Ninguém Humano – Nuvem de Livros (em espanhol), fevereiro de 2016

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Leia aqui a resenha publicada originalmente no site da Nuvem de Livros

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Ninguém Humano – Nuvem de Livros, fevereiro de 2016

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Junto e misturado – Exame, 28 de janeiro de 2017

5 livros para entender o Brasil de 2017

Junto e misturado: uma etnografia do PCC

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Nesta obra, indicada por Paulo de Tarso, pesquisador sobre o sistema carcerário do país, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, o leitor é apresentado ao universo do Primeiro Comando da Capital, o PCC. A leitura é necessária para entender o que acontece dentro dos presídios brasileiros, que nas últimas semanas têm sido palco de diversas rebeliões e massacres.

De acordo com o pesquisador, o livro esclarece a incapacidade do Estado em controlar os presídios brasileiros e explica o desenvolvimento histórico da maior organização criminosa do Brasil.

“Essas organizações, ao perceberem o afastamento do Estado de suas responsabilidades, passaram a se organizar e se articular como substitutos. Em simples palavras, fenômenos como o PCC são consequências da falta do governo de suas funções básicas no sistema carcerário”, diz o pesquisador.

Autor: Karina Biondi / Editora: Terceiro Nome

Confira aqui a lista completa publicada pela Exame

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Pau-brasil – Diário Oficial (São Paulo), 26 de novembro de 2016

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Clique aqui para ver a matéria publicada originalmente no site do Diário Oficial

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Confira também a versão em inglês deste livro: Brazilwood – the color and the sound

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Névoa de superfície – Diário do Pará, 27 de novembro de 2016

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Confira aqui esta matéria publicada na versão online do jornal Diário do Pará

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Junto e misturado – Conversa Afiada, 6 de janeiro de 2017

Professora Biondi: O PCC sobrevive mesmo sem cabeças

Que agente do Estado botou aquelas armas lá dentro, em Manaus?

PHA: Eu vou entrevistar Karina Biondi, doutora em Antropologia pela Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo. Em 2010, ela publicou o livro “Junto e Misturado – Uma etnografia do PCC”.

Professora Karina, o PCC vai à forra do que aconteceu em Manaus?

Karina Biondi: Olha, difícil saber. A cada dia que eu vejo as notícias, parece que surgem novos dados para pensar sobre isso, sobre um eventual revide ou não. Hoje eu vi que já estava circulando uma mensagem no WhatsApp sobre algum revide. Eu acho que é bem possível que isso aconteça. Agora, é difícil saber mesmo o que se passa.

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PHA: É uma possibilidade fora de propósito?

Karina Biondi: Não, de jeito nenhum. O PCC surgiu num contexto onde ele era mais um entre os vários bandos que disputavam território nas prisões. Na força, ele não tinha diferencial nenhum. Quero dizer, existiam várias quadrilhas ou bandos ou gangues, dependendo de como você queira chamar, e as disputas eram sangrentas, mesmo. Com facas, armas, cabos de vassoura, o que fosse necessário para que eles conseguissem dominar alguma parte das cadeias.

O que os presos dizem que fez o PCC crescer foi, justamente, a sua proposta. E a proposta central deles é a seguinte: os presos precisam se unir para enfrentar o inimigo em comum. Que é o quê? O sistema.

Aí não tem a ver com o sistema capitalista nem nada, é o sistema prisional. O encarceramento, a polícia, o sistema prisional, tudo isso. Então, para se enfrentar esse sistema, é necessário ter uma união.

E o que aconteceu é ladrão matando ladrão. E isso vai contra uma proposta original do PCC. Então, é muito mal visto entre eles. Principalmente porque tem alguns elementos no que aconteceu em Manaus que podem indicar que houve alguma participação de forças estatais. Como, por exemplo, a entrada daquelas armas. Aquelas armas não entram por Sedex ou com as visitas! Quero dizer, eram armas enormes! Uma carabina… Alguém colocou lá!

Isso pode ser visto como um elemento de que esses caras da Família do Norte estão em uma certa aliança com o Estado, ou com o sistema.

PHA: Contra o PCC.

Karina Biondi: Contra o PCC, contra a expansão do PCC ali.

PHA: O seu livro defende a tese de que o PCC nasceu no dia 31 de agosto de 1993, num jogo de futebol em uma cadeia em Taubaté, como um desdobramento do massacre do Carandiru de 1992.

Se o massacre do Carandiru de 1992 é um dos responsáveis pela criação, pela instalação do PCC, um evento como esse de Manaus pode ter, sobre os membros do PCC encarcerados, o mesmo papel de uni-los, de agregá-los, aproximá-los?

Karina Biondi: Bom, tem uma diferença. Em São Paulo, o que aconteceu foi o sistema matando presos. Uma das mais antigas e fortes teses das ciências sociais é que, na ausência do Estado, as organizações criminosas como o PCC entram em cena e crescem. Meu argumento é um pouco o inverso: quando o Estado se excede, é no excesso de Estado que essas organizações criminosas aparecem. Justamente o excesso de Estado que aconteceu no Carandiru que fez surgir a semente da necessidade de uma união para que aquilo não voltasse a acontecer.

E isso é muito recorrente, tem até documentos, ou “salves”, como eles chamam, escritos a respeito disso. Sempre que há uma “pesada de mão” do Estado, acontece uma reação de um fortalecimento.

Não me parece ser só uma outra gangue – senão, seria só uma luta mão-à-mão, com facas… Não com aquelas armas que eles tinham.

PHA: Portanto, haveria aí, de novo, de uma outra forma, uma intervenção estatal, aliada a uma das facções, e isso resultou na degola e morte de alguns membros do PCC.

Karina Biondi: Eu não posso afirmar que houve essa intervenção. Mas eu acho que a principal linha de investigação para entender o que aconteceu lá deveria partir de como entraram aquelas armas. Porque, com certeza, quem colocou aquelas armas colocou com algum fim. Algum propósito tinha.

PHA: A senhora faz um levantamento bastante completo, na minha leiga maneira de avaliar, da linguagem, do vocabulário da cadeia. E eu lhe pergunto: na linguagem, na simbologia da cadeia, o que significa decapitar, degolar?

Karina Biondi: Durante o tempo de expansão do PCC, isso virou uma marca registrada dele. Claro, ele não cresceu só com a força das ideias dele. Digo, esse era um diferencial, mas aliado à força que já tinham… Aconteceram muitas mortes, degolas. E quando acontecia alguma degola, isso meio que se tornou uma marca registrada, em São Paulo, durante seu período de expansão.

Algum significado, eles nunca me deram, além dessa marca. Só que, agora, foi utilizada por outro grupo.

PHA: Ou seja, aqueles que quiseram destruir o PCC em Manaus usaram a arma original do PCC?

Karina Biondi: De certa forma, sim.

PHA: O seu livro foi escrito, professora, em 2010. Estamos em 2017. O PCC está no Amazonas. Do que a senhora viu na sua pesquisa que resultou no livro “Junto e Misturado”, como explicar essa nacionalização do PCC?

Karina Biondi: O livro, na verdade, foi escrito entre 2008 e 2009 e foi publicado em 2010. Esse foi o resultado do meu mestrado e no doutorado eu fui estudar o PCC nas ruas em São Paulo.

Eu não tive acesso à atuação deles fora de São Paulo. Mas sempre apareciam referências de alianças com grupos locais, de outras regiões. Parece que a grande questão para eles era, justamente, agregar as pessoas fora de São Paulo a esse objetivo em comum.

Claro que têm propósitos financeiros, mas eles não dependem do PCC para existir. Com PCC ou não, o traficante vai querer traficar.

PHA: O seu livro descreve, de uma forma muito clara e muito interessante, o fato de que o poder político dentro do PCC independe das pessoas. O que determina o poder é o cargo, a função, independente de esse cargo ou função estar sendo ocupado pelo personagem X, Y ou Z. Isso se reforça, inclusive, por um depoimento que a senhora reproduz, no livro, do Marcola, numa CPI na Câmara dos Deputados.

O fato de as lideranças do PCC em Manaus terem sido decapitadas, segundo essa estrutura de organização, eu posso deduzir que o comando do PCC, ainda que debilitado, não está destruído em Manaus?

Karina Biondi: A morte dessas pessoas, que não sei até que ponto exerciam algum papel de liderança, funciona mais ou menos como o remédio que o Estado paulista tomou para acabar com o PCC: “vamos transferir os líderes”. Como se isso acabasse com o PCC…

Eu presenciei cadeias e, depois, na outra pesquisa que vi nas ruas, bairros inteiros de São Paulo que não tinham nenhum membro do PCC, mas agiam conforme o que eles chamam a “ética” do comando.

Isso é reposto. Se não tiver nenhum membro “batizado” mesmo, alguma outra pessoa que seja considerada mais esclarecida, mais articulada, assume esse posto, que é pra manter essa ética.

O que eu tentei desenvolver depois, nessa pesquisa que fiz nas ruas, é que mais do que uma estrutura montada, que seja restrita a pessoas, o que é central no PCC é a circulação de ideias. E eles têm uma definição muito interessante de ideias, que é muito diferente da nossa: as ideias, pra eles, não estão na cabeça. Elas estão no mundo, para serem mexidas, articuladas, mudadas. E essas ideias sobrevivem. Não é matando alguém ou transferindo uma pessoa de uma cadeia para outra que a ideia morre.

PHA: E essa sua pesquisa sobre as ruas de São Paulo resultará em um livro, também?

Karina Biondi: Eu tô tentando, mas na crise tá difícil publicar alguma coisa… Mas tive uma aprovação recente para publicar e faltam agora só os recursos necessários. É pela Editora UNESP, vamos ver se a gente consegue.

PHA: A senhora subscreve a interpretação de que a omissão dos governos de São Paulo é, em parte, responsável pela propagação da ideologia e da prática do PCC?

Karina Biondi: Não sei se é bem a omissão. O PCC nasce do Estado, não necessariamente da falta dele, da omissão dele. É justamente num regime mais endurecido, como o que era de Avaré, ou na existência dos RDDs (Regime Disciplinar Diferenciado), que são a grande propaganda do Estado paulista, não? “Nossas cadeias são primorosas, nós temos segurança, temos um regime de RDD”. É aí que os presos veem a necessidade de se unir para enfrentar o que eles veem como o abuso do Estado.

Em tempo: a entrevista foi gravada antes da forra do PCC em Roraima.

Veja aqui a entrevista publicada originalmente no site Conversa Afiada

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Junto e misturado -BBC Brasil, 8 de janeiro de 2017

PCC não precisa de líderes para acontecer, diz autora de livro sobre a facção

O PCC (Primeiro Comando da Capital) parece estar no centro das duas grandes rebeliões que aconteceram na última semana no Brasil. 

No Amazonas, 60 presos supostamente ligados à facção morreram após um motim no Complexo Penitenciário Anísio Jobim. Eles teriam sido assassinados por membros da rival Família do Norte.

O PCC (Primeiro Comando da Capital) parece estar no centro das duas grandes rebeliões que aconteceram na última semana no Brasil.

No Amazonas, 60 presos supostamente ligados à facção morreram após um motim no Complexo Penitenciário Anísio Jobim. Eles teriam sido assassinados por membros da rival Família do Norte.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com a antropóloga Karina Biondi, autora do livro Junto e misturado – uma etnografia do PCC:

BBC Brasil – Em seu livro, você diz que a presença do PCC não depende da presença de seus membros ou de líderes. O que você acha que aconteceu em Amazonas e Roraima?

Karina Biondi – Antes de tudo, o PCC é mais uma ideia do que uma estrutura montada. Por constituir mais a ideia de uma forma de se proteger, uma metodologia de vida, ele consegue acontecer sem que necessariamente esteja vinculado a pessoas.

Mas, é inevitável que, para que essa ideia seja propagada, alguém tem que levá-la. Acho que seria o caso de ter membros mesmo do PCC nesses lugares, mas é uma suposição.

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BBC Brasil – As pessoas imaginam que o PCC é uma facção com estrutura bem definida. Você pode explicar como ele se organiza?

Biondi – Essa interpretação (do PCC como organização hierarquizada) tem a ver com a forma como estamos acostumados a pensar o mundo. Conhecemos uma estrutura estatal e tentamos transplantá-la para o que estamos vendo.

Meu esforço (na pesquisa) foi tentar não aplicar esses modelos mentais no que eles fazem. Se fosse uma estrutura hierárquica, piramidal, que dependesse da existência de líderes para acontecer, a atuação do governo paulista de isolar ou transferir líderes teria acabado com o PCC.

Na minha pesquisa, havia situações nas quais o PCC acontecia mesmo quando não tinha nenhum membro da facção presente. Isso ocorre, por exemplo, nas Febems, onde não existem membros do PCC porque (a facção) não batiza menores de idade.

Aconteceu também numa cadeia onde fiz pesquisa. Ela era do PCC, orientada de acordo com a ética do PCC, mas não tinha membros ali.

O PCC é, antes de qualquer coisa, uma ideia ou, como eles chamam, um movimento. Não tem um limite definido, e pode se prolongar indefinidamente.

BBC Brasil – No que a ética do PCC consiste?

Biondi – O principal pilar dessa ética é que os ladrões – como eles chamam toda pessoa que transita pelo mundo criminal -, que no caso são os presos, têm que se unir, e não guerrear uns com os outros, para que consigam enfrentar o inimigo comum: o sistema carcerário. Este é um dos pilares do PCC: a paz entre os presos e a guerra contra o sistema policial e carcerário.

Outra coisa que se tornou pilar é a igualdade.

BBC Brasil – Você diz que não é necessário haver um membro do PCC para garantir a presença da facção. O que te faz supor que haveria membros nas cadeias de Amazonas e Roraima? 

Biondi – Para ter chegado em Manaus, acho que dependeu da existência de algum membro.

Alguém deve ter levado a ideia e feito ela se propagar. Essa propagação depende da capacidade de oratória, de persuasão, pré-requisitos para quem uma pessoa seja convidada a integrar o PCC.

BBC Brasil – Existe um convite formal?

Biondi – Sim, existe um batismo, ele assumem um compromisso. Mas não quer dizer que todas as pessoas que morreram (na rebelião) fossem membros do PCC.

Um membro não necessariamente conhece o outro. Eles não ostentam ser ou não membros.

BBC Brasil – Com toda essa discrição, como acontece a comunicação e o envio de recados?

Biondi – A comunicação não é infalível e nem sempre chega em todos os lugares ou da mesma forma. Alguns pesquisadores dizem que o lema do PCC mudou. Teriam adicionado a palavra “união”. Fui para a pesquisa de campo e escutei isso. Mudei de bairro e as pessoas nunca tinham ouvido falar.

No início, o lema era “Paz, Justiça e Liberdade”, o mesmo do Comando Vermelho. Depois, incluíram “Igualdade” – foi quando um monte de coisas mudaram no funcionamento do PCC, com uma obsessão pela igualdade. Recentemente, houve a inclusão da “União”. Mas até quando fiz a pesquisa nas ruas não era em todo lugar que tinha chegado.

Chegava num bairro, e os moradores não sabiam quem era membro e quem não era. Não é uma coisa tão evidente, como no Rio de Janeiro, onde o dono do morro anda ostentando, com uma equipe de segurança. Em São Paulo, é tudo muito discreto.

Fico imaginando que, se isso foi replicado no contexto de Manaus, as pessoas que mataram (na rebelião) poderiam não saber de fato se os outros eram ou não membros do PCC.

BBC Brasil – As característica de discrição e fácil difusão são específicas do PCC ou são comuns a outras facções? 

Biondi – Pelo o que leio de pesquisas do Rio, (as facções) são bem diferentes em termos de visibilidade e hierarquia. Toda essa forma disforme do PCC é consequência da obsessão pela igualdade. Não é porque sou membro do PCC que tenho mais direitos do que os outros presos.

Tudo vai tornando o PCC disforme: não saber exatamente quem é membro, a pessoa não ostentar, porque ela não pode mandar. Se mandar, vai estar ferindo um dos princípios do lema do PCC. Uma relação de mando vai contra a igualdade e é passível de expulsão.

BBC Brasil – Não existem ordens de um hierarquia superior?

Biondi – Eles não chamam de ‘ordens’, chamam de ‘salves’. Quando uma orientação tem um caráter mais incisivo, ela vem em nome do PCC e não de pessoas específicas. O PCC está acima. Aí sim aparece uma relação de desigualdade.

Alguém comete um erro. Eles não falam em ‘julgamento’, nem em ‘punição’, que são coisas do sistema. Eles falam em ‘consequências’. E como a pessoa vai ser cobrada pelo erro? A cobrança não vem de atores individuais, vem do PCC. Ainda que sejam atores que apliquem a punição. É um método para que você resguarde uma certa ideia de igualdade.

Ela (a consequência) necessariamente tem que ser anônima.

BBC Brasil – Na madrugada de sexta, houve a rebelião em Roraima, com 33 mortos, e governo do Estado falou em envolvimento do PCC. A vingança faz parte do modus operandi da facção?

Biondi – Em certos casos, sim. Já fiquei sabendo de ocasiões em que até a igualdade é requisitada para justificar vida que se paga com vida. Aí eles decretam a morte de pessoas com base na igualdade. É possível.

BBC Brasil – No livro, você conta como PCC saiu vitorioso em São Paulo depois de várias brigas entre facções nos anos 1990. Estamos vendo uma volta desses conflitos?

Biondi – Em São Paulo, não. O PCC ainda é hegemônico e não temos notícias de guerra. Sempre aparecem pontos de oposição, mas são muitas cadeias em São Paulo, com 200 mil presos. É a maior população carcerária do país, e mais de 90% são alinhados ao PCC, com base no que dizem presos e agentes carcerários. Não se acaba com esse tipo de hegemonia de uma hora para outra.

Em outros Estados, isso está em jogo ainda. É a frente expansiva e expansão não se dá sem morte. De um lado ou de outro.

BBC Brasil – O PCC tem a expansão como um de seus objetivos?

Biondi – Sinceramente, não sei.

As pessoas que são do crime são a despeito do PCC existir. É ilusório pensar que uma pessoa trafica drogas por causa do PCC. Mas para esse negócios, sejam assaltos, tráfico ou outra atividade criminosa, já há um bom tempo (as pessoas) saem de São Paulo. E às vezes são presos fora (do Estado).

Imagino que, na hora que se é preso em outras cadeias, leva-se a ideia. É um dos fatores de expansão e mesmo de aliança, de tornar as coisas mais fáceis para práticas criminais. Mas não sei se existe um propósito comum.

BBC Brasil – Você começou a pesquisar o PCC em 2003. Percebe mudanças da facção nesse período?

Biondi – Algo apareceu recentemente, quando voltei a estudar cadeias: os demais presos, não membros do PCC, reclamam que a cadeia está largada, que a quebrada está largada, que o PCC está fraco. A ideia seria de conivência. Vejo que cada vez menos a resolução de conflitos se dá de forma violenta. Eles têm se tornado mais tolerantes, digamos. E isso tem muito a ver com a Lei de Drogas, que agora tem dez anos.

Depois da lei, não se encarcera usuários, mas os usuários passaram a ser presos como traficantes. Então, as cadeias de São Paulo estão lotadas de usuários e eles não são necessariamente do crime, não têm essa ética do crime. A forma de lidar com isso foi tornar-se mais tolerante e conscientizar essas pessoas em vez de cobrar.

Nessa lógica, os usuários ficam dando mancada toda hora e os outros presos ficam nervosos, dizendo que o PCC está frouxo.

BBC Brasil – Conscientizar de que forma?

Biondi – É conversar, explicar. Dizer: “se você fizer isso, está desrespeitando o companheiro”. Aí o cara comete outro erro, e o PCC conversa de novo.

Imagino que seja uma decisão política. Porque se fossem expulsar todas as pessoas que cometem erros dessa natureza, de convívio, a oposição já estaria maior do que o PCC. É uma estratégia para manter a hegemonia e trazer as pessoas para o lado do PCC e não torná-las inimigas.

Leia aqui a entrevista publicada originalmente no site BBC Brasil

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