produção do SBT e, depois de um tempo, recebeu a notícia de que Walter queria conversar com ele.

Farias conta que mais duas pessoas, além de Daniel, foram atrás dele. “Uma era [uma] mulher milionária que me pediu para tirar o sapato antes de entrar na cobertura dela, na zona sul de São Paulo. Aí já não gostei.” Após ele enviar páginas de suas memórias escritas muito antes de conhecer Daniel, os dois começaram a trocar correspondências e produzir o livro, lançado em 2014 pela Editora Terceiro Nome.

“Nas primeiras vezes [em] que conheci o Walter, estávamos andando de carro por Franco da Rocha até que ele parou, puxou o freio de mão e me perguntou: ‘Você não tem medo de andar com um louco que toma mil remédios todos os dias?’. Respondi que não, e ele destravou o freio de mão e continuou a dirigir”,lembra Daniel. O início do trabalho de produção do livro (o primeiro de ambos) coincidiu com o jornalista ter passado uma temporada fora da capital e também se livrado de trabalhos estressantes. “Prefiro mil vezes ficar dias trancado no quarto do Walter ouvindo-o falar do que voltar para um trabalho cheio de gente neurótica,” sorri.

“Ainda não li o livro,” confessa Walter antes de contar sobre o Juquery. “Muita gente veio me falar que o livro é chocante, triste, mas não era o objetivo. Era para ser um livro light”, frisa, dando uma risadinha. Walter diz que não era sua vontade escrever um livro de denúncias, pois não quer expor a família dos pacientes que passaram por lá.

“Bastava os pacientes ouvirem as letras E, C, e T para morrerem de medo. ECT é a sigla de eletroconvulsoterapia — ou simplesmente eletrochoque. Antes de entrar no Hospital, não podia imaginar que aqueles louquinhos de cabeças raspadas recebessem choque elétrico. Só quando participei da primeira sessão me dei conta da crueldade daquela prática.”

“Você foi a única que não fez uma pergunta sobre os presos políticos que iam para o Juquery,” destaca o ex-capa-branca. “Me encheram o saco com essa pergunta, mas te digo que, quando aparecia gente assim, eles logo iam para os porões do Juquery e voltavam bobos. Lobotomia”, explicou.

Mesmo não sendo o objetivo dos autores, o livro não deixa de passar tristeza e uma solidão sem fim, especialmente porque grande parte dos pacientes que passava pelo Complexo na época só saía de lá dentro de um saco rumo ao cemitério de indigentes local.

“Na época, não existia uma diferenciação da loucura que nem hoje. Todo interno recebia o mesmo tratamento”, explica ele. “Não acho que era a maneira correta: foram pouquíssimas pessoas que vi saindo de lá com vida. Eu saí.”

Confira aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em O Capa-Branca

Nas tramas do crack – São Paulo Review, 28 de janeiro de 2015

nas_tramas_do_crack_-_capa

Na trilha do crack

Fundado em trabalho de campo realizado, em Campinas e em São Paulo, pela antropóloga Taniele Rui, durante dois anos e meio, o livro Nas tramas do crack (editora Terceiro Nome) traz revelações sobre o uso da droga, estimuladas pela audácia analítica da autora, por sua compaixão pelos sujeitos pesquisados, pela visão arrojada da pluralidade de relações e de dispositivos que envolvem o uso do crack. Apresentado como tese de doutorado, recebeu o Prêmio Capes de Tese 2013.

Leia a seguir um trecho do volume que acaba de ser lançado:

“Ao rés do chão, com passos

Descemos da Kombi branca da Secretaria de Saúde de Campinas. Eu, dois redutores de danos, uma médica e uma enfermeira. Era dia de vacinação contra tétano e também seria dada a primeira, das três doses necessárias, da vacina contra hepatite B aos usuários de drogas atendidos pelo PRD. Era meu primeiro dia de pesquisa e eu estava vestida tal qual a equipe havia me orientado (com uma camiseta não decotada, calça comprida e tênis). Caminhamos por uma trilha feita pelos passantes e chegamos à linha de trem. Ao longo dessa linha e de suas duas margens se iniciava o campo do Paranapanema.

Assim que comecei a andar pela linha, com passos que eram combinados com os espaços dos trilhos de ferro, minhas pernas tremeram. Entendi por que tinha de ir de tênis, embora as pessoas que cruzaram comigo depois estivessem descalças ou calçando chinelos. Aos pés, além dos trilhos, pedras e muito lixo. Nas duas margens da linha, o mato estava grande. Seguíamos os cinco pelo meio. Algumas passadas e comecei a ver os primeiros mocós: as pessoas abriam caminhos por entre o mato, colocavam fogo em algumas partes para diminuí-lo e faziam dali um lugar para o consumo de crack, maconha e cocaína. Era uma terça-feira, mais ou menos quatro horas da tarde. Algunsmocós estavam vazios. Fui em direção a um deles para melhor observar: muitos plásticos verdes e pretos recortados em formato quadrado pequeno, palitos de fósforo, isqueiros, restos de alimentos, roupas, cobertores, cartões telefônicos, alguns tocos de madeira, latas de alumínio grandes, latas de refrigerante, excreções humanas e sacolas plásticas despedaçadas. Além desses elementos comuns, cada um dos que fui vendo na sequência era organizado de um jeito. Um tinha compensados de madeira forrando o chão, evitando o contato direto com a terra. Em outro, cobertores foram amarrados entre dois galhos de árvore, buscando fugir do insistente sol de fevereiro. Passamos por uns três ou quatro vazios antes de eu ver alguém.

Quando vi as primeiras quatro pessoas acocoradas em roda, com cachimbos na mão, eu não soube como me comportar. Fiquei um pouco envergonhada, como que não querendo olhar. Achava que eu não tinha o direito de vê-las. Acabei por tentar me adequar ao modo como elas próprias se comportavam. Algumas nos cumprimentaram, recusaram a vacina e seguiram o que estavam fazendo. Outras viraram as costas para continuar o seu uso; para estas, os redutores não ofereceram vacina. Houve ainda aquelas que se mostraram receptivas, nos chamaram para ir até os seus mocós e enfatizaram a importância daquele trabalho: “só vocês mesmo para se preocupar com a gente e para vir neste lugar”. Essas começaram a chamar os amigos que passavam para tomar vacina também.

Logo já estávamos em uma roda de doze pessoas. E começamos então a ter conversas divertidas que giravam em torno do medo que alguns demonstravam diante da injeção. Enquanto um tomava a vacina, o restante prestava atenção na sua feição quando do contato da agulha com o braço. Aqueles que demonstravam dor, logo recebiam piadas irônicas dos outros. O clima começou a ficar descontraído. De minha parte, ajudei segurando um saco preto de descarte dos algodões sujos e uma caixa especial onde eram depositadas as seringas e as agulhas utilizadas.

Terminando o trajeto da linha de trem, embaixo de uma ponte, entramos por uma viela no bairro. Nas ruas seguintes à linha, as casas são autoconstruídas, algumas de madeira, outras de tijolos ainda no reboque; o acesso para as ruas principais é feito mediante uma escada. Olhando para cima, vê-se o emaranhado de fios que levam a energia elétrica para essas casas. Ruas de cimento colocado pelos próprios moradores, uma parte pequena ainda de terra; muitas crianças brincando. Andando por esse pedaço do bairro, tem-se a certeza de estar, como escreveu Tereza Caldeira (1984), no “local de moradia das camadas mais pobres da população”. Passamos pelas escadas, pelos canos que são colocados por fora das casas e andamos até as ruas mais largas; asfalto e iluminação pública começaram a aparecer. Andávamos e parávamos sempre que alguém queria tomar vacina ou conversar com os redutores. Um jovem negro veio nos contar que a polícia matara seu irmão na semana passada. Seguimos por duas praças, por cerca de quatro igrejas evangélicas de tipos, formatos e nomeações distintas, quatro bares, um depósito de materiais recicláveis, por pelo menos (que eu consegui identificar) cinco pontos de venda de drogas, alocados em esquinas estratégicas, e pegamos a perua, que nos esperava na segunda praça. Ao fim do bairro, uma faixa já desgastada estava estendida com os dizeres: “Alfavela: é simples, mas não é fácil. É de coração. Apoio: Família (2000-2008)”.

O trajeto todo durou quase três horas. Na contagem da redução de danos foram vacinadas 57 pessoas, todas elas classificadas como usuárias de drogas.

Assim que chegamos na sede do programa, fui orientada a também me vacinar contra hepatite B. Soube ali que essa vacina, na idade adulta, era oferecida gratuitamente apenas a grupos específicos, entre eles usuários de drogas e profissionais da saúde. No meu caso, a justificativa era de que eu estaria em constante contato com uma população vulnerável. Naquele dia, também eu tomei a primeira dose.

*

O estudo de uma área “pobre e degradada”, que “para o resto da cidade é uma área misteriosa, arriscada e deprimente” (Whyte, 2005, p. 19), ou “de um bairro de pobres cujo nome permanecia nas manchetes dos jornais como um dos focos da violência urbana, um antro de marginais e de bandidos” (Zaluar, 2000, p. 9) é um tema clássico e atual, que esteve na base da própria constituição da chamada antropologia urbana (no seu movimento de aproximação e distinção dos estudos da sociologia urbana), sobretudo se, tal como fez Frúgoli Jr. (2005), seguirmos um percurso intelectual que nos remete à Escola de Chicago e à (re)configuração desse campo de pesquisa no Brasil.

Diferentemente desses estudos, porém, eu não tinha a pretensão inicial de pesquisar um bairro, um conjunto de bairros nem mesmo uma área urbana específica; o meu interesse, como indicado no primeiro capítulo, era pesquisar usuários de drogas nos seus próprios contextos de uso. A maneira que julguei mais apropriada, de acordo com proposições teóricas e empíricas já explicitadas, foi acompanhar os programas de redução de danos, cujo trabalho implica em caminhar na direção dos usuários. Durante seis meses, percorri exclusivamente o trajeto do Paranapanema, de antemão já traçado pela equipe: seguíamos pela linha de trem, adentrávamos no bairro pelas vielas da favela, passávamos pela parte onde estão as casas com melhor infraestrutura e pegávamos o ônibus ao final do percurso (a perua Kombi, a médica e a enfermeira só comparecem em dias de vacinação – três vezes ao ano).

Como também já mencionado, a constante interação com essa equipe somada às mudanças no repasse de verba me levou a participar de seus outros campos de atuação. A partir daí, becos, praças públicas, cantos de rua, espaços cavados em meio à terra em toda a extensão de linhas de trem, viadutos, beira de córregos e construções abandonadas passaram a fazer parte do meu cotidiano de pesquisa em Campinas. Igualmente na “cracolândia”, em meio ao centro de São Paulo, os usuários de crack conviviam com a demolição de quarteirões inteiros, ficavam ao lado dos escombros, ocupavam prédios que literalmente caíam aos pedaços, enfim, coexistiam com grande quantidade de dejeto humano e urbano.

Inicialmente, fazer uma investigação em tais espaços exigiu de mim – o que já exigia dos redutores – esforço físico e certa habilidade de andar por trilhas, pedras, alguns relevos e subir em construções inacabadas que não tinham uma “porta” de entrada rente ao chão. Muitas vezes me dirigindo a tais locais, comecei a notar que eles eram compostos por uma instigante repetição dos mesmos objetos. Além de materiais de demolição que nunca foram retirados, havia também centenas de papéis que embrulham o crack, palitos de fósforo, isqueiros, restos de alimentos e de roupas, cobertores, cartões telefônicos usados para a separação das porções de crack ou cocaína, alguns tocos de madeira que usam para sentar, chapas de alumínio que servem de apoio para preparar e separar a droga, latas de refrigerante e embalagens de iogurte usadas como cachimbo, garrafas, excreções humanas. A repetição desses materiais, definitivamente, reorientou minha forma de caminhar pelas cidades: passei a andar de cabeça baixa, procurando tais elementos, em busca de pistas de onde os usuários pudessem estar. De maneira inconsciente, reproduzi os gestos que, na acepção de Ginzburg (1989), talvez sejam os mais antigos da história intelectual: observar resíduos, dados marginais e pormenores considerados sem importância e triviais.

Buscando falar com pessoas em incontáveis visitas, o que mais me marcava era a repetição dessa paisagem. Paisagem igualmente semelhante já chamara até a atenção de Richard Sennet, que, em seu belo ensaio sobre Carne e pedra, ou melhor, sobre cidade e corpo, dedicou uma especial atenção à “desdentada Rivington Street [em Nova York], cujas construções abandonadas servem de esconderijo aos viciados, que ali praticam sua roleta-russa” (2008, p. 359). Também Taussig teceu reflexões sobre esse “mundo dos mendigos, no qual o“terror encontra a perfeição”: “esparramados em cima dos montículos de lixo da cidade”, envoltos por “vidros quebrados, latas de sardinha, abas de chapéu de palha, pedaços de papel, couro, trapos, louça quebrada, livros encharcados, colarinhos, casca de ovo, excremento e inumeráveis manchas de escuridão”. Segundo Taussig, são esses entulhos, “signos espalhados da cidade”, que põem a nu a arbitrariedade do poder (1995, p. 28).

São ainda pórticos, no linguajar conceitual de Magnani, “espaços, marcos e vazios na paisagem urbana, que configuram passagem. Lugares que já não pertencem à mancha de cá, mas ainda não se situam na de lá; escapam aos sistemas de classificação de uma e outra e, como tal, apresentam a “maldição dos vazios fronteiriços”. Terra de ninguém, lugar de perigo, preferido por figuras liminares e para a realização de rituais mágicos – muitas vezes, lugares sombrios que é preciso cruzar rapidamente, sem olhar para os lados. (2002, p. 23)”

Como mostram as observações de Sennet, Taussig e Magnani, a ocupação de tais espaços não é propriamente uma novidade empírica, na medida em que parece compor tanto a paisagem e o cotidiano das grandes cidades quanto um cenário mítico de terror e arbitrariedade política. Ainda assim – ou justamente por isso, no caso da minha pesquisa –, não imaginei que esse pudesse ser um “dado” a passar despercebido em termos analíticos.

Pelo seu afastamento e, em alguma medida, isolamento, tornam-se tipos de espaço que garantem a possibilidade de privacidade no uso de crack – o que faz com que muitos usuários da droga sigam para eles apenas para consumir a substância, voltando depois para os seus afazeres ou para os lugares que consideram mais significativos. A fala de um usuário, colhida na linha do Paranapanema, é relevante para compreendermos a relação que tais pessoas podem estabelecer com o local:

Eu acordo e já fico louco, arrumo cinco reais e já venho comprar uma pedra e uso uma, duas horas, depende de quantas pessoas estão aqui pra dividir. Aí tenho que sair para a rua pra arrumar mais dinheiro, limpo as calçadas das pessoas que moram aqui perto, tiro a grama que cresce no cimento (nesse momento mostra suas mãos sujas, calejadas e ásperas), e elas me ajudam, dão um, dois reais, e eu vou juntando. E quando eu volto pra cá eu não paro mais. Fico aqui até meu corpo não aguentar. Dois, três dias diretos. Sem comer, sem beber, sem dormir. Daí paro, dou um tempo, volto para a minha laje, durmo dois dias seguidos, como e depois venho para cá de novo. 

O estado descrito no qual se fica usando crack “dois, três dias diretos, sem comer, sem beber e sem dormir” é chamado pelos usuários da droga de hibernação. Quando fiz a pesquisa junto aos meninos e meninas em situação de rua, era muito comum, ao perguntar sobre algum deles que não via há um tempo, obter como resposta: “ele está hibernado, tia, já já ele volta”. Na região da “cracolândia”, relatos semelhantes de que “faz cinco dias que eu não durmo” eram igualmente frequentes. Em alguma medida, penso que esse estado contínuo de hibernar e “voltar a si” pode ser indicativo da gestão que fazem sobre o uso, uma vez que o “voltar a si” parece indicar um cálculo e um reconhecimento do estado corporal e da fragilidade física. É também uma forma pela qual o usuário de crack reconhece os riscos a que se expõe quando em contato direto e intenso com a substância – o que abordarei no capítulo V. Nesse sentido, pela sua própria especificidade espacial, a linha de trem, por exemplo, se torna um lugar que propicia tal estado de hibernação. Afastada do centro da cidade, bem como dos olhares dos transeuntes e dos policiais, os usuários da droga têm ali um local onde podem usar o crack e experienciá-lo na sua forma mais extrema e radical, nesse contínuo movimento de hibernar, dar um tempo, se cuidar e voltar a hibernar.

Também chama a atenção na fala desse usuário a separação entre a linha de trem (onde hiberna) e a sua laje, no caso dele a laje de um supermercado não muito distante dali (para onde volta quando quer se cuidar). Conhecido do proprietário, ele fica no local e, nos dias em que dorme lá, oferece “segurança”. Essa laje é a sua referência de morada: é para onde volta depois de ter consumido crack em demasia. Nota-se, pois, que o movimento de interrupção do uso implica um afastamento do espaço de consumo. Ou seja, ainda que alguns usuários passem, por exemplo, pela linha de trem apenas para comprar drogas ou para um consumo rápido, o local também permite aos usuários contínuos da substância se estabelecerem aí durante muitas horas dos seus dias sem ser, contudo, um lugar eminentemente de moradia. Por sua vez, tal constatação não impede que muitas pessoas, em determinado momento de sua trajetória de uso, fiquem ali a maior parte de seu tempo. Mas o que interessa é que, uma vez se estabelecendo com frequência nesse espaço, acabam por se inserir em redes de relações e de prestações sociais infinitas e desenvolvem aproximações provisórias fundamentais para a sobrevivência física.

Especialmente no que tange às atividades que se ligam aos mercados ilícitos, o fenômeno da territorialização não é nenhum pouco banal. Como já mostrou Michel Misse (2007), é verdade que as redes sociais que interligam mercados legais e ilegais não necessariamente adquirem contornos espaciais; sabe-se que elas percorrem completamente todo o conjunto do tecido social, econômico e político tanto local quanto global. Contudo, diz Misse, quando algum contorno espacial se desenha, quando uma territorialização pode ser identificada, a questão parece ganhar uma dimensão política completamente diferente daquela que existe de forma pulverizada. O autor nos fala ainda que, se por um lado essa territorialização reforça estereótipos e estigmatiza importantes segmentos sociais do espaço urbano, por outro ela cria novas redes de sociabilidade que emergem das relações de poder que demarcam esses territórios.

Para abarcar tais espaços na complexidade que os encerra, não optei por uma versão específica de antropólogo nem por uma concepção estrita da antropologia, entre a pesquisa das cidades ou nas cidades, entre um olhar panorâmico ou um olhar de perto e de dentro (Magnani, 2002) – discussão que, ao fim, só parece indicar uma tomada de partido analítica e ignorar aquilo que desde Simmel (1983) já aprendemos, isto é, que as relações espaciais são produto, condição e símbolo das relações humanas. Desse modo, considero mais interessante entender a dinâmica de tais espaços na interação deles com os usuários de crack e com outros atores urbanos.

Pois, assim como os corpos desses usuários, também tais espaços se tornam abjetos, imitam e propulsionam a ambiguidade: locais onde consumidores da droga podem encontrar abrigo e proteção durante o uso, também oferecem perigo para eles e para os que por ali passam; são alvos de violência e promotores dela. Os usuários estão lá ora porque foram expulsos de outros lugares, ora porque os tomaram como refúgio, espécie, portanto, de degredo e autodegredação.

Seguindo meus propósitos, julguei não ser conveniente perguntar sobre os motivos que fizeram os usuários de crack se dirigirem para tais espaços, pela simples razão de que os motivos que os levaram para lá não são os mesmos que os fizeram permanecer. Avaliei ser mais proveitoso indagar como, com quem e de que modo eles estabelecem relações estando ali, pois, uma vez em tais espaços, não há como ignorar o fato de que têm que criar e contar com aproximações conjunturais, necessárias, no limite, para a manutenção da vida.

De modo ainda mais abstruso, o exame de tais espaços carrega o desafio de enfrentar, a despeito da semelhança visual dos materiais e dos lugares, as diversas territorialidades que cada um deles especifica – o que nos tira da semelhança das abstrações formais e nos devolve ao emaranhado das interações concretas. Visando perseguir tal desafio, organizei esta segunda parte do livro de modo a apresentar ao leitor, nos capítulos subsequentes, três cenários de uso: a linha de trem do Paranapanema, o prédio da Vila Industrial (ambos na cidade de Campinas) e o espaço público conhecido como “cracolândia”.

A escolha por tais espaços correspondeu mais aos meus escopos interpretativos que propriamente a um critério comparativo, balizado pela igual quantidade de material empírico. Os três espaços são muito distintos nesse aspecto. Passei cerca de quinze meses indo ao Paranapanema, seis meses indo à “cracolândia” e apenas um único dia visitei o prédio da Vila Industrial. Igualmente, as informações e estudos sobre esses espaços não se equivalem: quase nada encontrei sobre os dois primeiros, uma vez que, diferentemente da capital paulista, a cidade de Campinas e os dois bairros em tela pouca atração exercem. Desse modo, muito do que descobri sobre eles se deve aos jornais locais. O contrário pode ser dito sobre a “cracolândia”: junto a investimentos midiáticos, imobiliários, políticos e sanitários, há paralelos investimentos acadêmicos. Ainda, a opção pelos cenários narrados não se resume aos locais visitados. Fui em pelo menos mais quinze. Descrever todos é tarefa da ordem do impossível.

O objetivo da escolha desses três é, portanto, outro e, lembrando o já escrito, incorre em uma tentativa de interpretação. A partir da descrição das distintas interações que mais marcadamente caracteriza cada um deles, pretendo colocar em relevo três territorialidades de uso de crack, visando argumentar que, embora criem paisagens aparentemente semelhantes, um olhar mais aguçado nos permite concluir, de outra via, que faz diferença consumir crack e produzir tal territorialidade em uma linha de trem próxima a um bairro de intenso comércio de drogas em consonância com as orientações do PCC, em uma construção abandonada em um bairro residencial ou em um local público tal como o é a “cracolândia”. Meu argumento é o de que, uma vez se estabelecendo nesses locais, os usuários de crack evocam limites em interações específicas, que envolvem níveis distintos e diferenciados de violência física e simbólica, gestão social e policial, segregação espacial e moral. Em suma, a razão de tal escolha é mostrar que cada um desses territórios torna tais usuários abjetos de um tipo de relação.

*

Antes de entrar nas descrições que enfrentam as hipóteses mencionadas, é preciso ainda salientar que tais locais, longe de se configurarem apenas espaços de observação, me ofereceram, sobretudo, os parâmetros da interação. Em duas ocasiões, enquanto caminhava por outros espaços da cidade de Campinas, encontrei os usuários de crack com os quais estabeleci contato ao longo das visitas. Na primeira vez, eles não me cumprimentaram. Na segunda, eu tentei a aproximação, saudando a pessoa pelo nome. Ela, especificamente, veio me perguntar de onde eu a conhecia, e respondi: “da linha de trem. Do Programa de Redução de Danos, lembra?”. Em troca, ouvi apenas um “ah!”. Ela demonstrou certo constrangimento e saiu andando. Não gostava de ser reconhecida por aquilo. O contrário também se passou. Muitos adolescentes e adultos, os quais já conhecia anteriormente através de instituições assistenciais, ficaram muito desconfortáveis ao me verem nesses espaços de usos. Pessoas que frequentavam o É de Lei, assim que me viam na “cracolândia”, tentavam justificar por que estavam ali. Na primeira oportunidade, logo vinham pedir desculpas por estarem “naquela situação”. Tais encontros me fizeram atentar para o fato não menos relevante de que também nossa relação era espacialmente marcada. Tratava-se, portanto, de uma interação que só era possível – desejável (ou não) – naquele contexto de uso.

Já para seguir, previno os que leem de que muitos nomes de pessoas e de lugares aparecerão no desenrolar dos dois capítulos subsequentes. Mais que configurarem uma generalização, o intuito é oferecer um vislumbre da heterogeneidade de tipos sociais que compõem o cotidiano desses espaços e, também, indicar as questões surgidas ao longo dessa curiosa sucessão de pessoas e paisagens.”

Confira aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em Nas tramas do crack

Imagem-violência – Canal do professor Samir Lahoud, 27 de janeiro de 2015

imagem-violencia_final

Videocast do professor Samir: Tendo como objeto de análise um conjunto de filmes lançados nos anos 1990, tais como Cães de aluguel e Pulp fiction, de Quentin Tarantino, Fargo, dos irmãos Coen, A estrada perdida, de David Lynch, Violência gratuita, de Michael Haneke e outros, Rose Satiko Gitirana Hikiji mostra neste livro como a violência não é apenas um tema da sociedade contemporânea que se reflete no cinema, mas também uma linguagem comum a ele, exposta na forma de suas imagens.

Imagem-violência: etnografia de um cinema provocador é uma pesquisa ousada no campo da antropologia visual. Nessa abordagem, os filmes têm sido pensados como produtos culturais que veiculam representações, recortam e organizam a experiência social, contam histórias, tempos, lugares, sentimentos e perspectivas e sintetizam visões de mundo.

Tema consagrado nos nossos mais diversos meios de expressão artística – nas artes plásticas, na dramaturgia clássica e contemporânea, nos contos de fadas, na literatura de terror etc. – a violência é aqui analisada de uma forma nova: por meio de montagens, desmontagens, fragmentos fílmicos e de uma interessante abordagem sobre o riso do espectador.

Assista aqui ao vídeo

Confira aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em Imagem-Violência: etnografia de um cinema provocador

Gente do Mar – Sabores da Cidade, 29 de dezembro de 2014

gente_do_mar_-_capa

Livro retrata cotidiano de comunidades caiçaras de norte a sul do Brasil

Historiador e fotógrafo viajaram pelo litoral do país em busca das tradições culinárias e do modo de vida de comunidades que resistem ao avanço da pesca industrial e do turismo predatório

O historiador Ricardo Maranhão e o fotógrafo Fabio Colombini percorreram o litoral do Brasil, desde o Pará até o Rio Grande do Sul, enfrentando estradas precárias e pequenas embarcações, para conhecer 25 comunidades de pescadores. O resultado dessa pesquisa, que durou um ano e meio, é o livro Gente do mar (Terceiro Nome, 2014). A obra, com textos em português e inglês, resgata as atividades de pesca e as práticas gastronômicas desses grupos que há séculos constroem com uma série de conhecimentos e práticas que respeitam o meio-ambiente.

Ricardo Maranhão ressalta que a cultura desses homens do mar, vinculada a uma ocupação discreta e respeitosa do meio ambiente, possui uma riqueza capaz de ensinar aos brasileiros um “modus vivendi” mais próximo à natureza. “Infelizmente, em muitos lugares de nosso litoral, o turismo predatório e as técnicas de pesca industrial vem expulsando inúmeras famílias de pescadores e descaracterizando sua existência”, completa, Maranhão. O livro mostra que existe uma realidade que pode ser aproveitada por um turismo inteligente, utilizando a sabedoria dessa gente do mar em um Brasil tão rico de diversidades.

Gente do Mar foi realizado com apoio da Lei Rouanet e patrocínio do Banco Volkswagen.

Os autores

Ricardo Maranhão é doutor em História pela USP, ex-professor da UNICAMP, professor de História da Gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi, foi palestrante em universidades do Canadá, da França, da Bélgica, da Holanda e da Alemanha. É autor e/ou organizador de 23 livros publicados de História e de dezenas de artigos em publicações especializadas, além de livros específicos sobre História da Gastronomia, como The Arab Influence in Brazilian Life (ed. Global, Prêmio Cookbook Award de Paris, 2011); publicou também, em parceria com Vallandro Keating, Caminhos da conquista – A formação do espaço brasileiro e Diário de navegação – Pero Lopes e a expedição de Martim Afonso de Sousa (1530-1532), ambos pela Terceiro Nome.

Arquiteto formado pela FAU-USP e fotógrafo autodidata, o paulistano Fabio Colombini há 30 anos registra os diferentes ecossistemas brasileiros. Dentre os prêmios que recebeu destacam-se os da Organização dos Estados Americanos (OEA), da Fundação SOS Mata Atlântica, do World Calendar Awards (Illinois – EUA) e do National Geographic Channel, além do Prêmio Verde das Américas – Greenmeeting, recebido em 2011 pela contribuição para o desenvolvimento e preservação ambiental. É conselheiro da Associação de Fotógrafos de Natureza (AFNATURA) e suas imagens compõem o acervo dos institutos Moreira Salles e Itaú Cultural.

Confira aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em Gente do mar

Nas tramas do crack – Folha de S. Paulo (Cotidiano), 25 de janeiro de 2015

Folha de S Paulo - Cotidiano - 25jan2015

Confira aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em Nas tramas do crack

O soprador – Vitruvius, janeiro de 2015

O Soprador

O padeiro e o sopro divino

Abilio Guerra

No célebre item 9 das suas Teses sobre a filosofia da História, Walter Benjamin cria uma alegoria a partir do quadro Angelus Novus, de Paul Klee:

“Nele está representado um anjo, que parece querer afastar-se de algo a que ele contempla. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão prontas para voar. O Anjo da História deve parecer assim. Ele tem o rosto voltado para o passado. Onde diante de nós aparece uma série de eventos, ele vê uma catástrofe única, que sem cessar acumula escombros sobre escombros, arremessando-os diante dos seus pés. Ele bem que gostaria de poder parar, de acordar com os mortos e de reconstruir o destruído. Mas uma tempestade sopra do Paraíso, aninhando-se em suas asas, e ela é tão forte que ele não consegue mais cerrá-las. Essa tempestade impele-o incessantemente para o futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto o monte de escombros cresce ante ele até o céu. Aquilo que chamamos de Progresso é essa tempestade” (1).

A mescla do discurso político materialista de base marxista e a teologia oriunda da Torá judaica presente nesta magnífica alegoria da História manipula com astúcia o tom épico e a mensagem trágica, com ecos das narrativas bíblicas. O vento tempestuoso que brota no paraíso impulsiona o anjo para um futuro desconhecido, enquanto as mazelas do presente se amontoam sem cessar “diante dos seus pés”. Os olhos arregalados do anjo vislumbram uma história humana sem sentido, desarrazoada, abandonada pela divindade. O seu desejo de uma nova chance não passa de uma promessa inócua de redenção.

Não seria abusado afirmar que visão trágica da história presente na tese benjaminiana, em grande medida reflexo da condição judaica no século 20, é a pauta do pequeno romance O soprador, escrito a quatro mãos por Michel Gorski e Sílvia Zatz. Uma pauta de linhas desbotadas, quase apagadas, mas que estão lá, o tempo todo, e sobre as quais são escritas as melodias e oleitmotiv é desenvolvido. As forças da história são enunciadas como rumores ou, para ser mais preciso, como coisas consabidas, sobre as quais não há muito mais o que falar. Afinal, o que falar sobre as ignomínias humanas encenadas pelo nazismo ou pela ditadura argentina, experiências vívidas nas memórias dos personagens centrais, o velho Berko Kotler e seu filho Leopoldo?

Berko, cujo acaso de ser um bom padeiro lhe possibilitou passar incólume por diversos campos de concentração, sintetiza inúmeros judeus que se envergonharam por ter sobrevivido ao Holocausto. Leopoldo, que passou três anos preso pelos militares argentinos sem nada ter feito de “errado”, repete a história do pai ao sofrer uma pena injusta. Homens comuns, sem nenhum tino para atos heróicos, ambos recebem a maior punição que um homem pode sofrer: a solidão. Após a libertação do campo de concentração, Berko conhece a fundo a “solidão da alma, uma sensação de abandono, de estar totalmente perdido em meio a um mundo devastado e inóspito” (p. 89). Leopoldo, em sua cela, compreendeu que “estava só. Completamente só”, apesar da proximidade de outros presos (p. 120).

Talvez aqui resida a primeira chave de compreensão desse romance estranho, que abriga simplicidade narrativa e complexidade de significados. O passar do tempo irrecorrível, que a tudo degrada e extingue, que a todos impinge dores e sofrimentos, tem no “estar junto do outro” um sucedâneo momentâneo. São várias as passagens que trazem esta questão à tona, mas a mais bonita em sua singeleza é a confraria “os músicos de Bremen”, apelido dado por Fany, mãe de Leopoldo, para o grupo formado por seu esposo Berko e três amigos da comunidade judaica de Buenos Aires – Schmulik, Bergel e Meilech –, que se reúnem cotidianamente para passar o tempo. “Quem sabe se essa relação sólida construída ao longo do tempo não será capaz de afugentar toda a tristeza da vida? Ainda que seja por meia hora a cada dia, regada a vodca e bialys quentinhos?” (p. 76). Outra passagem, que tem Leopoldo e sua aluna Bia – uma militante política de esquerda – como protagonistas, ilustra a importância do “estar junto do outro” como resistência ao passar do tempo devorador. Após tórrido ato sexual, Leopoldo afirma que era “como se precisássemos extrair todo o possível daqueles momentos, como se me jogassem na cara todo o tempo a evidência da impermanência das coisas” (p. 100).

É nessa cifra da simplicidade da vida que se insere o bialy, um pão típico da comunidade judaica de Bialystok, no interior da Polônia. Berko faz parte de uma dinastia de padeiros que transmite há pelo menos cinco gerações, de pai para filho, o segredo do preparo do pão típico. Leopoldo, professor universitário antes da prisão, foi distanciado da profissão pela mãe, que lhe desejava um futuro afastado dos fornos e do cotidiano entediante do ofício. Com o desenrolar das ações e sua reaproximação do pai, sente-se culpado, como se “tivesse rompido um elo, interrompido uma corrente” (p. 40). Em outro momento, afirma categórico: “eu quebrei esse elo, essa cadeia” (p. 115). Esta é uma segunda chave de entendimento do romance: a importância fundamental da transmissão do legado cultural pela filiação (inclusive dos nomes, com os Leopoldos e Fanys que se repetem através das gerações), uma questão compartilhada com a humanidade em geral, sempre convulsionada por cataclismos naturais ou humanos, mas especialmente significativa para um povo fadado à diáspora. “Na terra nova de cada um, os filhos nem falam mais a mesma língua que os pais” (p. 80).

Já está mais do que hora de mencionar que Leopoldo, o professor universitário, é o narrador do livro. Como aquele que acompanha o raciocínio até aqui pode supor, este não é um fato corriqueiro; Leopoldo Kotler não é um narrador qualquer. No início se engaja na aventura do pai – que resolve voltar à cidade natal – por obrigação, quase a contragosto. O papel que se atribui, de registrar o desenvolvimento dos fatos, é condizente com sua formação universitária, mas ele só se descobre como um narrador adequado quando compreende a fundo as motivações do pai, um sobrevivente que havia se refugiado no acolhedor calor do seu forno de pães. Despertado para a vida pelo falecimento da esposa – caro leitor, não fique preocupado, essa informação não vai lhe tirar o prazer da leitura! –, o velho Berko assume para si um compromisso: “aquilo que ele jurou jamais fazer, voltar à Polônia, tornou-se, de repente, uma obrigação” (p. 34). Confessa a si próprio e aos outros: “Eu fiz minha obrigação, fiz o que precisava ser feito há muito tempo, uma mitzvá” (p. 30). Apartado da transmissão do ofício, Leopoldo descobre na narrativa a possibilidade de pertencimento e assume para si o motivo dado pelo pai para seus atos radicais: “pelos que vieram antes de nós, e para os que virão depois” (p. 30).

Leopoldo se habilita também a compreender a ambígua relação entre memória e esquecimento. Para aqueles que sofreram na própria pele e/ou na profundeza da alma a maldade humana em estado puro entendem o papel terapêutico da amnésia (2). “Nunca entendi quando ele dizia que colocar ‘as mãos na massa’ lhe causava uma sensação de esquecimento” (p. 72), afirma em um primeiro momento o filho, para depois, com clarividência, constatar: “suportar martírios terríveis e esquecer o que foi vivido para preservar sua sanidade” (p. 88). Portanto, o papel do narrador não é contar tudo, sem critério, em uma espécie de celebração inconseqüente da verdade a qualquer custo. O narrador muitas vezes deve saber silenciar diante das forças instransponíveis que negam a vida. Narrar é transmitir uma herança, legar ao futuro um sentido para a vida, uma razão de existir.

Esta constatação que chega o leitor durante a leitura o coloca diretamente em contato com os autores do romance, que agrupam suas experiências e as acomodam em uma história com começo, meio e fim, mas que são movidos por uma intenção maior: demonstrar a importância da vivência e de sua transmissão pela narrativa. Recorto um trecho maior, para que não se perca a beleza da passagem e para que o próprio texto comprove minhas afirmações:

“Não lembro exatamente o quanto contei a Claudine dessa história toda, quais os trechos mencionados, a quantidade de detalhes e a qualidade das descrições, mas é como se ali mesmo eu entendesse que de algum modo aquela era a minha história também, uma herança que me impregnava cada vez mais profundamente e talvez de uma forma definitiva. Espero que um dia você possa entender o que estou falando, sentir de verdade que esta história também é sua. É por isso que escrevo” (p. 91).

O “você” é Claudine, a repórter francesa que fará uma matéria sobre as peripécias do pai, mas pode ser um filho ainda inexistente ou mesmo você, caro leitor.

Sendo o já descrito papel da narrativa a terceira chave de compreensão deste romance, podemos passar para a quarta e última (mas, sem antes deixar de mencionar o óbvio: as chaves de leitura aqui apontadas são em grande medida imaginadas para abrir portas do meu próprio castelo; neste sentido, se explica por si só o fato de não ser abordada aqui a importância do idioma francês neste romance, afinal, não falo francês e nem de coisas que não sei).

Em um dado momento, ao descrever as carícias recebidas de Bia, sua amante, Leopoldo se expressa assim: “eu era um boneco que tinha acabado de receber o sopro divino” (p. 105). Ora, na tempestade que sopra do Paraíso não há ordem, bondade ou finalidade edificante. De onde então viria este “sopro divino”? Ao que tudo indica, ele brota da relação entre os homens movida pela bondade, mobilizada pelos valores da comunidade e do pertencimento. Leopoldo, ao reconhecer no pai a capacidade de produzir o “sopro divino” nas situações comezinhas do dia-a-dia, não só justifica o título do romance, mas também lhe dá a devida substância: “Esse jeito de assoprar era sua marca registrada, e era reconhecível em diversos momentos da nossa rotina. Assoprava meus machucados, quando eu era pequeno, e eu tinha a sensação de que era um sopro mágico, capaz de curar qualquer doença” (p. 73-74).

Como tudo o que é elevado e abstrato é convertido em prosaico e episódico neste romance, posso encerrar minhas considerações com a cena onde Berko, o Soprador, se encontra com Irena (ou Claudine, mas não vou explicar o motivo da duplicidade…), a repórter francesa, cena que sinaliza a crença no afeto, na fraternidade e na luta perene frente às forças desagregadoras da temporalidade:

“Tirando um bialy quentíssimo da assadeira com sua mão de dedos grossos, abriu-o ao meio, observou, assoprou com calma. Quando ia levar o primeiro pedaço à boca, Irena o interrompeu, triunfante, apanhando o pão antes que o velho o mordesse e dizendo celui-ci est à moi” (p. 133).

Leia aqui a resenha na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em O soprador

Desaudio – Vida Simples, 1º de janeiro de 2014

Desaudio - COLEÇÃO FOTOLIVROS EM PARCERIA COM O ESTÚDIO MADALENA

Silêncio, por favor

Em um mundo que não para de falar, o silêncio realmente vale ouro – e tem sido mais difícil de explorar do que o diamante. Mas é possível, sim, achar a quietude na nossa vida. Descubra como.

Não é curioso (e até paradoxal) que tenhamos usado mais de 2 mil palavras justamente para escrever uma reportagem sobre silêncio? Pois é, por mais estranho que pareça, o silêncio se tornou um assunto caro e nada simples nesses dias atuais. Tem sido cada vez mais difícil buscar momentos de quietude justamente em um mundo que não para de falar e que tem falado cada vez mais. Opa, não sou eu que estou dizendo: segundo um estudo feito no Centro da Indústria de Informação Global, na Universidade da Califórnia, foram trocadas 4,5 trilhões de palavras nos Estados Unidos no ano de 1980. Em 2008, esse número cresceu 140% – os computadores do Centro estimaram que os americanos usaram 10,8 trilhões de palavras no ano do último levantamento. “Nós certamente recebemos mais informações do que podemos absorver ou realmente ouvir”, afirma o diretor Roger Bohn. “É curioso pensar que as novas gerações que já estão sendo criadas com seus smartphones nas mãos nunca tenham, de fato, vivenciado o silêncio pleno”, diz.

Aliás, é difícil lembrar a última vez que nós mesmos vivenciamos essa plena quietude. Se você teve um final de ano tão corrido quanto o meu, sabe do que estou falando. “O silêncio está em extinção”. Vinda de qualquer pessoa, a frase poderia soar simplesmente como uma queixa rabugenta. Vinda de Gordon Hempton, no entanto, ela tem muito a nos dizer. Quando ainda era universitário, aos 27 anos, ele fazia uma viagem de Seattle a Washington, nos Estados Unidos, quando resolveu parar na estrada para descansar um pouco. Desceu do carro, caminhou até uma área verde e deitou na grama. Foi então que ouviu o ruído do que deveria ser um grilo. “Essa foi a primeira vez que eu realmente o escutei”, diz ele. A partir de então, Hempton se tornou um ecologista acústico e, nos últimos 30 anos, deu a volta ao mundo três vezes para buscar os mais variados sons da natureza – aqueles que só surgem no mais intocado e profundo silêncio. Muito mais do que centenas de gravações raríssimas (muitas delas disponíveis no iTunes), a experiência o ajudou a encontrar o lugar mais silencioso dos Estados Unidos, uma área de “uma polegada quadrada” (ou cerca de seis cm2) localizada em uma zona de floresta no Parque Nacional Olímpico, no Estado de Washington. Segundo ele, um dos pouquíssimos lugares do país (e do mundo) isolado de ruídos causados pelo homem.

Uma polegada quadrada de silêncio não é apenas simbólica. Nós deliberadamente fomos eliminando qualquer medida de silêncio das nossas vidas. “A modernidade é necessariamente barulhenta”, ele diz. Trocamos os motores dos carros pelas turbinas do avião, a toalha pelo secador de cabelo, a vassoura pelo aspirador. Nada está se tornando mais silencioso. Até em lugares sagrados ou introspectivos, o silêncio se tornou opressivo em vez de valioso. Algo está mudando nos níveis físicos e sociais no que se refere aos ruídos do mundo. “E também em níveis culturais”, afirma Sara Maitland, autora do Livro do Silêncio. “As pessoas estão mais instadas a `falar sobre isso¿”, diz Sara, que passou anos pesquisando a nossa relação com o silêncio. Expor-se sobre tudo se tornou uma virtude, acredita. “Precisamos dar voz aos oprimidos, os homens precisam falar sobre suas emoções, as mulheres, articular sobre seus descontentamentos”, pondera Sara. Em uma era em que toda opinião é válida, todo mundo quer dar sua opinião: seja nas reuniões das empresas, nas mesas de restaurantes ou, mais recentemente e sem censuras, nas redes sociais.

Grito de liberdade

É o momento histórico em que vivemos, enlouquecido com a tecnologia – e, principalmente, com a possibilidade verborrágica dela. Empregamos a maior parte de nossas horas de vigília mandando mensagens de texto, enviando e-mails, tuitando e digitando em todos os tipos de telas que nossos dedos encontrarem pela frente. Nesse mar de informações, não queremos estar à deriva. É preciso ficar atento a qualquer ruído que nosso celular faça, em uma necessidade de nos sentirmos conectados às pessoas e ao mundo. Isso gerou uma dependência que simplesmente não conseguimos silenciar. “Hoje, é difícil terminar uma refeição com amigos sem que alguém recorra ao respectivo iPhone para se lembrar de algum fato cuja rememoração costumava ser de responsabilidade direta do cérebro”, afirma o escritor e ensaísta americano Jonathan Frazen. Se a tecnologia pode ter um benefício claro de terceirizar muitas das tarefas relegadas ao cérebro, como armazenar números de telefones, informações e compromissos, como em um hd externo da mente, ela de fato não liberou esse “espaço vago” para nos permitir mais quietude. “Só ajudou a aumentar a nossa ansiedade, o pior efeito colateral desse mundo barulhento”, escreve ele.

“Dizem-nos até que, para continuarmos economicamente competitivos, precisamos deixar de lado o ensino das humanidades e incutir em nossos filhos a `paixão¿ pela tecnologia digital, preparando-os para passar o resto da vida numa reeducação permanente, que lhes permita acompanhar as novidades”, pondera o escritor. Muitos pais têm levado isso a sério, criando agendas abarrotadas para seus filhos desde muito novos, que perpassam aulas de mandarim e até de informática, tudo em nome de um futuro profissional brilhante. As crianças têm tantos compromissos que lhes falta tempo para, simplesmente, brincar. E essa falta de tempo para o ócio é algo que vai sendo ensinado aos filhos, que, como bem disse o professor Roger Bohn no começo desse texto, desconhecem o valor do silêncio. Preocupado com esse novo ritmo da infância, que imprimia também à vida de seus próprios filhos, o jornalista britânico Carl Honoré escreveu um livro (intitulado Sob Pressão) contra a ideia dos superpais, que ajudou a dar força para um movimento que ficou conhecido como slow parenting, ou como educar sem pressa. O intuito é pregar a desaceleração da rotina das crianças, com menos compromissos e mais tempo para fazer nada, simplesmente para que possam ficar quietas e até mesmo entediadas. “Os pais que seguem esse movimento buscam oferecer tempo e espaço para que seus filhos explorem o mundo do seu próprio jeito, em seus próprios ritmos”, afirma o autor.

Da infância à vida adulta, a reeducação do tempo e da quietude tem se tornado algo cada vez mais urgente, inclusive (e curiosamente) nos meios corporativos. Grandes empresas, como Nike e General Mills, têm incentivado seus funcionários a ficarem sentados sem fazer nada e até lhes oferecem cursos para ensiná-los como fazer isso. Consultores têm sido contratados para ensinar técnicas de como fazer pausas antes de encarar tarefas mais complexas (como enfrentar reuniões ou até responder a alguns e-mails) até mentalizar votos de felicidade a colegas de trabalho com os quais a relação não é tão boa. “As pessoas têm muita dificuldade em parar, em ficar em silêncio. A nossa sociedade criou uma imagem de que o silêncio é improdutivo, enquanto temos percebido justamente o contrário”, afirma o empreendedor francês Loïc Le Meur, que criou um programa para quem quer aprender a se desligar. Trata-se de um aplicativo que, baixado pelo celular, reúne dez passos para você aprender a encontrar a pausa no seu cotidiano. Batizado de Get Some Headspace, ele se propõe a ajudá-lo a silenciar e a ter mais momentos de pausas no dia.

Testei o aplicativo para essa matéria e, apesar dele ter dicas interessantes, confesso que não passei do segundo passo. O celular apita, vibra, toca, o que me fez perder todo o foco e me gerar mais ansiedade pela coisa toda não funcionar como deveria – por mais que fosse por culpa minha. Outro aplicativo que promete ajudar na pausa diária é o gps4Soul, que também baixei e parece funcionar melhor. Ele apenas mede, pelo flash da câmera, seus batimentos cardíacos e diz como está seu ritmo. Se não por outro motivo, ele me fez parar entre um texto e outro, me deixando em silêncio por pouco mais de um minuto. O que, por si só, já é um ganho. Curioso é meu celular, motivo maior da minha ansiedade, se tornar justamente meu grito de liberdade. Ou sussurro, melhor dizer.

Ruído interno

O filósofo suíço Max Picard afirma que nada mudou tanto a natureza do homem quanto a perda do silêncio. O barulho – do trânsito, do aparelho de som do vizinho, das obras nas ruas, das buzinas, dos alertas dos nossos aparelhos eletrônicos – se tornou um dos nossos piores males. “O silêncio é o início de tudo. De onde surge a criação, a saúde física e mental, o bem-estar”, escreveu em seu livro The World of Silence (“O Mundo do Silêncio”, em tradução livre, sem edição no Brasil). Ele defende o silêncio como condição do pensamento e da expressão artística e criativa, e como condição irrevogável também para a nossa reflexão. “A nossa prática mental reflete muito nosso ambiente externo. Muitas pessoas vivem em cidades barulhentas, caóticas. E, em um mundo tão barulhento, estamos perdendo a capacidade de refletir, de pensar”, argumenta. “O ritmo acelerado e ruidoso causa muitas vibrações mentais, em que é difícil manter a coerência de pensamentos. Isso aumenta o nosso ruído interno”, diz. O desafio de se viver em um mundo tão barulhento é conseguir eliminar as distrações, se desplugar de meios de estímulo que nos chegam a todo momento. Algo como sintonizar o botão do rádio em busca de uma só frequência – e conseguir ouvi-la clara e nítida. Como em um pensamento.

O fotógrafo paulista Lucas Lenci decidiu traduzir em imagens essa sensação de quietude que nos escapa. Em 2007, passou a captar cenas e paisagens em que sentia uma ausência quase completa de sons e resolveu batizar a série de fotos de Desáudio, que acaba de ganhar um livro homônimo. Em imagens feitas no Japão, França, Inglaterra, Ilhas Maldivas e até São Paulo, Lenci fez uma ode ao silêncio. Em todas as fotos, ele esteve sozinho, quase sempre em momentos em que a presença humana era quase inexistente. “Para mim, o silêncio está ligado à questão da solidão. Sozinho é que eu encontrava a calma e a introspecção necessárias para captar o que eu me propus. Era quase um transe”, conta. Há pessoas em algumas fotos, e há também uma imagem em que um navio transatlântico (provavelmente repleto de tripulantes) é visto de longe, por trás de uma névoa. “O elemento humano sempre aparecia quando ajudava a compor a ideia de silêncio, nunca como protagonista. Há uma foto em que uma mulher está parada em um parque no Japão, enquanto outras pessoas estão sentadas juntas, conversando. Não se trata de um silêncio completo, mas aquela mulher representa o silêncio em meio aos demais. Ela está introspectiva em sua própria quietude”, diz Lenci.

Nesse sentido, o silêncio é uma abertura para a escuta do outro e, principalmente, de si mesmo. “Ele pode indicar um estado de atenção plena ao presente”, afirma o professor de Comunicação e Semiótica Cassiano Quilici, da Unicamp. “Refletir com clareza e profundidade exige um ‘espaço mental’ que você pode chamar de silêncio interno. Uma pessoa que está muito ansiosa, preocupada, raivosa etc., geralmente não pensa bem”, diz Cassiano. Quando nossa mente está falando demais, fica quase impossível ouvi-la. Exatamente como naqueles almoços de família em que todo mundo fala, mas você não escuta ou entende coisa nenhuma.

Força estranha

A grande questão é que ainda vemos o silêncio como uma ausência, um vazio, em vez de uma força autônoma e poderosa tão indispensável para a nossa vida. “Acreditamos, sim, que ele é fonte crucial para a criatividade e para a concentração, mas não o encorajamos na nossa sociedade, o tememos”, afirma Sara Maitland. O silêncio é quase um desconforto. No elevador, puxamos qualquer assunto idiota para não termos que sentir o peso de não falar nada em frente aos nossos vizinhos, as pessoas introspectivas e que não gostam de conversar são vistas como sociopatas nos grupos sociais, e até quando ficamos nervosos começamos a tagarelar sem parar. “O silêncio nos dá medo porque o vemos como uma não existência, um não pertencimento. Temos medo do silêncio como temos medo da morte, quase pelas mesmas razões”, ela acredita. E também porque o silêncio, por outro lado, nos obriga a nos ouvir – algo que muitas pessoas preferem evitar. “O barulho ajuda a abafar coisas que nem sempre queremos escutar”.

Mas muitas das forças que permeiam a nossa existência são silenciosas. A imensidão do espaço, a eletricidade, a gravidade, os raios de luz, a divisão das células do nosso corpo. Tudo é feito no mais completo sigilo. Conectar-se com o silêncio, portanto, é conectar-se com muitas das forças que determinam nossa vida. O ecologista acústico Gordon Hempton, nessas mais de três décadas tentando gravar os sons da quietude, aprendeu bem a conviver com o silêncio e entender sua importância. “Quando as pessoas me perguntam qual a sensação da tranquilidade absoluta que eu encontro nos lugares remotos que visito, pergunto se elas já viram a Via Láctea”, conta. “Há uma diferença enorme entre falar sobre o Universo e olhar para cima, e testemunhando a galáxia da qual fazemos parte – um oceano de estrelas tão grande que os itens de afazeres urgentes da minha agenda se encolhem todos de vergonha. Experimentar o silêncio é a mesma coisa. Falar sobre ele é algo muito menos significativo”. Algo que você levou mais de 2 mil palavras para concluir.

Lucas Lenci é fotógrafo, faz parte do projeto Fotospot e é neto de Peter Scheier, importante fotógrafo alemão que retratou o Brasil entre 1940 e 1970.

Rafael Tonon é colaborador da vida simples desde 2005, e assina não apenas matérias de capa, mas também textos sobre gastronomia.

Confira aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

Deixe um comentário

Arquivado em Desaudio