O estádio dos desejos – Revista da Cultura, outubro de 2014

Juan Villoro - divulgação

JUAN VILLORO E A SUA MANEIRA DE ENCARAR O COTIDIANO

Escritor mexicano enxerga a literatura como algo extraterritorial

O futebol sempre foi, desde quando era criança e morava em uma rua da Cidade do México onde todos pareciam gostar da pelota, uma paixão para Juan Carlos Villoro, que no seu recém-lançado livro infanto-juvenil, com tradução do jornalista Eric Nepomuceno, O estádio dos desejos conta a história de Arturo, que torce para o Atlântida, time de futebol que não ganha nunca. Fato que não diminui a paixão do garoto pelo esporte.

Torcedor do Barcelona (o pai nascera na Catalunha), o escritor acostumou-se desde cedo às vitórias da camisa azul-grená ao mesmo tempo em que derrotas eram rotina, uma vez que torce para o Necaxa, time da segunda divisão do futebol mexicano,  o que o fez encarar vitórias e derrotas de forma muito natural.

Tendo escrito romances, contos, ensaios, peças de teatro, entre eles destacando-se as obras Arrecife, O livro selvagem,Llamada de Amsterdam e El testigo (este último lhe rendeu o Premio Herralde em 2004), ao longo da carreira, Villoro, que costuma escrever sobre os mais variados temas, como música, cinema e literatura, enxerga no futebol algo que vai além de torcer, uma paixão que o acompanha desde a infância, mas que não se resume ao fato de um time simplesmente vencer ou perder.

Essa visão sociológica é interessante. Sua escrita desempenha um papel que vai além da representatividade de culturas locais e territórios. Para ele, a literatura é algo extraterritorial, onde o compromisso com a crítica cotidiana se mantêm vivo através das palavras. Estudou em um colégio europeu na Cidade do México, por conta de um intercâmbio que a instituição mantinha com os habitantes da cidade, fato que acabava aproximando culturas. O escritor aprendeu alemão e teve contato com uma visão de mundo diferente da sua. Isso contribuiu para a existência de um equilíbrio em sua obra, onde não existem hibridismos, nacionalismos e multiculturalismos exagerados.

As experiências de vida parecem se aproximar do universo da escrita literária, sem a obrigação de tornar-se um relato fiel daquilo que foi vivenciado. O estádio dos desejos é um exemplo. O ensaio Iguanias e dinosaurios, América latina como utopia del atraso, onde Villoro descreve seus primeiros anos escolares, acaba explicando como, a partir da língua e da cultura estrangeira, esse latino passou a enxergar o seu papel como escritor que viria a ser anos mais tarde. O mexicano fala neste mesmo ensaio, sobre os resultados dessa sua educação infantil: aprendeu a admirar a língua espanhola e a não aceitar ideias que reduzem a noção da identidade nacional.

Em Arrecife, também recém-lançado no Brasil, mais uma vez aparece a diferença das culturas latina e europeia: Mario Müller, personagem que trabalha num resort caribenho e oferece aos clientes diversas situações de perigo controlado, desde sequestros-relâmpago até contato com guerrilheiros, é uma maneira de colocar culturas em contato. O próprio nome da personagem é de origem alemã.

O professor de literatura na Universidade Autônoma do México e convidado das universidades de Yale, de Pompeu Fabra em Barcelona e da Universidade de Princeton, nascido em 24 de setembro de 1956, demonstra uma maneira de encarar a literatura que aproxima o leitor ao mesmo tempo do cotidiano contemporâneo e de uma pausa para a reflexão que parte de situações inusitadas.

A obra El testigo também se junta a esse time de referências e traz Julio Valdivieso, intelectual e professor mexicano que há muitos anos mora na Europa e decide retornar. Começa uma fase de redescobertas sobre o país e reencontros. Note que a publicação de 2004, de certa maneira também toca no tema das identidades culturais, dialogando entre as certezas e incertezas de um personagem que passa a redescobrir sua terra natal, o cotidiano e as mudanças que aconteceram desde que partiu.

Confira aqui a matéria na íntegra

E veja aqui mais detalhes sobre o livro O estádio dos desejos

 

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