Cozinhando no quintal – Tempo de Creche, 9 de outubro de 2014

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Renata Meirelles conta como surgiu o livro Cozinhando no quintal

A educadora Renata Meirelles, idealizadora do projeto Território do Brincar, com a co-realização do Instituto Alana, é autora do livro Cozinhando no quintal (Editora Terceiro Nome), lançado no dia 8 de outubro.

O livro nasceu da experiência vivida por Renata e pelo documentarista David Reeks entre abril de 2012 e dezembro de 2013, quando eles percorreram diversas regiões brasileiras, como comunidades rurais, indígenas, quilombolas, metrópoles, sertão e litoral. Cozinhando no quintal mostra como as crianças utilizam os elementos ao seu redor na hora de brincar de cozinhar, fazendo comidinhas de brincadeira com ingredientes encontrados no quintal, como flor, lama, grama, folhas e sementes.

Como surgiu o projeto do livro?

Renata – Este é o primeiro livro que surgiu como resultado do Território do Brincar. Para quem ainda não conhece, o Território do Brincar, uma co-realização com o Instituto Alana, é um projeto de pesquisa, registro e difusão da cultura da infância no Brasil. Durante 21 meses de viagem (de abril de 2012 a dezembro de 2013) organizamos uma parceria com seis escolas para alimentar o olhar sobre o brincar da criança dentro e fora da escola. Nesse processo desenvolvemos uma pesquisa coletiva, entre nós e essas escolas parceiras, onde um dos temas foi o brincar de casinha. Como essa brincadeira acontece dentro e fora da escola? O que as crianças nos dizem quando estão brincando de casinha? O que existe por trás dos gestos das crianças ao brincar de casinha? As comidinhas, que tanto me encantavam, foram um ponto alto da minha pesquisa dentro desse tema, e delas nasceu esse livro.

Como você trabalhou a parceria com as escolas?

Renata – A parceria com as escolas era sempre com educadores e coordenadores. Fazíamos encontros mensais, de 2 horas, por Skype com cada escola – a gente de um lado, eles na própria realidade do outro lado e a equipe do Instituto Alana sempre mediando essas conversas. Então conversávamos sobre temas que eu achava relevante em cada comunidade que passávamos. Eu trazia estes temas e a gente discutia com imagens, que é sempre o nosso forte. Isto gerava várias situações para os educadores. Trabalhamos essa questão de trazer realidades de fora da escola de forma intensa, durante um ano. No final desse primeiro ano propus a pesquisa da brincadeira da casinha. Os educadores registrariam nas escolas como as crianças faziam essa brincadeira. Só tinha um pré-requisito: a brincadeira precisava ser espontânea e não sugerida como atividade pelos educadores. Com isso, já surgiram questões importantes como por exemplo o espontâneo dentro da escola e o tempo disponível para brincar. Foi tudo tão interessante que decidimos realizar um filme para apresentar essa parceria como um todo. Estamos em fase de finalização desse filme com entrevistas com as educadoras, falando do que foi olhar e discutir sobre a criança dentro e fora da escola. Não sabíamos no que ia dar esse diálogo, o convite era para acreditar nas incertezas e desfrutar do encontro com o outro. Foi um desafio e tanto para todos nós. As escolas tiveram a liberdade para decidir com qual segmento iam participar (infantil, fundamental e médio). Acredito que o diálogo foi intenso, verdadeiro e transparente e conseguimos assumir o que a gente não sabe, e que ainda falta conhecer gerando, assim, um aprendizado muito profundo sobre a infância. E para nós foi muito importante compartilhar, em tempo real, tudo o que estávamos vendo e vivendo nessas regiões. São muitas nuances vividas ali que não queríamos assumir como a resposta certa, o jeito certo de olhar. Então esse diálogo foi fundamental.

Produzir o registro das comidinhas feitas pelas crianças era tão espontâneo para mim, que nem pensava por que estava realizando aquilo. Via tanta beleza ali que me sentia convidada a registrar.

Quando chegamos da viagem, tínhamos que montar uma exposição para participar da mostra Ciranda de Filmes (março/2014), outro lindo projeto realizado pelo Instituto Alana e parceiros. Um dos temas que eu quis trabalhar nesta exposição foi o das casinhas. Quando estava analisando minhas fotos me dei conta: “nossa, quanta foto de comidinha!”

Pensei em fazer uma espécie de menu daquelas imagens. Então escrevi uma receita para cada prato que usava lama, flores, grama, etc. Fui trazendo sempre o elemento regional: dos pampas, das dunas do Ceará, enfim coisas que tinham ligação com cada lugar. Quando a editora que trabalha comigo, e que fez o meu livro Giramundo(Editora Terceiro Nome), viu o resultado na exposição, comentou: “nossa, Renata isto dá um livro!”

Convidamos uma nutricionista, chefe de cozinha, muito bacana, a Neide Rigo para escrever um texto sob o ponto de vista de uma chefe de cozinha de verdade, para as nossas chefs de cozinha de brincadeiras. Então ficou uma ideia original, e foi assim que nasceu esse livro Cozinhando no Quintal.

O que este livro pode trazer os educadores que não participaram deste projeto?

Renata – A sensibilidade do olhar para a criança brincar. O que o nosso trabalho faz, de um modo geral, e não só neste este livro, é a proposta de levar a sério a poética da infância. Levar a sério as questões do brincar. Trazer credibilidade efetiva para uma relação muito viva que ocorre na brincadeira. Isto foi muito claro para nós em todo o processo. Este livro é uma resposta para isto também.

Como você vê este livro dentro da escola?

Renata – Eu acho que tem um espaço poético. Um lugar de sensibilização do olhar para as belezas produzidas diariamente pelas crianças. Existem ainda outros produtos como resultado deste projeto, como duas séries para TV, um filme de longa metragem e mais alguns livros, mas este Cozinhando no Quintal é de um lugar da poesia mesmo. É para estar junto com os educadores e certamente com as crianças, que vão gostar muito. É um livro que traz a mensagem de que o que as crianças estão fazendo é verdadeiramente poético.

Veja aqui a entrevista na íntegra

E confira aqui mais detalhes sobre o livro

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