A Guerra Guaranítica – Jornal do Comércio (Porto Alegre/RS), 21 de outubro de 2014

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Tau Golin lança Guerra Guaranítica

Quando Erico Verissimo (1905-1975), na trilogia O tempo e vento, descreve a união de Ana Terra com o índio Pedro Missioneiro, o escritor expõe de forma literária um dos pilares da formação rio-grandense. É do ventre de Ana Terra que as raízes de uma família fincam no solo e atravessam os séculos. “Erico Verissimo deu uma grande contribuição para a inserção do tema Missões como parte fundante do Rio Grande do Sul e da América Meridional.” A sentença é do jornalista, doutor em História pela Pucrs e professor do Departamento de História da Universidade de Passo Fundo Luiz Carlos Tau Golin.

Ele lança hoje o livro A guerra guaranítica: o levante indígena que desafiou Portugal e Espanha (Terceiro Nome, 200 págs., R$ 38,00), às 19h45min, na Academia Passo-Fundense de Letras (Brasil Oeste, 792), em Passo Fundo, e quinta-feira, às 19h, no Iate Clube Guaíba (Guaíba, 95), em Porto Alegre. A obra é o primeiro volume da coleção Brasil rebelde, que pretende explorar o tema das revoltas populares desde o início do período colonial até o republicano.

As Missões surgiram como um projeto geopolítico de Estado, servindo como barreira de fronteira da Espanha, com o interesse de conter a expansão portuguesa meridional na América do Sul – limites definidos pelo Tratado de Tordesilhas em 1494. Contudo, já que o acordo não funcionava na prática, os países assinaram o Tratado de Madri, em 1750, determinando que Portugal entregasse Colônia de Sacramento, no Uruguai, à Espanha para receber em troca os Sete Povos das Missões, então sob domínio espanhol. Como tais acordos não levaram em conta o que pensavam os indígenas daquele local, a única manifestação possível seria a guerra.

No decorrer dos anos, as Missões foram um tema pautado por duas correntes da historiografia: os lusitanos, que acreditavam que o Rio Grande do Sul era português, e os platinistas, que pensavam que a parte espanhola também fazia parte do Rio Grande do Sul. Isso definiu, segundo Tau Golin, que as missões, por fazerem parte do reino hispânico, logo não teriam nada a ver com o Estado. “Com isso, sempre se criou um desprezo muito grande das Missões, porque ela foi inserida no campo do inimigo”, destaca ele.

O professor lembra que foi por meio de pesquisas e coleta de relatos que o jornalista Hemetério José Velloso da Silveira registrou a herança da cultura missioneira. Anos depois, o papel seria feito por João Simões Lopes Neto (1865-1916) na publicação, entre outras obras, da lenda da Salamanca do Jarau, no livro Lendas do Sul (1913).

Para Tau Golin, os dados sobre as Missões são fragmentados, pois as pessoas não têm informação articulada sobre essa experiência civilizatória. Mas destaca que a província jesuítica do Paraguai envolvia 30 cidades principais e sete no Rio Grande do Sul. Era tudo coordenado por caciques e padres, com base na propriedade coletiva do povo, com cidades majestosas feitas em pedra, unindo arquitetura europeia e indígena, com estradas, portos, com sistema de povoados.

Assim como os índios do Rio Grande do Sul sempre tiveram como inimigo os bandeirantes, que os escravizavam, levando-os para o Sudeste, havia as mulheres indígenas, que também serviam para a procriação, como explica Tau Golin. “Se observarmos o ventre do Estado, veremos que ele é indígena.”

Uma luta que continua

Após anos de combate, a cultura e a memória indígena seguem ameaçadas, segundo o jornalista, doutor em História pela Pucrs e professor do Departamento de História da Universidade de Passo Fundo Luiz Carlos Tau Golin. “O Rio Grande do Sul tem dificuldade em lidar com coisas vivas quando se fala no indígena. As pessoas gostam muito de lidar com o índio morto, que está distante, não reconhecendo a sua herança e presença.”

Ele ainda denuncia que os conflitos estão presentes. “Temos muitas informações, principalmente das áreas ruralistas, que há um processo criminoso de destruição de qualquer referência da cultura material e documental indígena no Estado. Há gente destruindo tudo o que encontra no campo: cemitério, cerâmicas, aldeamentos, documentação, cartas de família, tudo de forma deliberada. Inclusive, contratam pessoas formadas em História, muitos professores, para fazer esse trabalho criminoso”, explica, revelando, deste modo, uma certa omissão do poder público neste tema. “O processo de destruição e falta de reconhecimentos dos direitos indígenas continuam”, lamenta Tau Golin.

Leia aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais informações sobre o livro

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Arquivado em A Guerra Guaranítica, Coleção Brasil Rebelde

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