Na minha cadeira ou na tua? – Vice, 18 de novembro de 2014

Na minha cadeira ou na tua?

Na minha cadeira de rodas ou na tua?

Como você faria sexo sem conseguir sentir nada do peito pra baixo? Comecei a pesquisar sobre a vida sexual de quem vive em uma cadeira de rodas e me deparei com a história da Juliana Carvalho, uma brasileira que, aos 19 anos, sentiu um mal-estar qualquer e dias depois descobriu que uma lesão medular a impediria de andar. Em suas buscas pela internet, nada ajudava a clarear a ideia de uma nova rotina sexual. “Eu não conhecia nenhuma outra mulher cadeirante pra perguntar ‘E aí? Como é que se faz pra transar?'”. Foram cinco anos sem fazer o que existe de melhor nessa vida até ela lançar o livro Na Minha Cadeira ou na Tua? pra superar o baque. Publicitária, hoje ela vive na Nova Zelândia e, sim, tem uma vida sexual normal.

Motel adaptado para cadeirantes, prostitutas especializadas em atender pessoas portadoras de deficiência física, anel peniano, pornografia, devoteísmo, cadeiras que ajudam homens com lesão medular a comer mulheres de quatro. Existe um mercado e um mundo do sexo que talvez a gente não conheça.

Conversamos por e-mail sobre as novas tecnologias que facilitam o encontro de pirocas e pepecas no mundo dos “quebrados”, como ela mesma diz.

VICE: Como era sua vida antes de descobrir que você ficaria paraplégica?
Juliana Carvalho: Eu tinha 19 anos e cursava faculdade de comunicação social quando, de uma hora para outra, fiquei doente. Fui parar no hospital. Tive um treco que ninguém sabia o que era e que me deixaria na cadeira de rodas. Antes, minha vida era agitada. Sempre fui super social, com muitos amigos, adorava festa. Fui uma adolescente terrível… Por um lado, a história da doença até que foi eficaz pra me fazer baixar a bola. Fui obrigada a parar de beber.

Como você recebeu essa notícia?
Os médicos não sabiam o que estava acontecendo. Tenho trocentos possíveis diagnósticos. Não houve aquele momento fatídico em que o doutor vem com uma cara de velório dizer que tu nunca mais vai andar ou sentir teu corpo. Então, a ficha foi caindo aos poucos, lentamente. Por oito anos, fiz fisioterapia todos os dias e, por oito anos, acreditei sinceramente que voltaria a andar. Só que chegou um momento em que percebi que voltar a andar não era o mais importante e fui investir o tempo das sessões de fisioterapia em outras atividades. Hoje, por exemplo, jogo rugby em cadeira de rodas (sou a pior do time).

O que tudo isso mudou na sua vida sexual?
Mudou tudo. Primeiro, fiquei assexuada, mas acredito que seja até comum no começo. Tu tá lá lutando pra viver, focado em se recuperar. Sexo fica secundário. Com o passar do tempo, veio uma enxurrada de dúvidas e medos. Tipo, eu tinha vida sexual antes e sabia o que fazer, sabia como sentir prazer. De uma hora para outra, meu corpo mudou completamente, parei de me mexer, parei de sentir do peito para baixo. Eu pensava: e agora? Não sinto nem os peitinhos? Veio uma insegurança brutal em relação ao meu novo corpo e uma falta de referência absurda. Eu sabia como era o tchaca na butchacana versão andante e me vi num cenário desconhecido e assustador. Pra completar, as inúmeras buscas na internet atrás de alguma informação sobre sexo depois da lesão medular sempre acabavam em nada. Isso foi há 13 anos. Eu não conseguia achar nada de informação e também não conhecia nenhuma outra mulher cadeirante pra perguntar: “E aí? Como é que se faz pra transar?”. Esse conflito, eu descrevo bem no livro que escrevi (Na Minha Cadeira ou na Tua?, da Editora Terceiro Nome) e foi um longo processo de redescoberta da minha sexualidade.

Como foi transar novamente depois de ficar paraplégica?
Bah, foi uma delícia! Foi um alívio e uma alegria imensa ter a confirmação de que essa parte tão importante da vida não estava morta, só adormecida. E tu imagina que eu estava numa seca de cinco anos? Cinco anos! E sempre gostei da coisa… Então, pobre do caboclo. Foram 10 horas intensas num quarto de motel adaptado para cadeirantes.

Li em algum lugar que você teve um dos melhores orgasmos do mundo logo que voltou a transar. Como foi?
Putz, como descrever um orgasmo com palavras? Assim tu me quebra, né? Vamos tentar. Imagina o contexto: a pessoa estava há cinco anos sem transar ou ter um orgasmo. Daí conhece um gatinho no centro de reabilitação onde os dois estão internados (se reabilitando em todos os sentidos). Começamos a nos pegar e ficar de arreto todos os dias durante um mês. Um mês só de provocação, de pegação escondida das enfermeiras e de não poder ir até os finalmentes por falta de privacidade. Até que chegou uma hora em que eu não aguentava mais e disse pro guri: “Tá. Vamos dizer pras enfermeiras que estamos indo pra uma festa (podemos sair do centro de reabilitação nos finais de semana) e vamos passar a noite num motel adaptado”. Daí o guri disse que não tinha dinheiro. “Mas eu pago!”, falei. Acho que ele não estava entendendo a gravidade da minha situação. Finalmente, estávamos a sós. E posso te dizer que o tesão acumulado, mais o espelho no teto (ver agora é tudo!), mais uma piroca linda (ele nem era tão gato, mas a piroca era linda) contribuíram para um orgasmo memorável. E o engraçado é que agora os braços ficam tremendo, não mais as perninhas.

As pessoas acham que paraplégicos e pessoas com qualquer tipo de deficiência não fazem sexo. Como você vê isso?
Não culpo ninguém. Antes de me tornar cadeirante, também tinha essa ideia equivocada, e, na real, vários outros segmentos sociais são vistos como assexuados. Tipo, tem gente que acha que idoso não faz sexo; que obeso não faz sexo; que a própria mãe não faz sexo. No caso das pessoas com deficiência existe muita desinformação. E a genitalização do sexo também contribui para essa distorção. Tem muito quebrado que tem vida sexual mais ativa que muito andante. Dá uma googladano ex-ator pornô cadeirante Josi​t​os Will.

Quais são as maiores dificuldades na hora de um paraplégico transar?
Achar um motel adaptado? Fazer o rebolation? Para as mulheres, acredito que achar uma posição que seja confortável e evite lesões sem que tu perceba. Se sentir segura e confiar que o parceiro está te comendo onde vocês combinaram? (risos). Porque se tu não sente os buracos… vai saber só depois que levou o fio terra! Para os homens, acredito que a ideia de não estar mais no controle da situação e a frustração de acreditar que nunca mais fará a posição preferida do eleitorado masculino: o dogstyle. Mas não é que inventaram uma cadeira especial pro vuco-vuco? Eis que surge aIntimate R​ider, e os homens cadeirantes podem comer suas parceiras de quatro. Final feliz.

Os homens que perdem a sensibilidade nas pernas conseguem ficar de pau duro e gozar?
Não sou especialista, mas sei que a maioria dos homens com lesão medular não ejacula – o que, deve se deixar claro, é diferente de gozar. Dá pra ter orgasmo sem fazer meleca. Quanto a cobra subir, a maioria dos homens com lesão medular tem ereção. O difícil é mantê-la. Mas pra tudo existe solução. Existem vários medicamentos (via oral ou injetáveis) que podem ser utilizados para garantir a “paudurência”. Existem acessórios (anel peniano, powerpump) que auxiliam a criar e manter a ereção. Tem também aquele velho ditado: quem precisa de pau quando se tem dedo e língua? Os rumores são de que os quebrados mandam muito bem no sexo oral.

E as mulheres?
As mulheres ficarem de pau duro? Só usando a cinta-caralho! Brincadeira. Então, tem muita mulher que anda e que sente que nunca vai saber o que é um orgasmo. Mas o que se desconhece é que o orgasmo é uma função cerebral e, para ativar o cérebro, é preciso estímulo. Uma das principais fontes de estímulo é o tato e, se a pessoa perde a sensibilidade, uma importante fonte de estímulo deixa de existir. Mas existem outras formas de estimular a nossa cabeça para atingir o orgasmo independentemente de sentir a periquita. Posso falar, por mim, que o estímulo visual ganha destaque. O cara também pode descrever ao pé do ouvido o que está fazendo, pode explorar as áreas que tu ainda sente (vamos dar uma atenção para o pescoço, para o glóbulo auricular, para o couro cabeludo, para a boca, etc.). E se a pessoa faz mesmo muita questão da penetração, tem um livro chamado Sill​a Sutra, que traz umas dicas de posições para cadeirantes.

É normal entre cadeirantes fazer sexo casual? Ou vocês estão mais sujeitos a ter relacionamentos estáveis?
Ai, esse é o tipo de pergunta que não faz muito sentido. Tipo, o que define se uma pessoa faz sexo casual não tem nada a ver com a sua condição física e sim com a personalidade, certo? E existem pessoas com personalidades totalmente distintas que usam cadeira de rodas. Então, vai de cada um. Aliás, cadeirante faz sexo?

Existe uma regra do tipo “cadeirantes fazem sexo com outros cadeirantes” ou nada a ver?
Essa pergunta entra no saco do imaginário coletivo baseado na falta de informação. E te digo: uma galera acha que cadeirante só faz sexo com outros cadeirantes. Mas não tem nada a ver. A maioria dos cadeirantes que eu conheço tem parceiros sem deficiência. Claro que acontece, e eu mesma já tive experiência com outro cadeirante. É briga de foice. Dois quebrados na cama, exige uma ginástica! Mas o amor é lindo e nada é impossível.

Normalmente, todo mundo encana com várias coisas no próprio corpo. Você acha que, para o cadeirante, isso é ainda pior? Por quê?
Vou falar da minha experiência. Toda vez em que eu me vejo pelada na cadeira higiênica eu penso: a beleza é interior (risos). Hoje, eu fico pensando: eu reclamava do corpo que eu tinha antes da lesão, e ele era lindo. Mesmo assim, eu sempre achava onde botar defeito. Era o culote, era a gordurinha embaixo do sovaco.

Com a lesão medular, meu corpo mudou totalmente. Minhas pernas afinaram e ficaram flácidas. Meu bumbum (a parte que eu mais gostava) agora está amassado, coitado. A barriga cresceu (notavelmente, pareço gestante o ano todo). As peitcholas caíram (porque engordei, e emagreci, e engordei, e emagreci). Os braços ficaram de menino (fortes de tocar a cadeira), as mãos de operário (já meus pés são macios). Mas, mesmo assim, eu me amo e sou correspondida. Não gastaria tempo nem dinheiro em nenhuma plástica. Sério. O que acontece é que – em especial nós, mulheres – vivemos uma ditadura da beleza. Diariamente, somos submetidas a um bombardeio de informação que se baseia num padrão de perfeição irreal. Todo mundo tem celulite (uns mais outros menos), todo mundo tem estria, quem tiver sorte (ou azar) vai viver bastante e envelhecer, e a gravidade não tá nem aí pra ninguém. Vai tudo cair e enrugar. Depois de ter filho e amamentar, o bagulho vai destrambelhar. E, no final das contas, o que vale é se aceitar e se amar do jeito que se é. Beleza, pra mim, tem muito a ver com atitude.

Deixei de perguntar algo?
Tem umas curiosidades que talvez tu queira pôr na matéria. Sabia que existem prostitutas especializadas em atender pessoas com deficiência? Tem u​m documentário bem interessante. Até escrevi um a​rtigo em inglês sobre o assunto.

Existem também pessoas com fetiche em fazer sexo com pessoas com deficiência. São os devotees. Saca essa matéria do programa Faça a Diferenç​a, que eu apresentava, sobre devoteísmo.

Confira aqui a entrevista na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

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