O Capa-Branca – iG Último Segundo, 7 de dezembro de 2014

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De funcionário a interno do complexo psiquiátrico: ‘Juquery nunca me abandonou’

Livro narra a trajetória de Walter Farias, auxiliar de enfermagem que ficou paranóico e acabou vivendo o inferno da internação

Um drama, uma tragicomédia, uma ironia do destino. Essas e outras leituras podem ser extraídas de “O Capa-Branca” (Editora Terceiro Nome), livro que conta em 191 páginas a trajetória de Walter Farias, funcionário e paciente de uma das maiores e mais antigas instituições psiquiátricas do País: o Complexo Psiquiátrico Juquery, localizado em Franco da Rocha, a 30 quilômetros da capital paulista.

“O Capa-Branca”, referência ao uniforme dos funcionários do Juquery, é narrado em primeira pessoa a partir de escritos produzidos por Farias e editados pelo jornalista Daniel Navarro Sonim.

“O Juquery nunca me abandonou. Os habitantes daquele mundo vão morar sempre na minha cabeça”, diz Walter Farias, que ingressa no hospital, fundado em 1898, aos 19 anos ao ser aprovado num concurso público para ser auxiliar de enfermagem. O ano é 1972.

Inicialmente, cuida de pacientes paraplégicos ou com deficiência motora no Hospital Central, um dos espaços do complexo. Outra tarefa era acompanhar a transferência de pacientes para outras unidades.

Numa dessas viagens, um interno prometeu que, à saída do Juquery, contemplaria seus tutores, que esqueceram suas carteiras, com uma noitada em uma boate no interior. O doente não só cumpriu a tarefa como pagou as despesas.

Ladeado por criminosos

Um fantasma para a assombrar Walter quando a direção o transfere para o Manicômio Judiciário, também parte do Complexo do Juquery e que abriga doentes considerados perigosos.

“Uma vez a direção do Manicômio surpreendentemente resolveu instalar alguns televisores preto e branco no pátio para distrair os presos. A experiência durou pouco tempo. No primeiro Corinthians versus Palmeiras, antes mesmo do início do jogo, o pau começou a rolar solto e sobrou até para as TVs, que nunca mais voltaram”, relembra Walter Farias no livro.

Acaba tendo contato também com um homem que, soube depois, fatiou a família a golpes de machado – e que se tornou seu segurança no manicômio nos momentos em que passou a ser ameçado pelos presos.

João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Lulz Vermelha, também esteve entre os presos do Manicômio Judiciário em duas oportunidades. Na primeira, Luz Vermelha “era tão respeitado que, se ele gostasse de um par dos sapatos dos visitantes, pedia para que deixasse como presente. Ninguém ousava desobedecer”.

Na segunda passagem, já com Walter Pires como funcionário, via-se um bandido decadente: “Várias vezes consegui falar com ele pela janela na porta da cela. Em uma dessas oportunidades, depois de achar que tinha conquistado minha confiança, ele me entregou uma carta. uma das poucas pessoas que ainda o visitavam esporadicamente, uma senhora de uma igreja, deveria recebê-la. Apesar de ter encaminhado o envelope aos chefes de disciplina, acredito que ela nunca o recebeu”, depõe o funcionário-paciente na obra.

Colapso

A vida entre assassinos e psicopatas levou Walter Farias a flertar com o medo constante e a ser finalmente vencido pela loucura. Em casa, vendo um filme sobre um presídio, o personagem central do livro viu os presos saltarem da TV preto e branco para seu próprio lar.

“Depois do filme tive a certeza de estar desempenhando o papel de carcereiro, apesar de ter entrado no Juquery como atendente de enfermagem. Concursado. Com 23 anos de idade, da noite para o dia, eu me vi cercado de criminosos com alto grau de periculosidade”, relata Pires.

Walter Farias foi internado no próprio Juquery sob a promessa de cura da paranóia. No entanto, como o psicólogo que cuidava de seu caso saiu em férias, o funcionário/paciente conheceu o inferno: foi constantemente surrado, teve parte dos dentes arrancados e sofreu ameaças de passar pelo eletrochoque.

“ECT é sigla de eletroconvulsoterapia – ou simplesmente eletrochoque. Cerca de 40 ou 50 pacientes eram submetidos ao tratamento em cada sessão. Pelo menos seis funcionários recebiam a convocação para dar conta de um paciente por vez.”

Os funcionários imobilizavam pernas e braços (um em cada membro), outro segurava a cabeça – e aplicava o choque nas têmporas – e outro sentava sobre o tronco nas pernas do paciente. “Eles [os funcionários] diziam que a força do choque poderia torcer um membro, causando lesões irreversíveis em músculos e nervos.”

O resultado do “exame” – prática praticamente abolida dos códigos de tratamento psquiátrico hoje em dia –  é que o paciente, antes em crise, praticamente adormecia depois das consulsões provocadas pelos choques.

O saldo da passagem de Walter Farias pelo Juquery foi a aposentadoria por invalidez. Diariamente são cinco medicamentos pela manhã e dois à tarde. Além disso, a cada oito horas toma três comprimidos de diazepam e um de paroxetina, para combater a depressão.

Confira aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

 

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